A experiência das Casas de Francisco e Clara

A experiência das Casas de Francisco e Clara

Desde o chamado feito pelo Papa Francisco em 1º de maio de 2019 para ‘realmar a economia’ a partir de uma economia que faz viver e não mata, que inclui e não exclui (FRANCISCO, 2019), dois aspectos são fundamentais: a primeira é a ascensão de uma pluralidade de juventudes com estudos, práticas e novas formas de associação. Outra são as camadas de adesão ao chamado do Papa Francisco. Entende-se por adesão, as diferentes formas com que o encontro da proposta de Francisco resvala em diversas experiências e formas. Interessa saber que todas compõem um todo diverso que sustenta uma reflexão anti-neoliberal.

Ao se propor anti-neoliberal se opõem a toda a formulação da economia-política contemporânea concretizada em meados dos anos 60 e 70 e implantada nos estados-nações por meio do consenso de Washington e de grandes lideranças globais como Margaret Thatcher ao sentenciar: “A sociedade não existe. Existem homens, existem mulheres e existem famílias”. Têm-se neste ponto um elemento central de nossa formulação: o neoliberalismo é, portanto, mais do que um sistema econômico de trocas e produção, o é sobretudo, uma subjetividade (LAVA; DARDOT, 2016), uma espiritualidade (BOFF, 1996), uma pedagogia (ARRUDA, 2015) e implica um modo de vida imperial (BRAND; WISSEN, 2021).

Neste exato momento da história é preciso reconhecer que o neoliberalismo se estruturou não em ruínas como insistimos em pensar, mas em escombros que não compõem a capacidade de recomposição por meio de sua lógica (ARANTES, 2014). O desaparecimento das expectativas revolucionárias, por exemplo, é apenas parte do problema da nossa época. O novo tempo do mundo, segundo Arantes (2014) reside justamente nesse não-paraíso: desigualdade econômica crescente com o esvaziamento da proteção social, crises migratórias e humanitárias das populações periféricas excluídas dos fluxos de riqueza e, por fim, a crise socioambiental e climática decorrente da disputa por recursos naturais transformados em mercadorias. Arantes (2014), nos provoca a cavar sobre os escombros da história, e, este processo arqueológico tem sido para as pessoas inseridas na Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara a capacidade de nos escombros do neoliberalismo erigirmos novas experiências, práticas que impõem um fim a esse sistema. Pois, se há neste planeta uma pessoa quer seja construindo realidades alternativas a esse sistema, há neste presságio um anúncio de que o sistema econômico-político vigente tem dia e hora para acabar. O que determinará o seu término cedo ou tarde é a capacidade organizativa e dispersiva dessas forças.

O princípio está na sentença de um lugar-limite dentro deste sistema, onde, ou salvamos a todos, ou morreremos todos (BOFF, 2014), o que segundo Dom Pedro Casaldáliga sentenciou na seguinte frase: “a humanidade tem o DNA de Deus e não é suicida”. É uma sentença de esperança e compromisso as lutas e resistências históricas e que diante dos escombros da história, o Papa Francisco nos convoca a olhar para a história do jovem pobre de Assis, São Francisco que recebe o seguinte chamado de Deus: “Francisco, vai e repara a minha casa que, com vês, está em ruínas” (FRANCISCO, 2Cel 10,4). Essa provocação do Papa Francisco para buscar interromper o fim da casa comum, terra, se veem possíveis ao observar-se entre as brechas dos escombros os movimentos populares, as organizações, que por meio da educação popular produzem práticas anti-sistêmicas que desenham novas arquiteturas econômicas e uma nova cultura.

As oscilações de possibilidades no plano econômico, social e psíquico, sobretudo, está na necessária superação de um sistema tecno-totalitário de extração violenta do valor através de um corpo cada vez mais impotente (BERARDI, 2020) é a constatação de que pós-pandemia esta conjuntura econômica é de agravamento e de uma explosão de bolsões de misérias num cenário distópico. A saída, deste modo, não poderá ser protagonizada pelo Estado, por mais que o reconheçamos como construtor do bem comum, e sim a saída deverá ser forjada por milhares de dissociações seletivas e temporais do sistema que ocorrem em comunidade (ACOSTA, 2015). Pensar, sentir e agir (FRANCISCO, 2018) diante do colapso civilizatório é recompor as sociedades ao fazer coletivo, a retomar práticas comuns que beberam os antepassados e na atualidade somos cada vez mais distanciados. É beber nesta tríade de Francisco das dimensões colaborativas do humano a partir da terra, a partir dos direitos sociais, a partir do trabalho e ‘realmar’.

Realmar é mais do que uma constatação de uma novidade, é uma concretização que o humano tem que dar vida às suas relações, ao seu corpo etéreo e retomar seu caminho a um encontro integral com ser vivo que foi colocado: a mãe-terra. Consequentemente, a economia e ecologia se enlaçam para serem duas matrizes do pensamento a serem absorvidas pelo território, a fim de aproximar horizontes utópicos a partir das práticas da Economia de Francisco e Clara.

