Os pensamentos políticos e pedagógicos de Paulo Freire e Papa Francisco têm a capacidade de nutrir nossa esperança, ao mesmo tempo em que despertam nos interlocutores a vocação intrínseca à humanidade, criando as condições para a humanização. Os princípios que fundamentam esses pensadores, apesar de terem surgido em épocas distintas, compartilham as mesmas urgências e emanam da sensibilidade e do desejo de construir uma sociedade renovada, fundamentada na cultura do encontro com o próximo. Sob essa perspectiva, somos chamados a assumir a responsabilidade de contribuir para a mudança deste mundo, transformando-o em um lugar melhor para se viver. Assim, Paulo Freire, por meio de sua obra “Pedagogia da Autonomia”, e o Papa Francisco, através do “Pacto Educativo Global”, personificam os anseios de uma pedagogia contemporânea, profundamente humana e orientada para o encontro com o próximo.
Paulo Freire, grande educador da América Latina, propõe uma educação libertadora que, além de despertar para os caminhos da autonomia frente às realidades desumanizadoras e opressoras, também contribui com as transformações sociais, ou seja, uma educação que não se acomoda, mas que carrega em si o espírito da mudança. Em sua obra Pedagogia da Autonomia, evidencia-se o carácter politico da educação, assim como a possibilidade de transformação pessoal e social decorrentes de um modelo de ensino capaz de humanizar e promover a autonomia de cada individuo.
A iniciativa do Papa Francisco ao lançar o Pacto Educativo Global em 15 de outubro de 2020, no Vaticano, representa um apelo pessoal e coletivo de grande significado. Ele convoca toda a sociedade a uma reflexão mais profunda sobre a necessidade premente de promover uma educação que seja verdadeiramente aberta e inclusiva. Essa chamada à ação transcende fronteiras religiosas e culturais, destacando a importância universal de uma educação que vá além do mero fornecimento de conhecimento acadêmico.
O Pontífice enfatiza a urgência de criar espaços onde a escuta ativa seja valorizada, onde cada voz seja ouvida e respeitada. Em um mundo marcado por divisões e polarizações, o diálogo torna-se uma ferramenta essencial para construir pontes e compreender as diversas perspectivas que moldam nossa sociedade. O chamado à promoção de uma educação inclusiva e centrada no diálogo é um apelo à construção de um mundo mais solidário, onde a diversidade seja celebrada e onde todos tenham a oportunidade de desenvolver seu potencial máximo. “A escola é um lugar de encontro e hoje precisamos desta cultura do encontro para nos conhecer, para nos amar, para caminharmos juntos” (Papa Francisco, 2014, p. 45).
O Pacto Educativo Global é, portanto, um convite inspirador para que indivíduos, instituições educacionais, líderes políticos e a sociedade como um todo se unam em um esforço conjunto para transformar a educação em uma força poderosa na construção de um futuro mais justo e sustentável para todos. Através desse chamado à educação aberta, inclusiva e dialógica, o Papa Francisco nos lembra que a educação é uma força transformadora capaz de moldar um mundo melhor para as gerações presentes e futuras.
Nesta pesquisa, pretende-se analisar e compreender os pensamentos de Paulo Freire e Papa Francisco em favor da construção de um “itinerário pedagógico”, no qual a promoção do ser humano em sua totalidade seja o centro das ações e políticas educacionais. Destaca-se, de modo especial, a obra Pedagogia da Autonomia, de Freire, e o Pacto Educativo Global, representado pelo Papa Francisco e, 2020. Ambas as iniciativas apresentam elementos que colaboram com o desenvolvimento de uma educação criativa, crítica e marcadamente participativa.
Educar para a esperança
É preciso recordar as belas palavras do grande pedagogo brasileiro:
“Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico. Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim, convencido, parto para o embate sem levar em consideração os dados concretos, materiais, afirmando que minha esperança basta. Minha esperança é necessária mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita de água despoluída. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança que se funda também na verdade como qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes fundamentais. O essencial, como digo mais adiante no corpo desta Pedagogia da esperança, é que ela, enquanto necessidade ontológica, precisa de ancorar-se na prática. Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera pura, que vira, assim, espera vã (Freire, 2023, p. 76)”.
