ACENDER LUZES ONDE HÁ PRESSA:

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A CHEGADA DO ADVENTO NOS CORREDORES DA ESCOLA

O RITMO DO TEMPO E A CORRIDA DO ENCERRAMENTO LETIVO

O cotidiano das instituições de Educação Católica é marcado por ciclos e ritmos próprios. Quando se aproximam os últimos meses do ano civil, o ambiente escolar costuma ser inundado por uma forte sensação de urgência. É o tempo do fechamento de notas, das reuniões de avaliação, da preparação de formaturas, da prestação de contas e do planejamento do ciclo seguinte. Entre prazos e o inevitável cansaço acumulado por educadores, gestores, estudantes e famílias, o tempo parece acelerar e fugir do nosso controle.

É exatamente no auge desse frenesi que a Igreja faz soar um convite profético: fazer uma pausa e inaugurar um novo tempo espiritual. O Advento surge não como um encargo burocrático ou um mero detalhe na agenda da pastoral, mas como uma parada necessária para o discernimento e a interioridade.

Na tradição cristã, o Advento inaugura o Ano Litúrgico e nos retira da tirania do tempo cronológico (chrónos) — aquele medido pelo relógio e marcado por obrigações — para nos introduzir no tempo da graça e da oportunidade Divina (kairós). Levar essa mística para o chão da escola significa propor uma verdadeira contracultura: a transformação da ansiedade do “fim de ciclo” na esperança alegre e atuante de um “novo começo”.

A MÍSTICA DA ESPERA ATIVA NA CULTURA DO IMEDIATISMO

Vivemos em uma sociedade estruturada pela hiperconexão e pelo consumo imediato. A escola não está imune a essa aceleração; professores enfrentam sobrecarga e alunos vivem a pressão do desempenho. Diante dessa realidade, o Cardeal José Tolentino Mendonça nos traz uma provocação poética e profunda sobre o verdadeiro sentido dessa estação:

“Que o tempo do Advento seja um tempo para interromper, interromper, interromper… Advento é o tempo de dar tempo a coisas, talvez, esquecidas: acender uma vela; sorrir a um anjo; dizer o quanto precisamos dos outros, sem vergonha. É o tempo de se perguntar: ‘há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?’”

— Cardeal José Tolentino Mendonça (reflexões para o tempo do Advento)

A pedagogia do Advento nos ensina a virtude da “espera ativa”. Esperar o nascimento do Menino Jesus não significa passividade ou acomodação. No chão da escola, a vigilância ativa traduz-se na capacidade de desacelerar o olhar para perceber as presenças e os apelos que nos cercam: o estudante silencioso, o colega sobrecarregado ou as famílias em busca de acolhimento.

Como expressa o Cardeal Tolentino, o Advento nos convida a “contemplar o infinito na história, o inesperado no rotineiro, o divino no humano”.

Para que o Advento não se converta em uma celebração meramente cenográfica, é fundamental conectar o tempo litúrgico ao projeto pedagógico e aos apelos do nosso tempo. O Papa Francisco nos recordava com frequência que a vigilância cristã exige sensibilidade social e presença consciente no mundo:

“A pessoa atenta é a que, em meio ao barulho do mundo, não se deixa tomar pela distração ou pela superficialidade, mas vive de maneira plena… Com esta atitude percebemos as lágrimas e as necessidades do próximo, mas também as suas capacidades e virtudes.”

— Papa Francisco (Oração do Ângelus do tempo do Advento, a exemplo de 3 de dezembro de 2017)

Essa atenção do Papa dialoga diretamente com a vivência do Evangelho nas periferias da sociedade. Ao contemplarmos a manjedoura, somos desafiados pela voz profética do Padre Júlio Lancellotti:

“O presépio não é apenas memória, é compromisso. O Menino Jesus nasceu na rua porque não havia lugar para Ele na hospedaria. Onde está o presépio hoje? O presépio é a calçada, é o lugar dos descartados, é onde a vida está vulnerável. Celebrar o Natal é fazer lugar para quem não tem lugar.”

— Padre Júlio Lancellotti (homilias e reflexões pastorais de Natal com a população em situação de rua)

Trazer essa perspectiva para a escola católica significa educar para a solidariedade real e a fraternidade. O Advento nos lembra que a manjedoura não é um artefato estético de gesso, mas o símbolo de uma comunidade acolhedora que combate a cultura do descarte e faz de cada espaço educativo um lugar de dignidade e inclusão.

PROPOSTAS PRÁTICAS PARA A PASTORAL E A GESTÃO EDUCACIONAL

A vivência autêntica do Advento no ambiente educacional requer inteligência pastoral e sensibilidade pedagógica:

  • Rituais de Luz e Silêncio: Organizar o acendimento semanal da Coroa do Advento nos espaços comuns, criando momentos breves de pausa e interioridade para alunos e colaboradores antes das rotinas diárias.
  • Ações Solidárias com Sentido Formativo: Superar o assistencialismo promovendo experiências de encontro e partilha consciente organizadas pelos próprios estudantes, em sintonia com o Pacto Educativo Global.
  • Cuidado e Escuta dos Educadores: Proporcionar aos professores e equipes gestoras momentos de descompressão, partilha e espiritualidade, permitindo que também eles sintam a acolhida da comunidade.
  • Itinerários em Família: Oferecer subsídios simples de oração para que as famílias vivenciem a esperança do Advento em seus lares, fortalecendo a aliança entre a casa e a escola.

Ao contemplarmos o Deus que vem habitar entre nós, o chão da escola se revela como um espaço sagrado de humanização e esperança. Para que este tempo transforme nossas práticas, convidamos gestores, professores e agentes de pastoral a se deixarem interpelar por estas reflexões:

  1. Sobre o tempo que oferecemos: À luz da provocação do Cardeal Tolentino (“Advento é tempo de interromper”), o que precisamos interromper na nossa rotina escolar para devolver ao cotidiano o sentido da gratuidade e da escuta?
  2. Sobre o olhar atento: Em consonância com o Papa Francisco, temos sido uma comunidade vigilante, capaz de notar “as lágrimas e as necessidades” dos nossos alunos e colegas por trás das cobranças por resultados e notas?
  3. Sobre o compromisso com os vulneráveis: Diante do alerta do Padre Júlio Lancellotti de que “o presépio é onde a vida está vulnerável”, como a nossa escola tem acolhido as fragilidades emocionais, sociais e acadêmicas de quem mais precisa?
  4. Sobre o sentido da nossa missão: Em um mundo marcado pelo cansaço e pela desilusão, a nossa instituição tem sido uma “manjedoura de esperança”, anunciando que Deus continua a nascer no meio de nós?

Celebrar o Advento na escola é reafirmar que a educação é um ato de profunda fé no ser humano. Que esta nova estação renove o entusiasmo dos educadores e transforme cada sala de aula em um lugar de acolhimento, luz e renascimento.

BIBLIOGRAFIA

  • Papa Francisco. Anjo do I Domingo do Advento. Vaticano, 2017.
  • MENDONÇA, José Tolentino. Rezar de Olhos Abertos. Lisboa: Quetzal Editora, 2020.
  • Lancellotti, Júlio. O Presépio e os Descartados. São Paulo, 2023.

Autoria:

Rubens Gonçalves

Formado em filosofia pela PUC Minas. Bacharel em Teologia pela PUC PR e acadêmico de Psicologia pela universidade Tuiuti do Paraná. coordenador de Pastoral do Cokegio Rosário da Rede Anastasiana Dominicana.