As Casas de Francisco e Clara surgem desta constatação de que sobre os escombros é possível sedimentar uma nova casa. A Casa, portanto, aponta para os limites da casa comum compreendendo o limite climático, socioambiental, político, econômico e cultural. É uma revolução em si, porque não pretende ser uma ONG (Organização Não Governamental), e sim, uma inspiração, aspiração, provocação, sentido onde as hermenêuticas da Economia de Francisco e Clara se assentam. 

A construção da Casa de Francisco e Clara no chão da realidade 

O desenvolvimento de trabalho social e de base em articulação em redes se mostra, há muitos anos, fundamental para ampliação da qualidade nos atendimentos, mas também no exercício de um controle e participação social efetivo que se dá a partir de uma organização em conselhos, diretorias e grupos de voluntariado. Essa demanda urgente foi a motivação para a criação do Instituto Pe. Vilson Groh – IVG que, em 2021, completa 10 anos de existência e institucionaliza a articulação em rede das organizações em que ele já atuava há outros 30 anos.

O que se desenvolve atualmente dentro da Rede IVG é aquilo que serve de base para construção de relações de reciprocidade, parceria e solidariedade. É um organismo de trabalho que encontra nas brechas do sistema capitalista cruel e perverso, as possibilidades de busca por justiça social. A atuação em rede é uma política de existência e resistência tão fundamental para atuação no IVG que já se sabe, terá também na prática, papel basilar para um bom desenvolvimento das Casas de Francisco e Clara.

Considerando isso, parece insustentável não mencionar que será a partir de uma Rede de Casas de Francisco e Clara que muitos dos objetivos sonhados para esses espaços poderão ser vividos e colocados no mundo como novas práticas. A atuação em rede é uma estratégia de sobrevivência, desenvolvimento e mobilização de recursos. É a partir dessa articulação que a potência da atuação de cada Casa de Francisco e Clara se mostra para o mundo e, ao mesmo tempo, a sua força nesse coletivo que reúne partes de um todo, formando um organismo ainda maior.

Não há articulação em redes sem inclusão, aceitação do novo e respeito à diversidade. O texto Florescer Comunitário, de Groh (2020), registra que “um coletivo forte não se faz na comunhão de ideias”. Um coletivo forte se faz com ideias e opiniões diferentes em torno de uma mesma consciência.”. E é necessário que a clareza sobre o encontro certeiro que está por vir com os conflitos seja também, a certeza sobre a importância que esse encontro com o diferente tem para o alargamento de um campo de consciências, senso de coletividade e vida em sociedade.

Articulação em rede significa abertura para compreender o diferente em suas regionalidades, sexualidades, religiosidades e tantas outras pautas identitárias que, quando pensadas em rede, colocam desafios potentes, transformadores e de crescimento para aspectos que vão da comunicação à alimentação. As Casas de Francisco e Clara são uma convocação para o desenvolvimento de uma nova, e menos fria, forma econômica de relacionar-se, mas é também – necessariamente – um convite a lidar com aquilo que pode ser completamente diferente, paradigmático e conflituoso: o outro.

As Casas de Francisco e Clara e sua tão importante articulação em rede são, como registrou Groh 2020, um convite a “irmos ao encontro do outro, de uma outra história e sentir-se parte dela”. É nos encharcar com a realidade das coisas a partir de um olhar e de uma escuta sem preconceitos.”. E o Pe. ainda registra que, somente quando “encharcados de outras vidas” é que a consciência de solidariedade social será um compromisso de todos.

Então, pensar a implementação da Economia de Francisco e Clara através das Casas de Francisco e Clara significa, necessariamente, abrir-se ao outro e, com ele, formar alianças, redes e pontes que permitam aliançar, potencializar e conectar diferenças, diversidades e alteridades com os objetivos de justiça social, equidade e cuidado com a mãe terra.

A Casa de Florianópolis

A iniciativa da construção de um espaço representativo da Economia de Francisco e Clara em Florianópolis surge em torno das vivências de um grupo de jovens com ou sem relação com a Igreja Católica, voluntários e de diferentes áreas de atuação profissional, mas essencialmente crentes de formas alternativas de desenvolvimento político, social e econômico.

Mobilizados em torno das estruturas da Rede Instituto Vilson Groh e da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC, 2020), o coletivo de jovens realiza encontros de mobilização em torno da construção da Casa de Francisco desde fevereiro de 2021. Esse processo visa criar laços entre as juventudes que, críticos do sistema político que preza pela manutenção da desigualdade, estão ávidos por novas formas de reparação social a partir da construção de uma casa que seja, também, um símbolo de resistência e inovação econômica.

O acordo sobre a importância de que esse espaço se estabelecesse dentro dos territórios empobrecidos da cidade e, mais do que isso, dialogasse com a população dessas comunidades trouxe, logo no início das discussões, a necessidade de construir as idealizações dessa casa já na relação com os jovens moradores da região. Dessa forma, se estabeleceu como plano de ação, que a circulação do grupo proponente da Casa de Francisco e Clara em grupos focais com jovens de 14 a 29 anos seria fundamental para o desenvolvimento de uma referência daquilo que se entende como demanda pelas juventudes moradoras desses territórios.

