A mística do chinelo

A mística do chinelo

Um novo emprego carrega muitas expectativas, algumas inseguranças e principalmente novidades. A chegada em uma nova função, no meu caso a função pastoral em uma escola social, em Londrina no interior do Paraná, foi minha primeira contratação. Eu tinha acabado de completar 22 anos, havia me formado em serviço social a cerca de três meses, passei pelo processo seletivo com a certeza de que não seria escolhida. Segui com essa certeza até uma etapa final onde me solicitaram uma vivência sobre Maria e o diálogo interreligioso, nesse momento pensei que seria escolhida, Maria sempre acolhe o que pedimos, essa certeza me fez estar a caminho, como Maria quando saiu apressada para visitar Isabel, aceitei a vaga e comecei meu primeiro emprego.

Um processo repleto de novos momentos me permitiu conhecer a atuação pastoral, mergulhar em documentos e cartas de São Marcelino Champagnatt, me sentir por vezes tão “perdida na neve” quanto o Irmão Estanislau. Os novos desafios eram evangelizar, ser presença significativa, planejar os processos a serem desenvolvidos no ano seguinte, registrar cada um desses momentos em um sistema que traduz em números uma atuação repleta de sentimentos subjetivos.

Seguindo meu processo de adaptação e encontrando caminhos pastorais, pude me aproximar das crianças e adolescentes da unidade, compreender melhor os processos escolares e desenvolver atividades pastorais que estavam no plano de ação. Eu estava mais segura, mais confortável com as intervenções e principalmente mais próxima do grande centro dessa missão: as crianças e adolescentes!

Em alguns processos fui me adaptando muito bem, comecei a organizar login e registros, assistir formações sob assuntos específicos da rede, encontrar documentos que fundamentam esse cotidiano. A graduação, projetos de pesquisa e extensão me deixaram segura com metodologias de trabalho, a acolhida da gestão e de colaboradores foram criando um ambiente que me permitia viver bem minha função, apesar de alguns desafios.

Meu dilema começou em uma manhã comum, estava na sala da pastoral, a porta estava aberta e uma criança me disse uma frase que causaria em mim um desafio profissional:

“Meu chinelo arrebentou, você pode arrumar?”

Disse a criança de no máximo 8 anos, segurando um chinelo na mão e a correia do chinelo na outra. Eu congelei. Sei que muitas pessoas têm essa habilidade desenvolvida já na infância, no mais tardar na adolescência, esse não foi meu caso. Abri a internet e deixei minha rotina de lado procurando soluções para o meu novo problema, identifiquei uma que pareceu segura, um clip de papel!

É importante ressaltar que o meu compromisso com esse dilema, tem um caráter de urgência porque na realidade da escola social, por vezes o chinelo é o sapato que aquela criança tem para um universo de compromissos, perder aquele chinelo ou arrebentar, significa um processo chato ao chegar em casa, broncas, acolhi alguns relatos enquanto eu aprendia a torcer um clip para reparar o sapato. Foi uma entrega realizada, sem compromisso com o sucesso, mas entregue e na expectativa de que aquele chinelo fosse guerreiro por mais um dia!

Saindo da escola comprei um chinelo, voltei pra casa e fui recebida com a pergunta: “Vai comprar um chinelo por educando?”. Ainda que ame crianças, esse seria um uso imprudente a longo prazo do meu salário, assim precisava de alternativas na unidade. No dia seguinte entreguei o chinelo, segui pesquisando soluções para arrumar chinelos arrebentados. Na mesma semana apareceu mais um, eu estava preparada: Um clip de papel, uma vela para esquentar o clip, uma pistola de cola quente para isolar qualquer pontinha de clip. Acreditando na durabilidade da minha gambiarra segui procurando alternativas no meu ambiente e um armarinho surgiu como uma lamparina na neve.

Mandei uma mensagem para o setor de compras pedindo inicialmente 10 correias em tamanhos variados conferindo se seria possível realizar a compra no armarinho, minha gestão imediata levou a solicitação com curiosidade, expliquei o processo de acolhida e o impacto na minha atuação!

Uma vez compradas, a notícia se espalhou e eu estava ainda mais preparada. Foram alguns pedidos de correia nos dois anos que estive na unidade, um investimento baixo e de resultado imediato:

“Meu chinelo arrebentou, você pode arrumar?”

E eu pude, por vezes arrumar, acolher, ouvir sobre o que fez arrebentar e principalmente ouvir diversos e sonoros “que bom que ninguém vai brigar comigo por isso”.

Sei que essa ação nunca chegou no prime, nenhum dos meus indicadores calculou meu índice de chinelos trocados em um tempo recorde, pois ganhei prática. Sei que o uso evangélico dos bens me permitiu encontrar uma forma de atuar com eficácia em uma demanda que para cada um deles foi urgente e séria.

Mesmo que a sua atuação enquanto colaborador não te faça trocar correias vez ou outra, cada colaborador tem em seu horizonte centenas de chinelos e um número ainda maior de sorrisos. Em cada Jesus que podemos encontrar nos pequenos, estamos vestindo, alimentando e por vezes calçando em nossas unidades sociais. Ainda que essa ação nunca tenha passado por registros, fez parte da minha atuação profissional.

Autoria:

Maria Eduarda Garcia