Ouvir, segundo os dicionários de Português, é entender, perceber os sons pelo sentido do ouvido, da audição. Já escutar é tornar-se atento para ouvir, é mais profundo, é uma forma de interagir com a outra pessoa buscando a compreensão e o diálogo.
A escuta ativa é um termo utilizado na comunicação para se referir, especialmente, a ouvir com atenção e interesse. Em outras palavras, é quando uma pessoa mantém um diálogo, prestando a máxima atenção e se interessando pelo assunto de seu interlocutor. A escuta ativa não se limita à fala. Praticar a escuta ativa, tanto no ambiente familiar quanto dentro do ambiente educacional, contribui para o desenvolvimento de relações saudáveis e verdadeiras. O ambiente escolar, especificamente, permite uma aproximação maior entre educador e estudante, proporcionando interação e troca de percepções.
Nesse sentido, o caminho para desenvolver a prática da escuta passa pelo acolhimento, pelo respeito e pela atenção. Acolher as crianças e os jovens sem julgamentos valida os sentimentos e abre espaço para a fala, além de desenvolver as competências socioemocionais necessárias para o bem-estar e crescimento humano integral. Vale ressaltar que o acolhimento não elimina a questão da disciplina e hierarquia, mas reposiciona nosso papel de autoridade formativa como serviço e não como exercício de poder.
O processo da escuta é sutil, pois permite entrar no universo das outras pessoas, possibilitando, inclusive, ajudá-las em diversas situações. No ambiente escolar, existe uma diversidade enorme, que precisa ser vista de uma forma que promova reflexões que possam levar a possíveis resoluções de conflitos. Às vezes, basta ter um olhar diferenciado para uma determinada condição, que já é o suficiente para desencadear sentimentos agradáveis.
Estamos enfrentando tantas adversidades, nos últimos tempos, que é primordial uma escuta diferenciada. A OMS (Organização Mundial da Saúde), recentemente, afirmou, em relatório científico, que a crise da Covid-19 levou a um aumento global de 25% nos casos de ansiedade e depressão, assim como outras patologias mentais. Esse aumento significativo serve de alerta e revela o quanto devemos cuidar da saúde emocional, que devemos nos comprometer em uma prática educacional pautada na afabilidade. Saber escutar é fundamental para fortalecer conexões e melhorar a relação com quem nos cerca. Funciona como um processo transformador individual e, posteriormente, comunitário.
Agindo dessa forma, atendemos a um dos compromissos citados no Pacto Educativo Global do Papa Francisco, que é o de “abrir-se à acolhida”. A partir do momento em que a educação assume posturas de humanização, que enxergam as pessoas envolvidas como sujeitos e protagonistas de seu percurso, reconhecendo sua singularidade como dom, vê-se que, especialmente, os jovens se tornam formadores de outros jovens também compromissados com o bem comum.
Como consequência, a esperança renasce e as oportunidades crescem. Precisamos provocar a união dos diferentes para que a sociedade seja “curada”. Paradigmas, muitas vezes, precisam ser desconstruídos, não para moldar uns aos outros, pelo contrário, mas no sentido de entender que outros modelos podem ser tão bons quanto os que eu cultivo e, talvez, possamos até agregar valores antes inimagináveis.
É um trabalho árduo, muitas vezes exaustivo, a princípio muito personalizado, pois temos que ir tocando cada pessoa que passa em nosso caminho, entendendo suas limitações, suas diferentes opiniões e também enxergando suas possibilidades. Cuidar individualmente impacta no coletivo e favorece a construção de um mundo baseado nos valores voltados para uma solidariedade cristã.
A escola deve ser um ambiente favorável ao desenvolvimento de habilidades, tanto dos estudantes quanto dos educadores. É um verdadeiro tesouro que pode contribuir muito na organização de uma sociedade mais justa e fraterna. Exercícios diários de empatia, capacidade de gestão das emoções e foco nas pessoas, são indicadores valiosos para a construção de um meio saudável, com mais qualidade de vida. Não há receitas prontas, mas precisamos ter autocontrole para pensar antes de agir, aprender a lidar com perdas e frustrações, aprender a se colocar no lugar do outro e autoconhecimento é ferramenta indispensável.
Tempos desafiadores os atuais, mas se queremos uma sociedade mais fraterna é possível atravessarmos esse momento cultivando a esperança e semeando o bem, sempre visando dar sentido à vida e ao desenvolvimento integral do ser humano.