Sendo assim, vale salientar que, pensando em construção de forma democrática e aberta à população, foram realizados três encontros com diferentes grupos de jovens moradores de regiões empobrecidas de Florianópolis, a partir de articulação com as instituições da Rede IVG. O primeiro ocorreu com o grupo de bolsistas do Curso Pré-Vestibular, o segundo com os universitários também bolsistas da Rede e, por fim, um encontro com adolescentes do ensino médio do Colégio Social Marista Lucia Mayvorn – localizado na mesma comunidade onde está prevista a construção da casa. Essas reuniões tinham como pauta explicitar o que é Economia de Francisco e Clara e colher como os jovens moradores dessas regiões enxergam as possibilidades de implementação da proposta realizada pelo Papa Francisco em uma casa localizada na comunidade.

O que são novas alternativas econômicas para os jovens da periferia de Florianópolis? Como articular a construção de um novo espaço dentro da comunidade que represente sentido político para a população moradora da comunidade? O que é possível fazer para contribuir com as demandas dos jovens do território, gerar engajamento em formas de economia solidária e mobilizar a juventude para ocupar esse espaço? Esses e outros questionamentos semelhantes foram a motivação da busca por um ponto de partida daquilo que se entende por Economia de Francisco e Clara para os jovens da periferia.

Afinal, ainda que segundo Souza (2020), o debate entorno da demanda levantada pelo Papa possa ser discutido a partir de pilares como a renda mínima, economia solidária, orçamento participativo e a espiritualidade, esse coletivo de jovens, na relação com os 40 anos de atuação nos morros e periferias da Grande Florianópolis, percebeu como etapa basilar para concepção da Casa de Francisco e Clara, o desenvolvimento de um debate democrático, linear e aberto com a população jovem e moradora da comunidade. Entender que novas possibilidades de exercício econômico que visam negar um capitalismo perverso significam, em suma, a possibilidade de construir pontes que conectem os jovens de periferia com possibilidade de inovação, representatividade e transformação social, necessariamente.

É inegável ainda, a forte relação entre as informações levantadas por esses jovens, daquilo que é pauta, desde 2015, na encíclica Laudato Si escrita pelo Papa Francisco. Os jovens promulgam sobre espaço democrático, de diálogo com o território e, principalmente, cuidado com o planeta – a casa comum. Nos encontros com os jovens da periferia, surgem demandas sobre a produção de hortas comunitárias, composteiras e uso de fontes renováveis de energia como argumentos que respaldam a ideia de construir um espaço que seja, por essência, resistência ao modelo de economia atualmente implementado.

A compreensão dos jovens da comunidade sobre cuidado com a casa comum e uma lógica de sustentabilidade para esse espaço que representa a Economia de Francisco e Clara demonstra, com clareza, a relação desenvolvida por Silva e Benedicto (2020), entre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Economia de Francisco. Segundo os autores (2020), a Igreja Católica estabeleceu por diversas vezes na história um papel fundamental no desenvolvimento e cuidado com pautas sociais emergentes, e essa afirmação reforça a relação de suporte entre as metas estabelecidas na Agenda 2030 dos ODS e as discussões levantadas pelo Pontífice sobre novas possibilidades de pensar a economia.

Atualmente o grupo segue realizando encontros para o desenvolvimento do projeto arquitetônico da Casa de Francisco e Clara, que será construída em uma comunidade de Florianópolis. Um espaço de terra no alto de um dos morros onde a Rede IVG desenvolve seu trabalho foi cedido por uma das instituições da Rede para a construção da casa e uma comissão de trabalho, mobilização de recursos e escrita do projeto implementada. Além disso, segue o trabalho de levantamento de jovens interessados em atuar em parceria com a casa, bem como apresentação da proposta aos jovens moradores da comunidade. 

3.2. A Práxis Cristã e um espaço de contemplação na relação com a Economia de Francisco e Clara

  As Casas de Francisco e Clara em Florianópolis se forma principalmente como espaço de trabalho, moradia, alimentação e atendimento para jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade, mas também espaços de contemplação, aprofundamento e vivência da Práxis Cristã. Esses espaços são a materialização da verdadeira vivência Cristã de conexão e respeito com o outro e sua humanidade

A construção de uma nova perspectiva econômica, mais solidária e humana, vem carregada da dimensão do trabalho, mas também da necessidade de humanizar-se a partir da contemplação, reflexão e aprofundamento na Teologia da Libertação. A proposta consiste em construir espaço físico que possa iluminar as possibilidades de vivenciar um humanismo solidário de entrega e compromisso com o empobrecido e a justiça social.

Um lugar que, subsidiado na compreensão da importância que senso de pertencimento tem na etapa da vida entendida por juventude, possa criar solo fértil para o desenvolvimento de pessoas comprometidas com uma a solidariedade Cristã, compartilhada pelo Papa Francisco. E que, principalmente, comprometidos com o outro, estejam comprometidos com os cuidados com uma casa comum, sem perderem o compromisso consigo mesmos.

