A espiritualidade da inquietude

Categorias:

A espiritualidade da inquietude

 “Uma espiritualidade é uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o Evangelho.” (Gustavo Gutierrez)                         

Atualmente, estamos imersos em uma era repleta de crenças, mas que, muitas vezes, carece do compromisso fervoroso de transformar a realidade que circunda nossas vidas. As preocupantes tendências de espiritualidades que se desviam dos desafios humanos têm encontrado terreno fértil entre aqueles que se autodenominam seguidores de Cristo de Nazaré.

A configuração da mentalidade de espiritualidade cristã, que está gradualmente se delineando e gestando em nossas comunidades eclesiásticas, tem lamentavelmente gerado comportamentos de animosidade, recusa ao diálogo, rejeição ao outro, adesão à cultura da indiferença e elevação excessiva do ego. Essas atitudes refletem um narcisismo prejudicial, um otimismo simplista e uma positividade tóxica, desviando-se completamente da essência da espiritualidade cristã que flui das páginas do Evangelho e do compromisso intrínseco com a construção de uma civilização do amor e da solidariedade global.

Acreditamos inabalavelmente que a espiritualidade cristã é uma senda que valoriza e fomenta práticas inspiradas pelo exemplo de Jesus de Nazaré. Contudo, essa autêntica proposta tem sido obscurecida por vozes religiosas extremistas, que debilitam o senso de responsabilidade pelo próximo e minam o engajamento nos espaços de luta em prol dos direitos humanos. O cenário ainda mais preocupante é a ascensão de discursos que insuflam a consciência de uma fé complacente diante de um mundo caótico, no qual a comunidade científica é desconsiderada, os esforços de políticas sociais impulsionadas pela Campanha da Fraternidade são desacreditados e ações que promovem agressões sociais e ambientais são toleradas.

O perigo da fé tranquila se faz cada vez mais presente nesses novos tempos de espiritualidade pastoral. Galilea, um autor católico, nos ensina que a espiritualidade é um modo de viver o Evangelho em um contexto específico. No entanto, em muitas ocasiões, temos testemunhado práticas que pervertem a espiritualidade, transformando-a em um campo que perpetua a malevolência, insensibilidade perante os sofrimentos dos menos privilegiados, inércia diante das violações ambientais, e omissão diante de políticas ideológicas que propagam ódio e da proliferação desenfreada de desinformação.

O Papa Francisco nos direciona a um tipo de espiritualidade que vai além de qualquer inclinação voltada para si mesmo. Como ele afirma em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG, 262): “É preciso rejeitar a sedução de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação.”

Consequentemente, a espiritualidade da inquietude surge como um movimento impulsionado por uma crença encarnada, que ousa tocar as feridas do mundo e que se recusa a se conformar com uma interpretação do Evangelho que negligencia o cultivo de uma fé solidária. Esta abordagem rompe com qualquer estilo de pastoral que fomente a acomodação diante das vicissitudes da vida humana.

Autoria:

Jean Michel Alves Damasceno