“Esconde-esconde”: o divino se fez criança e aceitou brincar conosco

“Esconde-esconde”: o divino se fez criança e aceitou brincar conosco

“Quando a estrela acende ninguém mais pode apagar

Quando a gente cresce tem um mundo pra ganhar

Brincar, dançar, saltar, correr

Meu Deus do céu onde é que eu vim parar?”

Paulo Tatit

A compreensão sobre a infância no decorrer da história da humanidade sofreu uma série de transformações. Destaca-se de imediato na trajetória histórica, o “não lugar” que, durante anos, a criança ocupou. Na Idade Média, conforme aponta Philippe Ariès (1978) não havia uma separação clara entre o que seria adequado para crianças e o que seria específico da vivência dos adultos.

Desde a sua gênese, a palavra infância carrega consigo o estigma da incapacidade, da incompletude perante os mais experientes, relegando-lhe uma condição subalterna diante da sociedade. Era um ser anônimo, sem um espaço determinado socialmente. A infância é um conceito que começará a se desenvolver, segundo Zygmunt Bauman (1998) a partir dos séculos XVI e XVIII, através da Revolução Educacional. Dessa maneira, a concepção moderna de infância moderna, ainda presente em alguns espaços em nossos dias, apresenta-se assim: uma fase da vida em que os indivíduos precisariam de cuidados especiais e deveriam estar resguardados de algumas informações que pudessem lhes ser nocivas, para que se desenvolvessem e se constituíssem, no futuro, como adultos plenos.

Por outro lado, no espaço-tempo da contemporaneidade, a infância conquistou um outro status, o século XX representou um marco na inserção da criança na sociedade, passou a ser reconhecida como um período fundamental no desenvolvimento do ser humano, com características próprias e práticas específicas.

Vale ressaltar que o reconhecimento, os novos conhecimentos sobre a infância trouxeram valorização e proteção para a criança, que passou a ter direitos garantidos por lei, assumindo uma posição prioritária nas políticas públicas, já que a melhoria na qualidade de vida das crianças é essencial para empreender transformações sociais[2]. Portanto, a partir do momento que se percebe a criança como sujeito de direitos, se descortina novo capítulo na história embasado pelos valores da dignidade e respeito ao ser.

No avançar da reflexão sobre a infância, surge principalmente na América Latina o discurso sobre protagonismo infantil, como ramificação de outros grupos que lutam por melhorias em suas condições de vida. A palavra protagonista foi incorporada ao campo educacional sendo utilizada como forma de promover a participação das crianças no processo educativo e na abertura de espaços que favoreçam o exercício de sua cidadania. A participação é um dos eixos fundamentais para promover o protagonismo da infância. Desde o paradigma do protagonismo infantil, fala-se na participação que reconhece a infância em sua capacidade e possibilidade de perceber, interpretar, analisar, questionar, propor e agir em seu ambiente social, comunitário e familiar.

Essa compreensão só se tornou possível com o desenvolvimento do conceito de infância e uma modificação na maneira de entender a criança e de agir em relação a ela. Com os avanços ocorridos a partir do século XX nos estudos das áreas da educação e da saúde, sobretudo no campo da neurociência, a criança passou a ser reconhecida como cidadã, modificando “profundamente as práticas com a infância, que passou a ser vista como um período de formação fundamental na vida do ser humano”. (Lima, 2001, p.3)

Além dos avanços nas áreas da educação e saúde, a infância contou também com o surgimento nas últimas décadas de um emergente rosto na organização familiar, fruto da nova configuração das famílias, constituindo-se de distintas maneiras (pais separados, mães e pais solteiros, filhos criados por avós, entre outras) e de uma maior abertura na relação pais e filhos.

O cenário reflete um panorama de modificações no modelo educativo adotado pelas famílias na condução do desenvolvimento de seus filhos, a introdução do diálogo, a mudança nos métodos repressivos, a flexibilização das regras e uma participação mais ativa dos filhos na dinâmica familiar. Este fenômeno do respaldo da criança a partir de um lugar diferenciado nas famílias e o fato da inserção social, elevou as crianças na centralidade das discussões da atualidade, como um grupo formador de opinião. Ao longo da nossa exposição, vamos percorrer as etapas da brincadeira de esconde-esconde para interpretá-la à luz do trabalho pedagógico-pastoral.

O PEGADOR, BATE-CARA NO PIQUE-ESCONDE: JESUS E AS CRIANÇAS[3]!