Pensar espaços de suporte para Economia de Francisco significa dar consistência a Práxis Cristã em seu sentido mais profundo e essencial que é, em suma, vivenciar momentos de partilha, conexão com o outro e compreensão daqueles que ocupam papéis renegados na sociedade. Jesus tem uma vida repleta de histórias possíveis, mas sua trajetória inteira cabe dentro de verbos como amar, esperançar, perdoar, acreditar e ter compaixão e humildade.

Desenvolver ideias sobre Práxis Cristã é refletir sobre a vida de Jesus Cristo assim como pensar sobre Economia de Francisco e Clara significa colocar a luz sobre as histórias e trajetória de Francisco de Assis. A vida e obra de Francisco e Clara mostram tamanha conexão com a Práxis Cristã e compromisso com os fragilizados que se torna simples e sutil a compreensão de que, na prática, um é também o outro.

É natural compreender que a Economia de Francisco e Clara tem objetivos e estabelece metas que estão conectadas com demandas urgentes dessa casa comum atual e desse momento e contexto ao qual se vive. Mas inegável também, entender que a intimidade de Francisco com os animais e a natureza, bem como sua profunda conexão com a proposta vivenciada por Cristo, mostra o compromisso de uma força divina com a casa comum em sua íntegra, considerando a importância do meio ambiente, pensamento sustentável e a lógica de consumo.

Pensar Economia de Francisco e Clara e a Práxis Cristã é reconhecer a importância do desenvolvimento de seres que se percebam parte de um todo e, por isso também, assumam o compromisso de cuidado com esse planeta. É lançar a necessidade e contribuir para a demanda do desenvolvimento de jovens que compreendam a importância do contemplar e refletir, tanto quanto a relevância do autoconhecimento e do autocuidado como estratégia de respeito às diferenças e cuidado com o outro.

Bases fundantes e metodológicas das Casas de Francisco e Clara

Diante do exposto no capítulo anterior, depreende-se que a única maneira de se colocar em prática o ideal das Casas de Francisco e Clara se dá a partir da construção coletiva. Isso porque o que diferencia a proposta de outros espaços comunitários é, justamente, o objetivo de resposta às demandas locais, que se observam a partir da escuta da comunidade e da partilha do grupo que coordena o projeto com as juventudes locais. A Casa de Francisco e Clara representa um projeto coletivo que se desenvolve em torno de um espaço físico de referência na comunidade, que busque construir e/ou fortalecer demandas percebidas no território, atravessado por espiritualidades libertadoras, a fim de realizar em práticas a Economia de Francisco e Clara, a partir das concepções da Ecologia Integral e da cultura do encontro.

 Organização territorial para transformações estruturais

O território, lugar que abriga as perspectivas de enraizamento da Economia de Francisco e Clara, é protagonista nesta análise porque uma das especificidades da leitura latino-americana sobre o espaço físico é que esta “parte da esfera do vivido, das práticas ou, como enfatizava Milton Santos, do “uso” do território – mas um uso que se estende bem além do simples valor de uso, compreendendo também um expressivo valor simbólico” (HAESBERT, 2020, p. 76). Ou seja, a articulação em redes, que é necessária também no estabelecimento de cada Casa, pressupõe a interligação dos atores e instituições existentes em um lugar no qual se organizam vontades, necessidades e atividades, essencialmente relacionais.

Por isso não se entende território apenas como amontoado de pessoas ou sistemas criados pelo ser humano, mas, como afirma Milton Santos (2001, p. 96), é “o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi”. É a partir deste conceito que se estabelece a construção do eixo prático e real da Economia de Francisco e Clara, que pretende se imiscuir na vivência comunitária para, paulatinamente, ser responsável pelo desenvolvimento de uma outra subjetividade, que responde à Economia que “exclui, degrada e mata” (FRANCISCO, 2019) de maneira igualmente complexa, todavia com a apresentação de uma racionalidade eco-humanista, interligada com o meio ambiente e representada a partir de relações de cuidado integral.

Assim, a conceituação de território, principalmente com o objetivo de sugerir alternativas para as desigualdades sociais, vai além da associação clássica a um espaço de terra ou às delimitações estatais, mas se expande ao transitar por diversos âmbitos das existências (HAESBERT, 2020, p. 76). Com ligação visceral à “defesa da própria vida, da existência ou de uma ontologia terrena/territorial, vinculada à herança de um modelo capitalista extrativista moderno-colonial de devastação e genocídio” (HAESBERT, 2020, p. 76).

Nesse sentido, território é resistência. Organização territorial, fortalecimento do comunitário, impulso às ferramentas que garantam a soberania dos povos, significa resistir e construir modelos que superam as limitações impostas pelo sistema dominante. Por isso “na América Latina o território é lido frequentemente no diálogo com os movimentos sociais, suas identidades e seu uso como instrumento de luta e de transformação social.” (HAESBERT, 2020, p. 76). Além de que o fomento de tais ideais se alinha à necessidade de que “os novos motores da economia devem girar em torno da solidariedade, da reciprocidade, da complementariedade, das harmonias e da relacionalidade” (ACOSTA; BRAND, 2018, p. 136).

