Pastoral vicentina em diálogo com a sociedade

Categorias:

Pastoral vicentina em diálogo com a sociedade

As atividades de uma escola católica, assim como a dinâmica do “ser pastoral”, tem como fundamento a justiça que advém do Reino de Deus que transcende uma busca unicamente religiosa, mas que se faz necessária na concretude da existência para que todos tenham vida em plenitude, como o próprio Jesus afirmou: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Segundo o modelo de justiça e pessoa apresentado no relato das bem-aventuranças, faz-se necessário pensar no cristianismo como modo de se servir ao próximo. São Vicente de Paulo percorreu o caminho da santidade na busca incansável da vontade de Deus, no esforço cotidiano de superação de seus próprios limites e no dom total de si mesmo aos pequenos e pobres. Sendo assim, faz-se necessário atender às necessidades e modos de ser de cada pessoa. Assim como Jesus fez ao se relacionar com a singularidade de cada um de seus discípulos e seguidores, acolhendo-os nas diferenças culturais e de personalidade. 

Dessa forma, as escolas vicentinas buscam expressar com clareza seu projeto pedagógico pastoral tendo o valor da justiça, entendida a partir das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. Neste ponto, a pastoral escolar é responsável por ligar o evangelho e a espiritualidade vicentina com ações concretas, tendo em vista que todas as ações   de São Vicente de Paulo e Luiza de Marillac tiveram sempre em mente a justiça aqui na terra, “neste mundo”.

É necessário remontar às origens, à experiência espiritual e às intenções de São Vicente para poder conhecer plenamente e guardar com maior fidelidade a índole original e o espírito do fundador, bem como para colher, das mesmas fontes, uma inspiração mais insistente, a fim de corresponder à vocação e, dessa maneira, manter e expressar o lugar e o fim que lhe foram legados na Igreja. É urgente a necessidade de estar em sintonia com os fundadores para se ter e desenvolver um sentimento de justiça, a partir da ótica da espiritualidade vicentina, que seja compartilhado por todos os atores do processo educativo, sempre tendo como ponto essencial uma fé que é sentida e rezada a partir das e para as melhorias sociais, políticas e existenciais das pessoas. 

Na perspectiva de fé adotada por São Vicente de Paulo, a opção pelos pobres se reveste de um caráter visceral e diz respeito ao que há de mais essencial às suas fundações. Nesta opção, encontra-se “uma maneira particular de ser como Jesus Cristo”, isto é, um modo característico de segui-lo. São Vicente descobriu Cristo nos pobres e os pobres em Cristo. Ele dizia: “Virai a medalha e vereis, à luz da fé, que o Filho de Deus, que quis ser pobre, nos é representado por estes pobres”. Ele estava convencido de que os pobres “são nossos irmãos, a quem Deus nos manda assistir”. Por isso, “o serviço dos pobres deve ser preferido entre todos os outros” (SV IX, 208). Há uma identificação profunda entre Cristo e os pobres. Por meio deles, o Senhor interpela a sensibilidade humana, considerando como feito a si o que se faz pelos pobres, já que eles são seus membros”. Portanto, dirá o santo fundador às Filhas da Caridade: “servindo aos pobres, serve-se a Jesus Cristo. Ó minhas filhas, como isso é verdade! Vós servis a Jesus Cristo na pessoa dos pobres. E isso é tão verdadeiro, como o fato de estarmos aqui. Uma irmã irá, dez vezes por dia, ver os doentes e, dez vezes por dia, encontrará Deus neles (…)”. Aí está o sentido pleno da caridade: direcionar para o pobre o amor recebido de Deus em Jesus Cristo.

A espiritualidade de São Vicente de Paulo se torna uma crítica por uma busca desenraizada da vida cotidiana, mostrando uma espiritualidade bem “pé no chão”. É preciso manter sempre unidas a dimensão espiritual e a corporal, assegurando aos pobres um serviço de promoção humana integral e tornando-os protagonistas de sua própria história. 

A partir desta ótica, as escolas vicentinas buscam ser escolas em pastoral, de modo que todo projeto pedagógico-pastoral seja orientado a formar integralmente seres humanos capazes de viver este princípio essencialmente vicentino: o olhar especial para os pobres. 

Ver e servir o pobre como ferramenta de uma pedagogia libertadora

Para uma análise fenomenológica do conceito de pobre no quesito filosófico, apoiamo-nos brevemente no pensamento de Enrique Dussel, filósofo argentino que disseminou a Filosofia da libertação na América latina. O núcleo básico da estrutura de pensamento dusseliano está inscrita sob a égide da vida da vítima que é negada por meios de um sistema que não permite a fluência do ato da vida acontecer, fluir em sua plenitude, ela é tolhida por um pensamento ideológico que aprisiona a liberdade de ser, nisto se apresenta a raiz de sua luta contra esse sistema responsável por essa negatividade. 

O pensamento de Dussel encontra como fundamento o critério crítico de que o sistema de eticidade parte da existência real de vítimas e que norma, ato, microestrutura, instituição ou sistema, modo de vida e cultura parte da existência real de ‘vítimas’, sejam elas quais forem. Dirá Dussel: “É ‘criticável’ o que não permite viver”. Este pensamento filosófico poderia dialogar com o testemunho de São Vicente que, em seu projeto de evangelização, sempre se deteve naquilo que “negava” a vida, visto que todo o evangelho se insere na máxima cristã “que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). 

Neste sentido, o plano pedagógico pastoral de uma escola vicentina vê a necessidade de se dialogar com um projeto filosófico-crítico que questione e reflita sobre a questão e o status do pobre. Quando Dussel utiliza da terminologia da Vítima, ele se refere aos que sofrem as imperfeições, os erros, as exclusões, as dominações, as injustiças, entre outros, das instituições empíricas não perfeitas, finitas, dos sistemas existentes. Logo, faz-se necessário uma crítica ao sistema para, assim, conseguir “dar passos” na direção de uma sociedade mais plena de vida e possibilidades de existência.  

Buscar, construir, promover e lutar pela “possibilidade de existência” vêm ao encontro do carisma vicentino, o qual se espraia pelas opções pedagógicas e pastorais das escolas, visto que temos em nossas ações em Rede de escolas, o trabalho voluntário aliado à formação crítica e reflexiva desenvolvida na sala de aula por meio de um currículo evangelizador, que conduz nossos educandos a uma percepção real da sociedade e busca inseri-los nas problemáticas de maneira transformadora e não apenas contemplativa.

Autoria:

Marcelo Sterpheson