O Pacto Educativo Global e a ecologia integral

O Pacto Educativo Global e a ecologia integral

O Pacto Educativo e a Laudato Si’

“Este é o sinal da aliança que faço convosco 

e com tudo o que vive convosco, para todas as gerações” 

(Gn 9, 12) 

Na encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da Casa Comum, no Capítulo I: O que está a acontecer à nossa casa, no item 5 sobre a desigualdade planetária afirma que existe uma “dívida ecológica” que obriga a pensar numa “ética das relações internacionais”. Chama a atenção atividade poluente de empresas multinacionais e sobre os danos humanos e ambientais que deixam, entre eles as “aldeias sem vida” (n.51). 

No Capítulo VI: Educação e espiritualidade ecológicas a mensagem é radical: 

[…] a humanidade que precisa de mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração (n. 202).

Na citação o termo “desafio” já expressa a força do que será o Pacto Educativo Global. O item 2, do IV Capítulo, Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente alerta que “A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos […]. Por isso, estamos perante um desafio educativo” (n.209). E recomenda que os educadores sejam “capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (n.210). A encíclica Laudato Si’ atribui aos diferentes âmbitos da educação, e em especial à educação escolar (n.213) a criação de uma “cidadania ecológica” a partir de ações cotidianas, que baseados no cuidado, se constituam em um novo estilo de vida (n.211).  

A “dívida ecológica” ao ser reconhecida e assumida nesse novo estilo de vida interpela por uma “conversão ecológica” profunda:

[…] que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa (n.217).

Segundo Francisco essa conversão ecológica precisa estar pautada em “redes comunitárias”, capazes de unir forças e contribuições que dinamizem uma “mudança duradoura”, uma “conversão comunitária” (n.219). 

Na mensagem do lançamento do Pacto Educativo (12/09/2019) o Papa Francisco apoiado nos desafios sinalizados na encíclica Laudato Si’ afirma que a “mudança precisa duma caminhada educativa que envolva a todos”: “[…] É necessário construir uma ‘aldeia da educação’, onde, na diversidade, se partilhe o compromisso de gerar uma rede de relações humanas e abertas”. Segundo ele, a aldeia é condição para educar e que é urgente “unir esforços numa ampla aliança educativa”. Em 2020, no discurso aos participantes na plenária da Congregação para a educação católica (20/02/2020) explicitou que “a educação é uma realidade dinâmica”, um movimento ecológico, inclusivo, pacificador e de equipe que inspire cuidado e fraternidade.

Caminhar juntos rumo à educação ecológica integral

“Façamos uma resenha… 

das questões que hoje nos causam inquietação e

 que já não podem esconder debaixo do tapete” 

(n.19)

Casa comum?  Para entender o sentido desta expressão compartilhamos a reflexão do Ir. João Gutemberg:

Casa, de forma objetiva é o lugar onde se vive. Comum, traz o toque da subjetividade, pois acena para o sujeito que habita a casa, nesse caso, sujeitos. Sendo a casa habitada por sujeitos-pessoas, convém lembrar que cada pessoa também tem sua casa individual, seu corpo, seus ecossistemas pessoais, onde se conectam seus valores transcendentes. Quanto mais a pessoa souber cuidar de sua casa pessoal, melhor ela vai interagir com os/as outros/as habitantes e com os ecossistemas da Casa Comum. Esta possui ambientes plurais, que vão desde as realidades próximas como a residência, o bairro, a cidade, o país, para chegar à realidade maior do Planeta e do Cosmos.

O termo Casa Comum, portanto, evoca a consciência e a responsabilidade de cada pessoa que habita o Planeta Terra. Consciência de suas possibilidades existenciais e a responsabilidade pelo seu cuidado pessoal e coletivo, pois a casa é de todos e todas. E todos/as dela dependem para viver, sejam as atuais ou as futuras gerações. A ciência e todo o processo formativo geram o conhecimento dessas realidades fomentando a consciência e o compromisso no cuidado do ambiente vital. Missão essa que é de suma importância em todo processo educativo. Podemos considerar a escola, também, como casa comum, com sistemas integrados que colaboram eficazmente com o bem-estar social com o cuidado de todos os aspectos da casa que é de todos.

O que está acontecendo em nossa casa? é o título do 1º capítulo da Laudato Si’. Essa indagação se atualiza a cada nova leitura e nos provoca a responde-la. Vivemos num contexto com marcas profundas de um ritmo de vida, trabalho e estudo que poderíamos nos referir a ele como “inorgânico”; uma dificuldade de compreensão e de construção de qualidade de vida e bem comum; uma dinâmica marcada pela cultura do descarte e pela desigualdade planetária; e assistimos a perda da biodiversidade, o esgotamento dos bens culturais, a poluição e mudanças climáticas; entre outras tantas… Precisamos concluir que nesse movimento não há espaço para a globalização da indiferença (n.52), e sim possibilidades de globalização da esperança: “Tomar dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece com o mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar” (n. 19).