Engana-se, entretanto, quem entende que essa assertiva é limitada e analisa pequenas porções do espaço sem se preocupar com mudanças estruturais. Isso porque os lugares “são pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos, individuais, diversos. Eles são singulares, mas são também globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual são formas particulares.” (SANTOS, 2001, p. 112). Por isso que a proposta das Casas de Francisco e Clara apresentam o eixo de atuação na realidade da Economia de Francisco e Clara, que se opõe ao sistema capitalista neoliberal e, para isso, necessita do início do estabelecimento de novas formas de pensar e desenvolver relações, que brotarão do seio dos territórios.

 A coletividade e o comunitário como processo metodológico

O modo pelo qual é trabalhado o espaço do território por meio das Casas de Francisco e Clara é a construção coletiva. Essa metodologia de trabalho se difere da forma pela qual o neoliberalismo indica o estabelecimento de relações individuais e competitivas, nas quais o sujeito se torna uma entidade em competição, na busca constante da maximização dos resultados, exposição a riscos e responsabilidade integral pelos fracassos (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 328). Por outro lado, o magistério do Papa Francisco inaugura na contemporaneidade da Igreja e da sociedade formas de estabelecer relações que se pautam no coletivo, a partir da compreensão mística e transcendente do ser, pautada na fraternidade universal.

 Como cita o pontífice na Encíclica Fratelli Tutti (105), “o individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade”. Sendo assim, são as práticas comunitárias que podem auxiliar ao evidenciar outro mundo possível. Nas Casas de Francisco e Clara, isso significa que nem todos os processos se desenvolverão em linearidade, na lógica empresarial, mas que serão suscetíveis às pessoas e relações que envolvem o território, sem, no entanto, que isso tenha como consequência o apagamento do desenrolar das ações. É necessária a mirada no objetivo do Bem Comum e a compreensão da urgência deste chamado – o de construir subjetividades de cuidado – porque há tempos os seres humanos vem sendo “testemunhas mudas” (LS 36) do colapso civilizatório desencadeado pelo antropocentrismo.

Diante disso, sofrem as sociedades e as relações (entre todos os seres) com o desencadear individualista de afastamento de uma perspectiva de horizonte de paz. Como lembra Papa Francisco, não podemos deixar que nos roubem a comunidade (EG 92), como forma de ser e agir, de construir possibilidades e perspectivas, mesmo que não se enquadrem no que parece, hoje, ser o mais rentável ou lucrativo. Nas Casas de Francisco a Clara, não deve preponderar a competição ou o individualismo. Por isso, todos os processos devem se aproximar ao máximo do coletivo e do comunitário. Coletivo ao estar sempre em sintonia com todos os anseios que envolvem as pessoas relacionadas ao projeto, e comunitário ao nascer no seio da comunidade e das respectivas demandas, ao acompanhar as iniciativas que já havia no território e se propor a ser lugar-farol de esperança para as juventudes.

 Interconexão de espiritualidades no estabelecimento da contemplação mística

Como iniciativa que brota do território e tendo como metodologia o coletivo e o comunitário, ainda não ficam evidentes os diferenciais da proposta de enraizamento das práticas da Economia de Francisco e Clara. Além das atividades a serem desenvolvidas, expostas em capítulo subsequente, tem-se que a interconexão de espiritualidades é também elo que sustenta o projeto das Casas de Francisco e Clara. A consciência de uma origem comum, duma recíproca pertença e de um futuro partilhado (LS 202) é imprescindível para que se estabeleçam pilares com alternativas de mundos a serem palco da Ecologia Integral.

Na compreensão de cada pessoa e cada ser resguarda sua singularidade, sua fé e seu modo particular de contemplação, as Casas buscam o acolhimento de todas essas possibilidades, com a proposta de construir relações pautadas também na mística que envolve as existências. Uma vez que se entende que a crise socioambiental em que se encontra o mundo não será resolvida ou amenizada a partir da mudança de eixos isolados, mas a partir da conversão – no sentido de transformação – integral. “Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante de uma pessoa sem estar pensando no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude” (LS 226). Ou seja, como resposta à cultura do descarte, almeja-se a vivência da cultura do encontro, que acolhe os seres em sua integralidade e propõe um espaço de trocas e descobertas ao receber as experiências vividas pessoalmente e socialmente como possibilidades de aprofundamento da contemplação mística da vida.

Portanto, se o território é o lugar das Casas de Francisco e Clara e a coletividade é o modo de construí-las, a contemplação mística é a base que sustenta a experiência de enraizamento da Economia de Francisco e Clara. Compreendendo, assim, o transcendente que reside além do diálogo inter-religioso ou da aceitação de modos de viver a fé individualmente, para construir um espaço de vivência da fraternidade universal que acolhe todas as manifestações da Divina Ruah a fim de direcionar a misticidade que brota das relações para o estabelecimento do cuidado, entre os seres e a Casa Comum. 