Para Paulo Freire, a esperança está intrinsecamente ligada à ação transformadora. Educar para a esperança significa cultivar a crença de que é possível superar desafios, injustiças e desigualdades por meio da conscientização e da ação coletiva. Ele via a educação como uma ferramenta para a emancipação, permitindo que as pessoas adquirissem o poder de compreender e questionar sua realidade, identificar problemas e desigualdades e, em seguida, agir para resolvê- los. Na perspetiva de Freire, a educação para a esperança envolve a capacidade de ajudar as pessoas a compreenderem sua realidade social, econômica e política, tornando-as conscientes das estruturas de poder e das injustiças que as cercam.
Além disso, se faz necessário promover o diálogo como um meio de questionar, refletir e analisar problemas sociais, permitindo que os alunos desenvolvam uma visão crítica do mundo ao seu redor. Capacitar os educandos para que se tornem agentes de mudança em suas próprias vidas e em suas comunidades, para que sintam que têm o poder de agir e fazer a diferença. Em resumo, educar para a esperança significa promover uma educação que vá além do mero ensino de conteúdo acadêmico, enfatizando a conscientização, o diálogo crítico e a capacitação dos alunos para que se tornem agentes de mudança em busca de uma sociedade mais justa e esperançosa. É uma abordagem que coloca a ação transformadora no centro da educação, acreditando que, através dela, é possível construir um mundo melhor (Holleben, 2021).
Compreender a missão abraçada por Paulo Freire, tal como delineada em sua obra Pedagogia da Autonomia, ganha ainda mais relevância ao considerarmos o contexto de ditadura militar e exílio em que ele operou. Isso nos incentiva a direcionar nosso olhar para um cenário que, em muitos aspectos, guarda semelhanças notáveis com os desafios que temos enfrentado nos últimos anos.
Especialmente após a pandemia de COVID-19 e o avanço de movimentos de extrema-direita no Brasil e em todo o mundo, vemos a emergência de uma série de crises que transcendem as fronteiras nacionais. Estas crises abrangem questões ambientais, econômicas, migratórias, políticas, demográficas, bem como a busca de significado nas vidas dos jovens e desafios persistentes na área da educação, entre outros.
O Papa Francisco, ao tratar destas crises, proporciona uma cultura do encontro, na qual, evidencia a paz e a educação cada vez mais comprometidas com a construção de uma sociedade justa e igualitária. Tanto o Papa quanto Paulo Freire podem ser considerados homens inconformados com as feridas da realidade concreta presente na sociedade. Ao reconhecer a educação como formação integral, trazemos à memória a recordação das coisas, tal como elas são, por meio do poema de Angelus Silesius, “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê…”.
Com isso, caracteriza-nos uma visão do desenvolvimento do educando em todas as dimensões e inteligências: física, emocional, inter-relacional, interioridade, ética, espiritual e serviço ao próximo. É o caso, por exemplo, das manifestações feitas pelo Papa Francisco, que considera a importância das três linguagens da educação: “É preciso abrir-se a novos horizontes, criar novos modelos a partir de três linguagens: da mente, do coração e das mãos, isto é, ensinar a pensar, sentir e fazer” (CNBB, 2016, p. 56).
Por isso, está em pauta a defesa e a necessidade de promover uma educação que estimule a reflexão, a criticidade, o debate, a escuta e a solidariedade, numa perspectiva integral do sujeito-educando. Os passos propostos por Freire para construir uma alfabetização diferenciada, somado às três linguagens da educação indicadas pelo Papa Francisco, permitem pensar em uma educação comprometida com a integridade do ser humano, com sua totalidade. Não se trata de um ser humano isolado do mundo, solipsista, ao contrário, trata-se de um ser humano no mundo, em contato com o outro e com o meio em que vive. Trata-se, em última instância, de um modelo de educação libertadora, criativa e que estimula e possibilita a autonomia e não somente a formação técnico-profissional.
Voltemos ao Papa Francisco, pois foi ele que nos lembrou por meio do Pacto Educativo que devemos priorizar uma educação humanista e solidária como modo de transformar a sociedade. Francisco desafia-nos à espera. Uma espera que nos movimenta, que impulsiona a uma atitude atenciosa e ativa. Paulo Freire, por sua vez, mostra que na vida escolar e acadêmica o que deve prevalecer é a espera do verbo esperançar. Uma esperança que se levanta e vai atrás, uma esperança que se constrói, se movimenta é e capaz de construir.