Naquele momento, os discípulos se aproximaram de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino do Céu?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: “Eu lhes garanto: se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças, vocês nunca entrarão no Reino do Céu. Quem se abaixa e se torna como essa criança, esse é o maior no Reino do Céu. E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe.”  Mt 18, 1-5 

Baseados neste texto bíblico de Mateus 18, 1-5 podemos propor uma redescoberta da infância, compreendendo as crianças como mediadoras da revelação divina. Elas nesta proposta relacional integram o centro do processo evangelizador, de modo que suas vidas nos comuniquem a novidade de Deus, sendo necessários nessa empreitada momentos significativos de encontro com o transcendente. Acreditamos que de início, seja válida a aposta no potencial que a criança possui para se abrir à transcendência e vivenciar experiências profundas de espiritualidade, visto que a sensibilidade das crianças para o mistério, para a curiosidade sobre a vida favorece maior encontro e familiaridade com o transcendente.

Jesus no episódio relatado em Mateus 18, 1-5, ao responder uma indagação dos discípulos, apresenta uma criança no meio deles e convida-os a se parecerem com ela. Esse “tornar-se criança” é um convite para se colocar no mesmo nível do outro, fazer-se pequeno, ficar à medida dele. É um derrubar as barreiras, fazer um itinerário de aproximação do outro, descobrindo as potencialidades, belezas e desafios num processo de acolhida, principalmente naquilo que o outro carrega de “encarnação” de Cristo Jesus. Nesse diálogo com os discípulos, Jesus declara que as crianças simbolizam o que têm de melhor na humanidade, o reflexo que ele gostaria de ver reproduzido em cada um de nós. Jesus se identifica tanto com as crianças a ponto de dizer: “quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe”. Na verdade, Jesus está misteriosamente escondido em cada criança e cada um está habilitado para reconhecê-lo. Sendo assim, precisamos despertar o Jesus internalizado em cada criança.

Comunguemos das palavras proféticas pronunciadas pelo Papa Emérito Bento XVI, no Santuário de Mariazell na Áustria (Avvenire, 4 set.2007): “Deus se fez pequeno por nós. Deus não vem com uma força exterior, mas vem na impotência de seu amor, que é o que constitui a sua força. Põe-se em nossas mãos. Pede o nosso amor. Convida-nos a também fazer-nos pequenos, a descer de nossos altos tronos e a aprender a ser crianças diante de Deus…O menino Jesus também nos lembra naturalmente todas as crianças do mundo, nas quais quer nos encontrar”.

 OS OUTROS, JÁ ESTÃO ESCONDIDOS: O DIVINO QUE SE ESCONDE NA INFÂNCIA.

As crianças são apontadas como eleitas para receber os mistérios divinos, chave de revelação, sujeitos teológicos. Jesus ao utilizar a imagem da infância nos convida sutilmente a fazer uma inversão irônica da rigidez da Lei, que não requer das crianças seu seguimento ou cumprimento. Deste horizonte, pode-se entender que Jesus ressignifica a noção de reino como uma realidade que ultrapassa o cumprimento do padrão religioso, ele amplia nosso olhar sobre Deus e como nos aproximamos do divino, não se limita na interpretação e vivência de homens adultos. 

…Em outro texto, defini esta lógica “adulto-cêntrica” da seguinte maneira: “Representa-se a vida do adulto, entre outras coisas, com a maturidade, a frieza nas decisões, a superação das instabilidades, a semeadura da razão, a efetividade dos resultados. E é na rigidez destes estereótipos onde muitas vezes perdemos a surpresa da espontaneidade, o frescor do contato dos corpos e a riqueza de caminhos que abrem nossa liberdade intrínseca. Em outros termos, nos esquecemos da condição lúdica que caracteriza a vida social e humana” (Panotto, no prelo)

Deus decide se revelar através da história, portanto nenhum discurso pode descrevê-lo de maneira definitiva. Por outro lado, a imagem de Deus na tradição cristã é marcada fortemente por uma visão masculina e adulta. Esta imagem masculinizadora do divino traz consigo um discurso ideológico que subordina o papel das mulheres e das crianças a uma posição de inferioridade em relação ao homem. Além disso, silencia por completo em várias instâncias – social, familiar e eclesial – o discurso da infância como uma alternativa de sujeitos ativos na elaboração teológica.

É perceptível que o adultocentrismo imperante legitima as formas de construir e exercitar teologia, principalmente ao que diz respeito ao privilégio da manutenção de um lugar no poder que define a realidade e o controle do divino sobre a verdade revelada. O universo teológico precisa avançar para além do discurso habitual, precisamos inserir no campo reflexivo elementos de corporalidade, redimensionar o olhar para aspectos experiencial, participativo e comunitário.