Práxis libertadora das Casas de Francisco e Clara: Pedagogia Ecológica e Econômica 

A vida acontece no território. Esta afirmação é ponto de partida e, ao mesmo tempo, anseio a ser alcançada, para que, de fato, a vida seja vivida em sua plenitude nos territórios. É comum consumirmos pesquisas, dados, informações sobre a vulnerabilidade, os desafios, as carências e lacunas no cumprimento de políticas públicas e garantia de direitos  com recortes territoriais. Com facilidade podemos apontar os bairros e regiões de nossas cidades onde as consequências de uma exploração desmedida são mais visíveis, com taxas de pobreza e com elevadas taxas de marginalização. 

Sendo assim, um dos valores a ser preservado pela organização comunitária que caminha para a concretizar ‘Casas de Francisco e Clara’ é, justamente, reconhecer as potencialidades que cercam e marcam a vida da comunidade. Para além das lacunas sociais, os territórios são selados por uma série de recursos e saberes que moldam a identidade comum do corpo social.

A construção e solidificação dos vínculos comunitários passa também por esse reconhecimento das virtudes da coletividade. São eles que indicarão, necessariamente, os primeiros passos no processo de criar espaços que construam novos olhares econômicos. Isso porque as experiências da comunidade se tornam parte integrante da construção. Quantos são, por exemplo, os territórios que já experimentam articulações de consumo solidário, ou então, as regiões que experimentam a realidade do trabalho cooperado? 

Tais iniciativas, unidas a capacidade de organização, mobilização e criação próprias de cada território, mostram que as ‘Casas de Francisco e Clara’ não nascem do zero, do abstrato, mas do acúmulo militante das comunidades, que desde muito constroem de diversas formas resistências a este sistema marcado pela perversidade acumulatório e excludente. 

As características físicas, geográficas e étnicas são também determinantes, visto que possibilitam frentes características de atuação a partir dos recursos disponíveis. Essas particularidades que compõem a territorialidade auxiliam na busca da identidade local. As potencialidades e os recursos são distintos, embora complementares, entre realidades urbanas e rurais; vila de pescadores artesanais e produtores cooperados da periferia, por exemplo. 

É como resultado da observação atenta desses elementos que a ação prática se desenvolve. Só com a consciência da realidade experimentada pelo grupo é que as ações serão acertadas. Não há receituário próprio, mas tampouco terá sucesso iniciativas que não brotem da reflexão da realidade local, da compreensão da força real e das habilidades acumuladas pela comunidade e da clareza de quais agentes, organismos e forças sociais que serão parte do processo de transformação territorial.  

É oportuno recordar todo o papel, trabalho, metodologia e ação comunitária das Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s em todo o Brasil. Foram elas, que em muitos locais, aglutinaram as forças progressistas e articularam demandas e reivindicações territoriais. O engajamento das CEB’s de outrora revela a viabilidade de trabalhos coletivos e dá dimensão da força potencial a ser alcançada. 

O pensamento e a ação libertadora

         O que a educação tem a ver com a formação para a cidadania? Onde estaria a intersecção entre educar e repensar a economia necessária, a Economia de Francisco e Clara?

         Cada vez mais, é intensa a rejeição da maioria das pessoas ao modelo de globalização que se impõe no continente, por sua incapacidade de resolver os problemas mais graves dos povos. Paulo Freire nos ensina que a história é possibilidade e não determinismo:

“(…) que decorre necessariamente a importância do papel da subjetividade na história, a importância da capacidade de comparar, de analisar, de avaliar, de decidir, de romper, e por isso, tudo a importância da ética e da política”. (FREIRE, Paulo. Educação para a Autonomia, p. 142)

As Casas devem ser lugar que alimentado da história constrói processos de práxis libertadoras. O conhecimento e a prática andam de forma simultânea que não existem um sem o outro. Este momento inicial é muito importante porque é quando se revelam as concepções de mundo que os participantes das Casas têm construído. A partir daí podemos estabelecer um diálogo, questionando suas respostas e reflexões. Esses passos contemplam duas etapas da proposta metodológica de Paulo Freire:

1° Estudo da Realidade

2° Organização dos Dados

Nesse processo surgem os Temas Geradores, extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. Esses conteúdos de ensino são resultados do que se denomina na pedagogia freiriana de metodologia dialógica (FREIRE, 2019). Cada pessoa, cada grupo envolvido na ação pedagógica dispõe em si próprio, de seus valores, concepções. O importante não é transmitir conteúdo específicos, apresentando um paradoxo entre certo e errado; o importante é despertar uma nova forma de relação com a experiência vivida. O ato educativo deve ser sempre um ato de recriação, de ressignificação de significados.

Iniciar os encontros das casas relatando uma experiência concreta tem, por um lado, a intenção de mostrar como as atividades se fazem pedagógicas em toda a sua estruturação, e que são dinâmicas, pois à medida o saber do educando é tão importante quanto o do educador, apresenta-se uma lógica de horizontalidade, que se opõe a relação de autoridade/autoritarismo entre professor/aluno (FREIRE, 2019).