Neste sentido, a esperança deve assumir uma conotação ontológica, uma vez que se revela como sendo a própria essência do processo de educar. A esperança é o fundamento que dá unicidade a toda atividade pedagógica, uma vez que é o motor propulsor de toda mudança desejada. Porém, a esperança só será alcançada por meio de uma prática educacional fundamentada no encontro e no amor; no respeito e no diálogo; na abertura e no compromisso com o outro. Este é o único caminho capaz de propiciar a verdadeira mudança social. Fomentar a autonomia, promover o diálogo e a ética como condições indispensáveis para transformar as pessoas para, assim, transformando as pessoas, transformar as estruturas sociais que insistem em perpetuar um modelo excludente e pouco acolhedor. A educação é uma experiência radical e transformadora que nos ajuda a “construir gente”, formar cidadãos e construir, assim, uma nova sociedade por meio do reconhecimento do outro, de se revelar como parte exterior, como liberdade, como resistência, tal qual ele é, comprometido com seu conhecimento, suas vontades, e seus sentimentos.
Com isso, reafirmamos que tudo que é experimentado pela humanidade de cada educando possui interesse à educação, desenvolvido por meio da cultura do encontro, tema central na concepção educacional do Papa Francisco e de Paulo Freire. Sob essa perspectiva inovadora, homem e mundo se conectam e se fazem a um só tempo e a consciência do mundo seria a própria revelação de sua existência (Boto, 2019).
Voltemos aos escritos de Paulo Freire, que pontua que:
Uma das tarefas mais importantes da prática educativa-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque é capaz de amar (Freire, 2000, p. 46-47).
É neste sentido que o ato de apreender deve sempre ser levado como uma experiência de individualidade, o que não pode ser confundido com o sentido egoísta do termo “individualidade”, e sim o sentido afirmativo da personalidade individual, que nos remete a ideia de um ser único, singular e, portanto, protagonista de sua própria história.
Por uma pedagogia que liberta Paulo Freire pensa, fala, escreve e atua em prol da libertação dos oprimidos e marginalizados pela ‘cultura do silêncio’, aqueles que sempre foram rebaixados à condição de meros objectos. Luta e sonha por uma educação enraizada na existência dos educandos, o que torna a escola um espaço de autonomia e de amadurecimento intelectual. Uma educação que dá asas por meio de novos caminhos e sonhos, permitindo a individualidade de si e do outro, no cultivo de seus próprios interesses e no respeito aos interesses coletivos. Dito de outro modo, Freire propõe uma verdadeira revolução no modo de ensinar, evitando domesticar os alunos, mas direcionando-os para serem agentes de transformação social, comprometidos com o espaço público.
Pela reflexão de Paulo Freire, o ser humano tem a vocação para a liberdade e para a libertação. Antes de tudo, a ideia de uma pedagogia do oprimido supõe o encontro do povo, a formação, a humanização e a conscientização. A tomada de consciência do povo sobre seu papel na história significaria uma acção coletiva sobre a própria opção histórica. Paulo Freire, acerca disso, já advertia os contemporâneos para o opressor que habita o coração do oprimido. Mais do que isso, para ele, seria a autolibertação das pessoas que possibilitaria também a libertação dos opressores. Nessa medida, ao educador, caberia dialogar com o povo sobre sua própria ação, de maneira a possibilitar que sua consciência de si viesse dialeticamente a ser transmutada em uma consciência para si. Por tal razão, a ideia de diálogo é, para a pedagogia de Paulo Freire, fundamental. A história de vida – em um tempo no qual a pedagogia ainda não falava disso – ou a autobiografia individual e dos grupos seria o ponto de partida desse modo de compreender a educação e o intercâmbio de culturas (Boto, 2021, p. 121).
Para concretização desta proposta pedagógica que representa um compromisso com a formação integral dos educandos, Paulo Freire assume posturas corajosas e proféticas, frutos de uma profunda sensibilidade para com as camadas mais oprimidas da sociedade, o que se traduz em gestos e práticas concretas.