Dessa forma, integrar as crianças no fazer teológico significa um questionamento da lógica adulta, é um passo para desestabilizar a ordem e a estabilidade institucional dos poderes sociais e religiosos. É uma oportunidade para dar voz a um dos setores mais marginalizados de nossa sociedade, um serviço de denúncia e desarmamento de uma prática de poder e domínio por parte dos adultos, especificamente dos homens. As percepções da realidade, assim como a “costura” entre as formas e sentidos com as quais as construímos, precisam ser ressignificadas.

UM ESCONDERIJO DESCOBERTO – O JOGO COMO OPÇÃO METODOLÓGICA.

Vislumbrar a infância como espaçotempo teológico, é aceitar o jogo como caminho para construir a vida, as ideias, as percepções e os lugares. No movimento missionário de Jesus Cristo é passar para o outro lado da margem. O jogo é caracterizado pela centralidade da diversão, dispõe o corpo como espaço primordial do movimento, em detrimento à dinâmica da razão. A compreensão do divino passa a ser uma “janela aberta”, visto que os exercícios lúdicos questionam as regras estabelecidas.

Considerar a infância no ato de apalavramento de Deus que é a teo-logia, é uma forma singela de apalavrar sobre as próprias crianças, com a contagiante finalidade de lhes dar um espaço de sentido, é uma forma de localizá-las em um lugar central na criação de percepções. A infância é a representação da noção de processo, de abertura para aquilo que ainda está em devir, do poder do espontâneo. Através da teologia, enquanto lugar emancipatório e social que nos permite ver “além”, seremos motivados por esse frescor da infância em nosso encontro com o divino e nas formas institucionais, ao possibilitar um sentido novo e transformador nos discursos e práticas circundantes no universo das crianças.

Deus se revelou a elas e nelas. O que fazer para que estas vozes sejam escutadas? Como perceber a revelação divina no ser criança? O que devemos mudar em nosso adulto-centrismo para nos abrirmos à surpresa dos gestos de nossas crianças?

Como resposta a esta visão racional, adulto-cêntrica e dogmática do teológico, impõe-se o processo do jogo, não apenas como uma prática específica da infância, mas como uma forma diferente e ousada de ver o mundo e a realidade. O próprio Jesus já nos provocava neste sentido ao falar com os discípulos sobre “ser como crianças”. Os jogos divertem, abrem a imaginação, promovem o movimento do corpo, permitem sonhar e, com isso, promovem uma abertura à novidade transformadora da história revelada pelos milagres, os encontros e as surpresas da jornada dos discípulos enviados em missão. Diante deste cenário, Deus se apresenta de maneira descontraída, ao passo que sua revelação se transforma em um campo desconhecido de múltiplas possibilidades, promove os movimentos infinitos de todo corpo e a liberdade que pulsa da vida. O poeta Rubem Alves nos ajuda na reflexão sobre o encanto da arte de jogar:

No jogo, o homem encontra significado, e portanto, diversão, precisamente no fato de suspender as regras do jogo da realidade, que lhe convertem em um ser sério e em constante tensão. A realidade nos deixa doentes. Produz úlceras e depressões nervosas. O jogo, entretanto, cria uma ordem por meio da imaginação e, portanto, produto da liberdade,

O exercício de fazer teologia a partir da arte do jogo implica mudar as regras da sua produção. É um ressignificar do labor teológico em seu formato adulto-cêntrico, possibilitando à infância a construção de seu lugar social, outro modo de relação com o divino. Assumir o lúdico da teologia reflete a abertura de inclusão para a infância, é evidenciar que existe uma flexibilidade na imagem de Deus. Essa apropriação do processo revelatório divino por um público mais espontâneo, revela que a beleza sutil da infância tem muito a contribuir na construção da civilização do amor.

É notório que a linguagem do brincar é a própria expressão da infância. O brincar apresenta inúmeras possibilidades, sendo a principal atividade das crianças. Na brincadeira, o mundo da infância se transforma e a criança produz cultura, constrói vínculos, interage com seus pares, sente prazer e reflete a presença divina por meio do movimento gerador de vida, leveza e agilidade criativa. Infelizmente, a brincadeira está perdendo espaço para as mídias e para as rotinas intensas na escola. É urgente despertar a voz de esperança do profeta Jeremias, quando ele proclama: “as praças da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão”.

Ao brincar, a criança passa a interagir com o mundo que a cerca, desenvolve a imaginação e interioriza a realidade. Além disso, existe a possibilidade de potencializar a escuta das crianças em brincadeiras, ao motivar para o diálogo sobre os assuntos que lhes afetam e opinem de maneira compatível com o momento da vida em que elas se encontram. Nesta dinâmica de roda de conversa lúdica, as crianças poderão expressar o jeito “divertido” de relacionar-se com o transcendente.