O caminho da práxis libertadora é colocar sentido e razão para caminhar juntos na formulação das pessoas. Se realizássemos uma “oficina”, pode-se perceber concepções, valores e preocupações correntes no imaginário social: a importância da família e da religião; discriminação e diferenças sociais; o problema da pobreza, da impunidade e aplicação das leis. Observa-se também uma problematização da realidade: necessidade de controle social, participação, e elaboração de políticas públicas. Conjuntamente a essas percepções está também uma defesa da posição social, da condição em estão inseridos, ou melhor, excluídos, da sociedade. O objetivo passa a ser justamente o de conseguir, por meio de um exercício prático, ressignificar os conceitos de cidadania e participação.

Portanto, numa oficina o objetivo é a construir um trabalho prático, coletivo, por exemplo: produção de um texto coletivo a respeito de um tema, produzir um planejamento de trabalho, organizar e montar um curso ou mesmo produzir algo que exija habilidades manuais (produção de um vídeo ou um cartaz, por exemplo).

 Realmar a Casa Comum: práticas de economias e ecologias libertadoras

         A organização popular se faz assim, no encontro, na multiplicidade de pautas e na construção da uma coesão. Assim, a Casa Comum começa a ter um tom pluralista, popular e com horizontes comuns humanistas. Trata-se de um todo singular e combativo diante da lógica normalizadora. Portanto, as ferramentas educativas irão produzir espaços de encontro entre os questionamentos dos participantes e práxis econômicas e ecológicas que apontem a libertação.

É importante a consciência que a defesa da vida nas suas mais diversas formas de manifestações, pressupõe-se um a adesão a um novo estilo de vida, que cuida da criação, que faz viver e que inclui. As Casas devem se comportar com casa comum, com uma lógica acolhedora e biocêntrica.

Como articular a Economia Solidária?

         Em diversas regiões do país a Economia Solidária é uma força social importante e com um grande catálogo de ações desenvolvidas que colaboram na consolidação criativa de práticas no território, possibilitando um olhar sobre lógicas anti-neoliberais como a cooperação, a partilha e o compartilhamento de saberes e práticas. A Economia Solidária parte da constatação de que as comunidades e as pessoas são corpos econômicos, que a mente humana e a mente corpórea desconhecem processos de produção econômica desde a solidariedade.

         O uso de moedas solidárias e o fomento a bancos de desenvolvimento comunitário possibilitam uma arquitetura nova de relações econômicas, porque centraliza relações monetárias nas comunidades, abrindo capacidades reflexivas cada vez mais frequentes no povo em não naturalizar uma economia que não é próxima. Essas finanças solidárias são frutos de uma economia de proximidade possibilitada por contra-condutas solidárias.

 Como articular a Agroecologia?

         Agroecologia não é só uma prática, mas uma ciência e movimento social. Ela se coloca num campo de busca de superação do paradigma tecnocrático (LS, 109). Contrária a revolução verde que só incorpora elementos sustentáveis na base do capitalismo predatório. A agroecologia surge da fusão entre agronomia e ecologia, buscando romper com uma visão estreita da agronomia que era só voltada ao desenvolvimento de práticas agrícolas (LESBAUPIN; SILVA, 2017).

         Hoje, sobretudo com a Ecologia Integral do Papa Francisco (LS, 10). A agroecologia integra, cada vez mais, a relação entre luta pela garantia do direito a terra e a ao território, a diversificação da produção, a defesa dos direitos dos agricultores ao livre uso da biodiversidade, a ênfase nos circuitos de uma economia da proximidade e sobretudo, a alimentação adequada e saudável. A proposta de agroecologia em cada região do país deve ser diversificada como sua dimensão pluralista. Por isso, a agroecologia no meio urbano é um aprendizado para retomar os processos produtivos econômicos nas regiões e no meio rural é fortalecer experiências que buscam desenvolver uma tecnologia solidária e coletiva.

Eixos místicos basilares para as Casas de Francisco e Clara

Antes de tudo, a Casa de Francisco e Clara é um espaço de construção de esperança, ou seja, um lugar de traços fecundos. O ‘lugar’ é todo espaço ocupado por um grupo e que se torna instrumento. Pois então, cada Casa, ainda que não inicie com um espaço físico, é chamada a ser instrumento de transformação socioeconômica para o território, ambiente oportuno para vivências anticapitalistas. 

E aqui entende-se por vivências anticapitalistas – também – a negativa aos valores neoliberais e privatizantes da contemporaneidade: o individualismo, o intimismo, o egoísmo, o acúmulo, a concorrência,  a disputa desleal, a centralização e o exibicionismo. 