A educação libertadora de Paulo Freire é um modelo pedagógico que transcende os limites tradicionais da sala de aula. Ela se fundamenta na crença de que a educação é uma ferramenta poderosa para a transformação social e pessoal. Freire acreditava que os alunos não deveriam ser meros receptores passivos de conhecimento, mas sim agentes ativos de sua própria aprendizagem e, ao mesmo tempo, cidadãos críticos e conscientes de sua realidade. Seu método pedagógico envolve o diálogo, a problematização das questões sociais, a conscientização e a ação coletiva. O objetivo central é capacitar os indivíduos a entenderem sua realidade, questioná-la e, por meio da reflexão e da ação, transformá-la em uma direção mais justa e igualitária. Freire “busca promover uma educação conscientizadora ao aluno, o que significa levar às parcelas desfavorecidas da sociedade o entendimento da sua situação de oprimidas para que ajam em favor da própria libertação” (Gomes; Toniosso, 2019, p. 322). A educação libertadora de Paulo Freire não apenas busca promover o conhecimento acadêmico, mas também aspira à emancipação e à libertação das pessoas, capacitando-as a serem agentes ativos na criação de um mundo mais justo e humano.
Esse sujeito, formado por uma educação singular, torna-se mais responsável pelo meio social do qual faz parte. Desta forma, a escola tem o papel ativo na sociedade como conjunto de ações, partindo de conceitos teóricos para a prática que se reproduz na atividade cotidiana dos homens. Essa forma de pensar a escola a coloca como espaço de transformação social.
Ao visitarmos o Pacto pela Educação, nos deparamos com as urgências atuais que o Papa Francisco faz questão de ressaltar, dentre elas a importância de a escola ser um local de referência positiva na vida dos educandos e dos seus familiares. Proporcionar espaços de acolhida, escuta, ou seja, fazer com que a escola seja um lugar para todos e que a educação floresça na vida de cada educando podendo exercer sua autonomia com responsabilidade e com o apoio dos educadores.
Dessa forma, o Pacto Educativo Global nos ajuda a perceber que também existem convergências de manifestações, ou seja, podemos desempenhar o papel de educadores ao lado daqueles que compartilham interesses semelhantes aos nossos e, assim, fortalecer nossa atuação. No entanto, em algumas circunstâncias, isso pode não se concretizar devido à precariedade do sistema educacional, à realidade na qual a escola está inserida e a outros fatores, uma vez que nem sempre existe um consenso universal em relação à educação. Portanto, a educação permanece uma experiência paradoxal. No entanto, é imperativo que continuemos a nutrir o sonho de promover os valores que desejamos cultivar em nossa sociedade.
É uma realidade que nos leva a uma seletividade humana, e que em vez de aproximar os povos, afasta-os. […] Mas isto acontece também em nosso âmbito: o pacto educativo entre a família e a escola se quebrou! Deve-se recomeçar. […] A educação formal empobreceu por causa da herança do positivismo. Concebe apenas um tecnicismo intelectualista e a linguagem da mente. E por isso empobreceu-se. É preciso interromper este esquema. E há experiências como a arte, o esporte. A arte e o esporte educam. É preciso abrir-se a novos horizontes, criar novos modelos (Francisco, 2015 apud Sayago, 2019, p. 88).
O que aproxima Paulo Freire e Papa Francisco é o fato de que suas utopias continuam possibilitando pensar em uma educação comprometida com a construção e emancipação humana voltada para as transformações da vida em sociedade, uma educação autônoma e libertadora. Vale lembrar que a palavra utopia não ocupa um lugar vazio no mundo da educação como algo irrealizável ou como forma ingênua de ser, mas como algo que ainda não é, mas pode vir a ser lugar de transformação. Ao tratar da relação entre Freire e Papa Francisco, e da sensibilidade destes com o mundo, emerge um olhar reflexivo como forma de compreender os desafios assinalados pelas causas assumidas de ambos.
