O advento da Modernidade estabeleceu a secularização, que consistiu na perspectiva de vida e sociedade que já não se baseiam mais no regime religioso, mas secular. Essa mudança paradigmática-conceitual alcançou a todos e também chegou a todas as instituições, uma realidade irrevogável. É desse processo de secularização que nasce o pluralismo, fruto da globalização, que consiste no fator de multiplicação e ampliação das possibilidades de escolhas, produzindo sentimentos ambíguos nos indivíduos
No que diz respeito a religião, Peter Berger (2017) afirmou que o pluralismo é a maior mudança provocada pela modernidade em relação ao lugar da religião na sociedade, pois, anteriormente a religião norteava e permeava a vida pública, e agora deve ser entendida como uma esfera privada, porque a visão que impera é a da laicidade. Nesta perspectiva, a desinstitucionalização deveria ser entendida como aumento da liberdade e autonomia para o indivíduo, mas, o que pôde ser contemplado é que a vertigem da liberdade abriu caminho para uma inquietação. Na tentativa de aliviar a inquietação sobressaiu o fundamentalismo e o relativismo. O fundamentalismo acionou sua retórica “a promessa da certeza redutora”. Já o relativismo, de acordo com a cosmovisão moderna, não havendo mais uma verdade absoluta que rege a vida e as coisas, tudo se tornou relativo, resultando na globalização da superficialidade, que resultou na desumanização e fragmentação da pessoa. Logo, a modernidade não é só sinônimo de secularização, mas também de pluralismo.
Nesta perspectiva, Hervieu-Lègier (2015) nos aponta cinco pontos para a legitimação desse processo: primeiro, a primazia da razão, para dissipar a ignorância geradora de comportamentos e crenças irracionais; segundo, a autonomia do sujeito- construtor de seu próprio mundo; terceiro, o homem legislador de sua vida; quarto, a vida social deixa de ser governada por regras ditadas por uma instituição religiosa; quinto, a emancipação do ser humano, como sujeito autônomo que governa sua vida. Sendo assim, o pluralismo tornou-se um postulado axiológico (valor) da cultura ocidental, resultando num politeísmo de valores.
Pluralismo na educação
Partindo da realidade macro, que é o pluralismo, percebemos que ele alcançou todas as esferas, inclusive a educação. De acordo com o conceito primário, educar consiste no ato de dirigir, encaminhar para o desenvolvimento e aperfeiçoamento das faculdades intelectuais e morais das crianças, jovens e adultos por meio de teorias, exercícios, exemplos e etc. ou seja, obter o desenvolvimento das virtudes contidas no interior do sujeito. Desta forma, como pensar o pluralismo educacional? De acordo com o ponto de vista laico, nos é apresentado a neutralidade procedimental, que assume os valores constitucionais como um projeto racional da práxis, para que assim haja um modelo plausível de neutralidade (Salguero Salguero, 2015). Isto é, uma neutralidade que tem como objetivo, somente as exigências do rigor científico. Diante do pluralismo educacional encontramos uma pluralidade de projetos educacionais e pedagogias dando a liberdade de eleição para os cidadãos, sendo esse um pilar para a educação pública.
Se a educação tem como fundamento o desenvolvimento integral da pessoa, a dimensão religiosa precisa também ser contemplada. Pois ela é dimensão constitutiva da pessoa, somos homo religiosus. Portanto, frente a essa realidade nos é necessária uma teologia do pluralismo religioso como suporte epistemológico, que parta da premissa antropológica: de onde vim? Para onde vou? Qual o sentido da vida? A chave antropológica é capaz de abrir para a transcendência, neste ponto reside a novidade que pode nos permitir dialogar entre educação e religião, mesmo num mundo plural, por isso, se faz necessário uma teologia cristã do pluralismo religioso neste tempo, pois, torna-se assim mediação pedagógica e epistemológica no campo da educação.
A dimensão testemunhal da fé cristã
Neste mundo plural, como educação católica, o que fazer? Partiremos do mandato missionário de Jesus ressuscitado aos discípulos, pois este, está intimamente ligado ao múnus de ensinar: “Jesus se aproximou deles e disse: toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Ide, pois, e fazei todos os povos discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo o que vos ordenei. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 18-20). A experiência íntima e profunda com a pessoa de Jesus, pela graça do nosso batismo, habilita-nos a cumprir o que ele nos mandou. Ou seja, ensinar a guardar o que Ele ordenou, é que faz a diferença na vida do educador, habilitando-o com sua vida e testemunho, transmitir o que recebeu, sem necessitar de fazer proselitismo. Esta é a pedagogia testemunhal.
O Papa Bento XVI nos exortou, “também hoje a Igreja, se quiser falar eficazmente ao mundo, se deseja continuar a anunciar com fidelidade o Evangelho e fazer sentir a sua presença amistosa aos homens e às mulheres que vivem a sua existência sentindo-se peregrinos da verdade e da paz, deve tornar-se, inclusive nos contextos aparentemente mais difíceis ou indiferentes ao anúncio evangélico, testemunha da credibilidade da fé, ou seja, deve saber oferecer testemunhos concretos e proféticos através de sinais eficazes e transparentes de coerência, de fidelidade e de amor apaixonado e incondicionado a Cristo, não separado de uma caridade autêntica, do amor ao próximo.
Desta forma, necessitamos com urgência de uma pedagogia testemunhal que ajude ao ser humano de hoje a experimentar a profundidade de sua humanidade. Que integra e desperta para um sentido sapiencial da vida, que seja capaz de sentir e saborear as coisas internamente. Uma educação que nos permita ser educados pele Mestre Interior, Jesus, pois é nesse processo educativo que ele faz emergir o que temos de melhor dentro de nós.
Referências
BERGER, Peter. Os múltiplos Altares da Modernidade. Rumo a um paradigma da Religião numa época pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017.
HERVIEU-LÉGER, Danièle. O Peregrino e o Convertido: a religião em movimento. Tradução de João Batista Kreuch. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
SALGUERO, Manuel. Libertad de enseñanza, neutralidad y libertad de cátedra como formas de pluralismo institucionalizado. Universidade de Granada, 1995.
BENTO XVI. 16ª Sessão Pública das Academias Pontifícias. 30 novembro de 2011.