Cada eixo se complementa e possibilita o exercício da tarefa histórica das Casas: primeirar iniciativas revolucionárias no seu intento inovador de articular os territórios em comunidades em saída. Assim sendo, que as Casas de Francisco e Clara possam ser:

  1. Lugar de encontro com os empobrecidos: o pobre, para além de dados e estatísticas, tem corpo, nome e endereço. Para além de se encontrar com os pobres, a Casa se torna local do encontro dos pobres.  O grande desafio é fazer com que a comunidade se aproprie do espaço, das bandeiras e dos frutos. Neste primeiro se trata também de um evidente recorte de classe, optando com quem e para quem iremos atuar. 
  2. Lugar de trabalho e contemplação: a luta, o trabalho de base e as tarefas cotidianas de condução da Casa de Francisco e Clara convergem com a dimensão do bem-viver. Para além do transcendente, a mística inspira processos práticos de transformação e efetivação concreta de valores. A vivência do bem-viver é também usufruir conscientemente dos recursos disponíveis e não abandonar a construção de outras formas de viver o território.
  3. Lugar de cultivo e preservação da biodiversidade: vivenciar a preservação da biodiversidade não pode ser exclusividade das Casas em zonas rurais e/ou em comunidades tradicionais. É sobretudo nos centros urbanos que a dimensão da convivência harmônica com a flora e fauna devem ser trabalhadas. Hortas urbanas tem se tornado cada vez mais alternativas reais de cultivo e preservação de solo nas cidades.
  4. Lugar de inovação, com energia limpa e renovável: o incentivo à pesquisa e inovação é chave na descoberta de novos formatos de produção e consumo energético. Quanto maior o número de possibilidades para substituir a energia não renovável, mais rápido acontecerá a migração. Já há experiências comunitárias da adesão a placas fotovoltaicas comunitárias que geram energia limpa para todo o território, com todo o processo de geração e distribuição conduzido pela comunidade.
  5. Lugar de potencializar o desenvolvimento regional territorial: o desenvolvimento territorial não é um limitador para aderir a práticas regionais mais amplas. A academia e o movimento social organizado são essenciais na descoberta de novos formatos de atuação, saberes científicos e trocas de iniciativas que possam gerar engajamento local. 
  6. Lugar de vivenciar e aprofundar o humanismo solidário do Papa Francisco: o apelo pela vivência da fraternidade e da amizade social está no centro do humanismo solidário do Papa Francisco, convocando as pessoas de boa vontade a experimentar desde as suas comunidades a dinâmica do diálogo, da construção da paz, a inclusão dos pobres, o cuidado com a casa comum e a prática da justiça.
  7. Lugar de conhecer Teologias para Libertação: a convivência respeitosa, colaborativa e plural de expressões de fé e  religiosidades é importante não só para acolher o mais diverso perfil presente na comunidade, mas para, em diálogo inter-religioso, ter a oportunidade de beber de saberes ancestrais, culturais e religiosos preservados em manifestações religiosas e credos. 
  8. Lugar-farol de esperança para as juventudes: as Casas de Francisco e Clara devem se esforçar para serem antítese da realidade hoje enfrentada pelas juventudes periféricas. A cultura do encontro deve anular o atual cenário recheado pela globalização da indiferença e cultura do descarte, que seleciona aqueles que têm direito de sonhar. As juventudes querem viver e se lançam para construir a Civilização do Amor.
  9. Lugar de partilhar experiências globais por outro mundo possível: a dinâmica de valorizar os territórios não pode ser entendida como formação de guetos, mas oportunidade de se fortalecer a partir de identidades comuns.É importante a interação não só entre práticas locais, mas também de experiências universalizadas e de grande alcance, como políticas de distribuição de renda.
  10. Lugar de escutar os gritos da humanidade e de encontrar-se com a Palavra: a reivindicação local guarda sintonia com o grito da terra e da humanidade. Reconhecer que “tudo está interligado” é proclamar que os problemas socioeconômicos e ambientais tem a mesma raiz e que a transformação e superação destes desafios brotam do chão das comunidades. 

Considerações finais

As Casas de Francisco e Clara sempre será um vir a ser de cada terra e território. Pode ser a luta ligada às mulheres que não conseguem trabalhar, que não tem momento de lazer por serem mães, ou que não tem creches para seus filhos. Pode ser espaço de geração de renda para sustentar trabalhadoras e trabalhadores. Pode ser um coletivo cultural que retoma os saberes ancestrais do território. Pode ser experiência ecumênica de partilha da fé em sua diversidade. As Casas emanam o sonho das periferias existenciais e geográficas no centro. Uma oposição dura ao capitalismo neoliberal, numa proposição óbvia: enquanto houver uma pessoa que seja construindo saídas coletivas, haverá um motivo a mais para sermos anticapitalistas e expandirmos nossas redes de solidariedade e esperança. 

Referências

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BRAND, Ulrich; WISSEN, Markus. Modo de Vida imperial: sobre a exploração dos seres humanos e da natureza no capitalismo global. São Paulo: Elefante, 2021.

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LESBAUPIN, Ivo; SILVA, Evanildo Barbosa da. Para além do desenvolvimento: construir outros horizontes utópicos. São Paulo: ABONG e ISER, 2017.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.SOUZA, André Ricardo de. Pilares da Economia de Francisco e Clara e o enfrentamento da profunda crise. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v. 10, n. 1, jan.- abril 2020, pp. 367-377.

Autoria:

Peterson Prates

Pe. Vilson Groh

Gabriela Consolaro Nabozny

Eduardo Brasileiro

Cayo L.Z. Pedroso