Com isso, podemos compreender a educação como um compromisso consigo e com o mundo, Papa Francisco o deixa mais evidente quando assinala os setes compromissos pelo Pacto da Educação:
1) Colocar a pessoa no centro de cada processo educativo;
2) Ouvir a voz das crianças, adolescentes e jovens a quem transmitimos valores e conhecimentos;
3) Favorecer a plena participação das meninas e adolescentes na instrução;
4) Ver na família o primeiro e indispensável sujeito educador;
5) Educar e educarmo-nos para o acolhimento, abrindo-nos aos mais vulneráveis e marginalizados;
6) Encontrar outras formas de compreender a economia, a política, o crescimento e o progresso, na perspetiva duma ecologia integral;
7) Guardar e cultivar a nossa casa comum, protegendo-a da exploração dos seus recursos, adotando estilos de vida mais sóbrios e apostando na utilização exclusiva de energias renováveis (Pacto Educativo Global, 2019).
Aproximações entre a pedagogia da autonomia e o pacto global
O Pacto Global representa uma aliança em prol de um futuro melhor. Assim, é importante observar que o primeiro compromisso enfatiza a importância da colaboração entre todos os atores da educação, incluindo instituições acadêmicas, religiosas, governos, organizações não governamentais e a sociedade em geral. A ideia é que juntos, esses grupos podem criar um ambiente educacional mais enriquecedor e eficaz. No segundo objetivo o Pacto destaca a necessidade de uma educação que seja verdadeiramente inclusiva, aberta a todos, independentemente de sua origem étnica, religião, gênero ou condição socioeconômica. Isso promove a igualdade de oportunidades e o respeito pela diversidade.
Na mesma linha de análise, o terceiro objetivo do Pacto se concentra na conscientização ambiental e na responsabilidade ecológica. Reconhece a interconexão entre educação e sustentabilidade, incentivando a formação de cidadãos conscientes do impacto de suas ações no meio ambiente. O quarto objetivo destaca a importância de uma economia que esteja a serviço das pessoas, e não o contrário. O Pacto promove uma educação que capacite os alunos a compreender e enfrentar questões econômicas e sociais de maneira ética e responsável.
O Pacto Educativo Global reforça a necessidade de uma educação que promova a compreensão dos princípios do bem comum e da justiça social, conforme se observa no quinto objetivo. Isso implica em formar cidadãos que participem ativamente na construção de sociedades mais justas e equitativas. O sexto objetivo é reservado à promoção de uma cultura do encontro, essencial para combater divisões e polarizações em nossa sociedade. O Pacto incentiva uma educação que estimule o diálogo, a empatia e a compreensão entre diferentes culturas e perspectivas. Por último, mas não menos importante, o compromisso com o desenvolvimento humano integral coloca o ser humano no centro da educação. Isso significa que a educação deve ir além do desenvolvimento acadêmico, abrangendo aspectos éticos, emocionais, sociais e espirituais para formar indivíduos completos.
Esses sete objetivos são compromissos que refletem uma visão abrangente da educação como um meio para construir um mundo mais justo, pacífico e sustentável. O Pacto Educativo Global do Papa Francisco busca inspirar uma ação global para alcançar esses objetivos, envolvendo todos os setores da sociedade na transformação da educação para melhorar a vida das pessoas e do planeta.
Francisco explicou que, com esta finalidade, promoveu a iniciativa de um Pacto Educativo Global, “para reavivar o compromisso em prol e com as novas gerações, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão”, convidando todos a “unir esforços numa ampla aliança educativa para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido das relações em ordem a uma humanidade mais fraterna” (Papa Francisco apud Vatican News, 2021).
A proposta da Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire também compartilha muitos princípios com os compromissos do Pacto Educativo Global do Papa Francisco, especialmente no que diz respeito à promoção de uma educação centrada no desenvolvimento integral dos indivíduos.
Assim como na Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, o Pacto Educativo Global do Papa Francisco reconhece a importância de uma educação que capacite os indivíduos a serem ativos participantes de seu próprio processo educacional. Ambos destacam a necessidade de uma abordagem educacional que vá além da simples transmissão de informações, valorizando a formação de cidadãos críticos e conscientes. Assim como Freire, o Papa Francisco acredita na importância do diálogo, da inclusão, da colaboração e do respeito à diversidade como elementos fundamentais para uma educação que promova a autonomia e a emancipação dos indivíduos. Além disso, ambos enfatizam a dimensão ética e social da educação, visando não apenas ao desenvolvimento intelectual, mas também ao crescimento humano integral. Em última análise, tanto a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire quanto o Pacto Educativo Global do Papa Francisco têm como objetivo comum a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e solidária através da educação.
