As 10 competências e habilidades do evangelizador na escola católica

As 10 competências e habilidades do evangelizador na escola católica

A evangelização nas escolas católicas desempenha um papel fundamental na formação dos estudantes, buscando transmitir os valores cristãos e promover uma educação integral. Certamente a pastoral nestes ambientes é o coração pulsante, que faz a identidade da escola vibrar e sintonizar com a mística e o carisma da mantenedora e concretiza o projeto da Igreja local. Contudo, diferentemente da evangelização paroquial, as escolas e universidades católicas são espaços de missão sui generis. Se na paróquia há um movimento espontâneo dos fiéis que buscam os serviços ali oferecidos, na escola, o trabalho pastoral não conta com tal pressuposição. Isso desafia as equipes de educadores e agentes pastorais envolvidos com a evangelização da comunidade escolar, afinal, como anunciar Jesus a um público tão diverso e com intencionalidades tão diferentes? Como criar uma narrativa cativante, que envolva os estudantes, as famílias e os colegas educadores de maneira assertiva? 

Antes de tudo, é necessário questionar algumas ideias amplamente difundidas, ao longo do tempo, sobre o trabalho da pastoral escolar. A primeira delas é a crença de que a pastoral, em uma escola católica, é semelhante à pastoral realizada em uma paróquia. Embora existam algumas convergências, como a vivência dos sacramentos, a participação em grupos pastorais e, em alguns casos, a presença de catequese e iniciação cristã, não podemos considerar que a prática e o discurso subjacente sejam os mesmos. Isso se deve tanto às diferenças já mencionadas quanto à amplitude da proposta pastoral.

Na paróquia, lidamos com um público cativo, composto em sua maioria por católicos. São pessoas que desejam vivenciar a espiritualidade cristã e fazem uma escolha explícita ao participar de uma missa ou de encontros paroquiais. Porém, nas escolas, encontramos estudantes católicos, mas não apenas eles. Nossas instituições acolhem também evangélicos, espíritas, candomblecistas e um grupo significativo de agnósticos que vivenciam um ateísmo prático e são indiferentes às questões de fé. Isso se aplica tanto aos estudantes quanto aos educadores e às famílias.

Geralmente, quando as famílias decidem matricular seus filhos em uma escola católica, têm o desejo de oferecer uma formação espiritual, transmitir valores ou proporcionar uma iniciação religiosa. No entanto, entre o desejo das famílias e a realidade da vida dos adolescentes e jovens, existem muitas distâncias. Mesmo que sejam criados em uma família com tradição cristã ou provenham de tradições religiosas diferentes, existe uma cultura de cristandade – uma religiosidade predominante – que é difundida e que é prejudicial, pois nos faz acreditar que todos são católicos ou nos leva a ter expectativas uniformes em relação à adesão à fé. Isso é um grande equívoco! Mesmo em uma paróquia, pode haver diferentes níveis de comprometimento com a fé, e essa diversidade se intensifica nas escolas e universidades.

Portanto, é fundamental desconstruir a ideia de que a proposta da pastoral escolar atende exclusivamente a um público católico. É urgente reconhecer, como um fato importante, que as comunidades educativas são plurais, diversas e secularizadas. Devemos adotar uma abordagem que considere essa pluralidade, buscando compreender e dialogar com as diferentes crenças, visões de mundo e com posicionamentos religiosos presentes em nosso ambiente escolar. A pastoral escolar deve ser inclusiva e respeitar a liberdade religiosa de cada indivíduo, promovendo um diálogo aberto e acolhedor que valorize a diversidade presente em nossa comunidade educativa.

Pastoral e profissionalização

Outro ponto importante a ser desconstruído é aquela ideia de que para a atuação de um agente de pastoral basta a boa vontade. Por muito tempo, as pessoas que trabalhavam na área de pastoral das escolas sequer eram reconhecidas como profissionais. De alguma forma, essas pessoas ocuparam esse espaço e aprenderam na prática como fazer a evangelização acontecer, mas, hoje, a pastoral escolar não admite improvisos. Além do mais, há um senso comum de que um bom agente de pastoral é alguém que toca violão muito bem e que sabe falar com jovens. São expertises pequenas demais para um trabalho tão grande. 