O despertar do protagonismo infantil nasce dessas iniciativas que promovem a autoproteção e empoderamento das crianças – para que elas ampliem a capacidade de argumentação e sejam escutadas de maneira integral. São nesses e outros espaços lúdicos que existem a garantia do exercício da cidadania. Afinal, as crianças são sujeitos que se expressam e agem com singularidade, produzem cultura, aprendem nas interações sociais com os diversos interlocutores e são portadoras de um discurso teológico. Como afirmam White, Willmer e Bunge:

A teologia das crianças funciona como corretivo para esta marginalização ou invisibilidade das crianças no pensamento mais generalizado. A teologia das crianças sustenta que nós cristãos devemos seguir a Cristo e colocar as crianças em nossa elaboração teológica, porque isto é inerente à nossa fidelidade e nos une aos seguidores de Jesus (2011:23).

O PEGADOR GRITA: “FULANO 1, 2, 3!” – POR UM RECOMEÇO DA BRINCADEIRA!

Pela nobreza de aceitar com simplicidade a mensagem evangélica, as crianças são dom e sinal da presença de Deus em nosso mundo, tanto que Jesus as acolheu com especial ternura, conforme Mateus 19, 14. Por sua vez, Rubem Alves reforça que “quem não sabe brincar e não é criança não se entende com Deus” (Ibid.: 20). Portanto, as crianças nos ajudam a aprender a respeito de quem é esse Deus que nos ama, sendo possível aprender inclusive de forma lúdica.

Mais uma vez retomamos a máxima – “aprender a ser como as crianças” – para entender a lógica do reino de Deus. O contexto em que as crianças se apresentam a Jesus, nos provoca que o êxito da pastoral da infância implica numa resistência perante os problemas, críticas e oposições que possam surgir. O próprio Jesus nos oferece o caminho: agir com amabilidade, com uma pedagogia da ternura. A pastoral de Jesus com a infância nos converte em defensores das crianças, em promotores de ações concretas, para promover a dignidade das crianças. É um convite a sermos ativistas pela infância, a sermos como as crianças que são os mais indefesos e vulneráveis da sociedade. Na verdade, é o “despontar” de uma nova visão em relação à infância, que no campo teológico será o eixo universal na missão da Igreja.

A criança, como espaço sagrado, exige de cada um de nós uma atitude de reverência e cuidado. É necessário o desejo de aproximação desta “terra santa”, que oportuniza novas alegrias, descobertas, profunda aprendizagem e uma intensa humanização. Ao retirar nossas sandálias diante do chão sagrado e acolhermos a criança enquanto “terreno transcendental”, brotará um sentido que se vai descobrindo em detalhes do cotidiano, comunhão à mesa, abraços solidários e festivos, almas em diálogo rico e profundo, o sabor da graça na caminhada contínua nessa estrada estreita. Nesse contexto, as crianças são recebidas, abraçadas e se tornam sinais de nossa esperança cristã.

REFERÊNCIAS

BLOG da formação à distância sobre estímulo à participação infantil. Disponível em: http://participacaoinfantil.blogspot.com.br/2008/10/participao-e-protagonismo-infantil.html. Acesso em 25/08/2015.

CAMINHOS de Solidariedade Marista nas Américas: crianças e jovens com direitos. Subcomissão Interamericana de Solidariedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2013. 204 p.

CORES em composição na Educação Infantil. Rede Marista de Solidariedade. 1ª ed. São Paulo: FTD, 2010. 100 p.

PASTORAL na Educação Infantil: Referencial para a ação pastoral-pedagógica. Grupo Marista. Curitiba: Champagnat, 2012. 207 p.

PROJETO para a Educação Infantil: Currículo em Movimento (volume 2). Província Marista Brasil Centro-Sul. São Paulo: FTD, 2007. 240 p.

SEGURA, Harold; PEREIRA, Welinton (orgs.). Para falar de criança: Teologia, Bíblia e Pastoral para a Infância. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2012. 196 p.

TEXTOS de trabalho. Curso EaD Escola em Pastoral: Módulo I – Evangelização das Infâncias. Província Marista Brasil Centro-Norte. Brasília, 2015.

 BUNGE, M. J.; WHITE, K. J.; WILLMER, H. (Ed.). Los Niños Como Clave Teológica, Uma aproximación teórica y experimental. Buenos Aires: Ediciones Kairos, 2011

ZATTONI, Mariatereza; GILLINI, Gilberto. Deus faz bem às crianças: A transmissão da fé às novas gerações. São Paulo: Loyola, 2010. 218 p.

Autoria:

Ir. José Sotero