Esses tópicos vão ao encontro a Pedagogia da Autonomia, mas também à ideia de Esperança, que visam relacionar a educação à vida real de cada educando. Exemplo disso é o que podemos conferir em seu diálogo com grupo de camponeses, vejamos:
Paulo Freire, inicia assim o diálogo:
Primeira Pergunta: – Que significa maiêutica socrática? Gargalhadas geral e eu registrei o meu primeiro gol.
– Agora cabe a vocês fazer uma pergunta a mim – disse. Houve os cochichos e um deles lançou a questão:
– Que é curva de nível?
Não soube responder. Registrei um a um.
– Qual a importância de Hegel no pensamento de Marx? Dois a um.
– Para que serve a calagem do solo? Dois a dois.
– Que é um verbo intransitivo? Três a dois.
– Qual a relação entre a curva de nível e erosão? Três a três.
– Que significa epistemologia? Quatro a três.
– O que é adubação verde? Quatro a quatro.
Assim, sucessivamente até chegamos a dez a dez (Freire, 1992, p. 20-25).
Desse modo, o caráter renovador da educação está intrinsecamente ligado a toda relação humana, que é sempre renovada por ser sempre dinâmica. Formamo- nos no diálogo, na interação social com outros humanos, não nos formamos na relação com o conhecimento isolado do mundo e da realidade. O conhecimento pode ser mediador dessa relação como pode também suplantar de vez essa relação.
Com isso, o processo educacional parte da compreensão de que o ser humano é inacabado e que sempre está em constante aprendizagem, dia após dia, o tempo todo, ou seja, que está em total movimento, em constante possibilidade de aprendizagem e transformação enquanto projeto de si e de sua autonomia. Por isso, a educação para autonomia deve fundamentar-se na relação concreta entre o educando e o mundo, isto é, na construção de um mundo melhor, como saída de si, não como ser acomodado que observa a vida passar sentado no sofá como se não houvesse esperança de um futuro melhor.
Considerações finais
Percebemos durante o desenvolvimento desta pesquisa, que contou com as contribuições de Paulo Freire e do Papa Francisco, que a sociedade encontra-se em constante movimento. Diante disso, é impossível pensar em neutralidade no que diz respeito a educação, uma vez que a educação deve favorecer a leitura do mundo. Ler o mundo de forma correta para transformar o mundo de forma correta, este é o desafio de uma educação comprometida e libertadora. Sabendo que a educação é como um coração pulsante que enfrenta e supera as situações desumanizadoras, se faz necessário promover ambientes que estimulem a capacidade dos educandos por meio da reflexão e da ação concreta.
Assim, a discussão sobre as contribuições de Paulo Freire e o Pacto Educativo Global proposto pelo Papa Francisco reflete a importância da educação como uma força transformadora na sociedade. Tanto Freire quanto o Papa Francisco compartilham a visão de uma educação que vai além da simples transmissão de conhecimento, enfatizando a importância da conscientização, do diálogo, da inclusão e da formação de cidadãos críticos e éticos.
Paulo Freire, com sua Pedagogia da Autonomia, destacou a necessidade de uma educação que capacite as pessoas a se tornarem agentes de mudança em suas próprias vidas e comunidades. Ele enfatizou a importância de educar para a esperança, acreditando que a educação é uma ferramenta poderosa para a emancipação e para a construção de um mundo mais justo.
O Pacto Educativo Global proposto pelo Papa Francisco amplia essa visão ao abordar questões globais, como a inclusão, a sustentabilidade e a solidariedade. Ele destaca a importância da colaboração entre todos os setores da sociedade na busca por uma educação que promova o bem comum e o desenvolvimento integral das pessoas.
Em conjunto, as ideias de Paulo Freire e do Papa Francisco ressaltam a importância da educação como um meio de construir sociedades mais justas, igualitárias e esperançosas. Eles nos lembram que a educação não é apenas um processo acadêmico, mas uma força poderosa para a transformação social e pessoal, capaz de inspirar ação global em busca de um mundo melhor para todos.
Referências
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