Quando olhamos para as vagas de trabalho nesta área, é muito comum que não haja clareza sobre o tipo de formação desejada e sobre o perfil do profissional. Isso é reflexo do não-reconhecimento destes profissionais, resquício daquele pensamento: “se tem boa vontade, está contratado”. Porém, diante das novas configurações culturais, das mudanças aceleradas, das novas identidades juvenis, do processo de transição religiosa e secularização, o agente de pastoral não pode ser alguém amador. Deve, pelo contrário, ser alguém com uma expertise muito específica que conjuga o saber teológico com o fazer pedagógico, a linguagem da fé com a realidade existencial, as metodologias e vivências próprias de uma escola com aquilo que espera e quer a Igreja. Essa experiência profissional é resultado da confluência de muitas disciplinas, tem um forte apelo prático e precisa sempre de uma boa base teórica. Ou seja, ser um agente de pastoral não é para qualquer um.

Diante disso, gostaríamos de enumerar algumas competências e habilidades essenciais para que um agente de pastoral escolar desempenhe de maneira eficiente e frutuosa sua missão:

  • 1. Conhecimento teológico sólido: Os agentes de pastoral escolar devem possuir um conhecimento teológico sólido, fundamentado em uma exegese e hermenêutica bíblica plural e contextualizada. Isso lhes permite compreender e transmitir de maneira precisa e coerente a mensagem do Evangelho, sustentando sua ação evangelizadora com bases sólidas, sem precisar recorrer a abordagens do “lugar-comum” que levam a uma fé superficial, emocionalista e moralizante.
  • 2. Capacidade de interligar as dimensões pedagógica e pastoral: A interligação entre as dimensões pedagógica e pastoral é crucial para uma evangelização eficaz dentro da escola. Os agentes de pastoral escolar precisam compreender que a educação não se limita ao ensino de conteúdos acadêmicos, mas também abrange o desenvolvimento integral do estudante, incluindo sua dimensão espiritual e moral. Igualmente, devem entender que a evangelização não se resume a um tipo de experiência religiosa, mas abrange um aprendizado mais profundo de questões pouco exploradas como questões de fé. 
  • 3. Testemunho de vida: Os agentes de pastoral escolar têm que viver de acordo com os valores cristãos, sendo exemplo de integridade, compaixão, justiça e amor. O testemunho autêntico é capaz de despertar o interesse e a curiosidade dos jovens, levando-os a buscar uma vivência mais profunda da fé. Não se espera que um agente de pastoral seja uma pessoa perfeita, mas que seja uma pessoa verdadeiramente humana. Muitas vezes, são os gestos e as atitudes dos evangelizadores que convencem estudantes e familiares de que aquela é uma escola católica. 
  • 4. Escuta ativa: Os agentes de pastoral escolar precisam ser capazes de ouvir com empatia, respeito e atenção, demonstrando interesse genuíno pelos anseios, dúvidas e experiências dos estudantes. A escuta ativa permite criar um ambiente de acolhimento e diálogo, favorecendo o crescimento espiritual dos jovens em um caminho pavimentado de confiança e abertura. Infelizmente, é muito comum que os agentes de pastoral pressuponham as necessidades de seu público e não tenham o hábito de escutar. É igualmente comum que agentes ouçam as demandas da realidade juvenil e as julguem a partir de sua experiência pessoal. A escuta ativa é uma habilidade conquistada, que exige preparação e treinamento, mas que, quando assumida, transforma definitivamente a Pastoral Escolar.
