A Assembleia do Sínodo dos Bispos de 2024 marcou a culminância de um processo de reflexão que teve início em 2021, com o objetivo de renovar a Igreja por meio de uma abordagem mais participativa e inclusiva. Em uma estrutura que se estendeu por várias fases, com debates em diferentes níveis, o sínodo concluiu com a publicação de um documento final que traz propostas concretas e estruturais para a Igreja do futuro. Marco inédito é que por decisão do Papa Francisco esta edição do Sínodo não ensejará a publicação de uma exortação apostólica, ficando o documento final como um texto de cunho magisterial.
O processo sinodal vivido entre 2021 e 2024 foi um marco significativo na história da Igreja, uma vez que buscou aprofundar o conceito de sinodalidade, entendida como “o caminhar juntos” dos fiéis na direção de uma Igreja mais unida, aberta e missionária. Desde a sua abertura, o sínodo incluiu amplos debates sobre temas como o papel das mulheres, a descentralização da autoridade e uma maior participação dos leigos na tomada de decisões dentro da Igreja. Os debates culminaram em um documento que não será seguido por uma exortação apostólica, mas que, segundo Monsenhor Riccardo Battocchio, Secretário Especial do Sínodo, faz parte do Magistério da Igreja, oferecendo diretrizes para o futuro.
O Documento Final
O documento final, que contém 155 parágrafos e tem peso de Magistério, foi dividido em cinco partes principais:
- O Coração da Sinodalidade: Este segmento trata da conversão necessária da Igreja e da escuta do Espírito Santo, destacando o chamado à sinodalidade como uma expressão de unidade e diversidade.
- Juntos, na Barca de Pedro: Foca na conversão das relações, enfatizando a importância da comunhão e da colaboração entre todos os membros da Igreja.
- Sobre a Tua Palavra: Destaca a conversão dos processos, incluindo uma maior valorização da Palavra de Deus e da catequese.
- Uma Pesca Abundante: Refere-se à conversão dos laços, com propostas para fortalecer a relação da Igreja com as diversas culturas e contextos regionais.
- Eu Também Te Envio: Trata da formação de discípulos missionários, com foco na formação integral e contínua, especialmente no contexto da liderança eclesial.
Entre os pontos destacados no documento estão a ênfase na participação ativa dos leigos, com maior envolvimento nas assembleias eclesiais, nos processos de discernimento e na tomada de decisões. Também se propõe um maior papel para as mulheres, especialmente no que se refere ao ministério diaconal, que continua sendo um tema em aberto.
Polêmicas e frutos
O documento final reflete o consenso geral, mas também expõe pontos de divergência, principalmente em questões como o papel das mulheres na Igreja e a descentralização da autoridade. O parágrafo sobre as mulheres, por exemplo, recebeu 97 votos contra, sinalizando que ainda existem resistências e expectativas divergentes. Embora o texto reconheça as contribuições das mulheres, o acesso delas a posições de liderança e o ministério diaconal permanecem em aberto, com a sugestão de continuar o discernimento teológico sobre o assunto.
Além disso, a questão da descentralização e a revisão das competências das Conferências Episcopais geraram 45 votos contrários, com receios sobre possíveis interpretações divergentes da doutrina em diferentes regiões. O parágrafo sobre liturgia também recebeu votos contrários, abordando a relação entre sinodalidade e liturgia, e propondo um grupo de estudo para aprofundar essa reflexão.
Outro aspecto importante foi o apelo a uma “conversão relacional”, com ênfase na abertura para o outro e a escuta mútua, algo que se considera essencial para superar as divisões do mundo moderno, como as guerras e a exploração das pessoas e da criação.
O porvir da Igreja
Com a aprovação do documento pelo Papa Francisco, o Sínodo de 2024 propõe uma reconfiguração da Igreja como uma instituição mais sinodal, ou seja, mais participativa e colaborativa, onde cada membro tem um papel significativo. Contudo, a implementação dessas propostas será um processo gradual, com a continuação de grupos de estudo até 2025, que irão trabalhar em questões delicadas e assegurar que a sinodalidade se torne uma realidade vivida e não apenas teórica.
Dessa forma, o Sínodo de 2024 representa apenas uma renovação do espírito de missão e de comunhão dentro da Igreja Católica por meio de mudanças estruturais que acolham os novos tempos da humanidade, com um olhar atento às questões contemporâneas e à necessidade de adaptação a contextos culturais diversos.