A seguir sinalizamos alguns possíveis passos para caminhar juntos rumo à educação ecológica integral:

  1. No currículo: propor critérios
  1. Revisar as propostas educativas e verificar as que coincidem com as proposições da ecologia integral
  2. Implementar grupos de trabalho representativos das áreas de conhecimento que possam avaliar o currículo e propor critérios esperados
  3. Sugerir práticas que ajudem a concretizar o desenvolvimento de propostas educativas ecológicas.

É preciso evitar propor grandes mudanças no currículo que não possam levar-se à prática. Sugere-se planejar câmbios graduais que respondam às possibilidades institucionais, e fomentar a colaboração intra e interinstitucional para alcançar as implementações curriculares que se esperam.

b)   Estilo de vida: interioridade, criatividade e compaixão

  1. Elaborar programas curriculares e extracurriculares orientados ao desenvolvimento da interioridade. 
  2. Gerar ambientes institucionais para o desenvolvimento da interioridade e o cuidado das pessoas.
  3. Favorecer / implementar ambientes que incentivem práticas de interioridade com ênfase na espiritualidade ecológica.

É importante não mecanizar as práticas de incentivo à interioridade e nem limitar as experiências de interioridade a práticas de oração e/ou espiritualidade religiosa. Também, é essencial evitar restringir as experiências de interioridade a sua dimensão interna, desconsiderando a sua relação social externa. 

c) Desenvolver uma compreensão profunda sobre as aprendizagens: conexão e comunicação com a vida

  1. Gerar uma visão integradora dos elementos curriculares, projetos educativos e os desafios da evangelização no século XXI. 
  2. Aproximar-se e formar redes com os espaços educativos do bairro a fim de ampliar a colaboração e incidência das propostas.
  3. Avaliar as dinâmicas que potencializam e obstaculizam o encontro fraterno e a atenção aos mais vulneráveis. 
  4. Acompanhar e integrar os saberes produzidos nos diversos âmbitos educativos (acadêmicos, populares, comunitários…) sobre a ecologia integral, direitos da natureza e bem viver.

Este item nos alerta para não isolar as orientações da Laudato Si’ em áreas específicas da instituição, propondo unicamente atividades não formais desvinculadas do processo educativo integral nas quais as propostas se inscrevem. Nessa mesma perspectiva, invita a não entender as propostas pastorais desconectadas de sua relação pedagógica, desarticulando as práticas dos discursos incentivados desde a Laudato Si’ e a Fratelli Tutti. 

A intenção dirige-se à geração de políticas e linhas de ação no desenvolvimento institucional, à concepção de propostas educativas com espiritualidade e análise profundo da realidade que gerem projetos de incidência social e à efetivação de um plano de comunicação que compartilhe e gere sensibilidade com a experiência comum realizada. 

d) Ampliar em nossas instituições ambientes naturais: interação e direito do educando

  1. Propiciar espaços específicos para o cuidado (hortas, jardins, rodas para conversar…)
  2. Adotar ecologicamente áreas internas e externas à instituição para favorecer o encontro e a melhoria da comunidade
  3. Incentivar aulas ao ar livre e em espaços naturais
  4. Avaliar o impacto ambiental que tem nossa instituição 

Propõe-se a que as ações não se limitem ao âmbito da educação ambiental generalizado, desconectadas de sua relação ecológica integral. Também, sugere evitar polarizar a eco-sensibilidade somente na dimensão material, descuidando aos pobres e vulneráveis, ou a sustentabilidade como um tema das 3 ou 5Rs e não como cultura do cuidado. 

Anela-se o aumento das alianças com o entorno, a melhoria dos espaços sociais e familiares desde a cultura do encontro e do cuidado, a geração de ambientes que incentivem a integração e o contato com a natureza e o aumento de espaços “verdes” nas instituições escolares. 

Palavras finais

Cuidar da Casa Comum, é algo relativamente fácil, talvez, o mais difícil está na dimensão do querer, na atitude de cambiar de mentalidade, e agir em conformidade com esta.

Para as instituições o desafio centra-se em gerar critérios de avaliação de uma cultura ecológica integral. Para nós, pensar, sentir e agir ecológico-integralmente.

Autoria:

Luiz Felipe Lacerda

Humberto Herrera