  • 5. Diálogo com as diferenças e valorização da diversidade: A sociedade contemporânea é marcada pela diversidade cultural, religiosa e social. Os agentes de pastoral escolar devem ter a capacidade de dialogar com as diferenças, promovendo a compreensão mútua e o respeito pela diversidade. Essa competência é essencial para construir pontes de diálogo e inclusão, tornando a evangelização uma experiência enriquecedora para todos os estudantes. Tal habilidade pressupõe conhecimento de outras culturas e ampliação do repertório do próprio agente evangelizador. Também exige uma postura de suspensão do juízo e de não julgamento – algo muito difícil quando o agente de pastoral tem absorvido uma mentalidade de cristandade estruturada em avaliações morais sobre os jeitos corretos e errados de se viver que não lhe permite ser flexível e crítico ao mesmo tempo.
  • 6. Capacidade de traduzir a fé em linguagem acessível aos jovens: É importante que os agentes de pastoral escolar sejam capazes de comunicar a fé de maneira acessível e relevante para os jovens. Isso implica em utilizar uma linguagem clara, exemplos práticos e abordagens que se conectem com a realidade e as experiências dos estudantes. A habilidade de tradução é também uma aquisição e se desenvolve na medida em que as equipes de pastoral testam novas linguagens, exploram outras estéticas e deslocam sua prática daquele lugar de sempre. Muito da frustração que os evangelizadores vivem com relação ao alcance da mensagem reside na inadequação de linguagem.
  • 7. Visão de ser humano complexa e profunda: Os agentes de pastoral escolar precisam ter uma visão ampla e aprofundada da pessoa humana. Isso implica em compreender que cada estudante é uma pessoa única, com suas aspirações, seus desafios e necessidades individuais. Significa também reconhecer que há dimensões profundas da pessoa humana e que são centrais no direcionamento de sua formação espiritual. Essa competência permite oferecer um acompanhamento personalizado, valorizando a singularidade de cada jovem. 
  • 8. Capacidade de arrebanhar e formar líderes: A evangelização nas escolas católicas não se limita apenas aos agentes de pastoral escolar. É importante desenvolver a competência de arrebanhar e formar líderes entre os estudantes. Esses líderes serão multiplicadores da mensagem cristã, engajando outros jovens e contribuindo para a construção de uma comunidade escolar mais participativa e comprometida.
  • 9. Planejamento e sistematização: A competência de planejamento e sistematização é essencial para uma atuação organizada e eficiente. Os agentes de pastoral escolar têm que saber elaborar projetos pastorais, definir metas, estabelecer cronogramas e avaliar resultados. Essa competência permite uma ação evangelizadora mais estruturada e direcionada, menos aleatória e mais intencional. Infelizmente, o planejamento pastoral ainda se limita, em muitos lugares, à definição de um calendário celebrativo. É preciso sistematizar o trabalho, explicitar os pressupostos, enumerar as ferramentas disponíveis, construir objetivos claros. Sem isso, não chegaremos a lugar algum ou, o que seria pior, chegaremos a qualquer lugar.
  • 10. Sensibilidade estética e espiritual: Os agentes de pastoral escolar devem despertar nos jovens a sensibilidade para a beleza e a transcendência presentes na criação e na experiência religiosa. Por meio de atividades artísticas, celebrações litúrgicas e momentos de oração elaborados com bom gosto e com uma intencionalidade, eles podem despertar o encanto e a conexão emocional com a dimensão espiritual. Isso significa que o trabalho pastoral deve ser permeado de beleza, entendendo que as escolhas estéticas presentes na ambientação, nas músicas, nos textos, nos detalhes que acolhem e organizam as atividades pastorais expressam um tipo de eclesiologia e conduzem a experiência para uma determinada direção.

Essas competências essenciais dos agentes de pastoral escolar são fundamentais para uma evangelização eficaz e relevante dentro das escolas católicas. Ao desenvolvê-las, os agentes estarão mais preparados para responder aos desafios contemporâneos, estabelecer vínculos significativos com os estudantes e promover o encontro pessoal com Jesus Cristo.

Autoria:

Gregory Rial