A Educação desde sempre debate-se diante de inúmeros dilemas, questionamentos e desafios. Sua tarefa precisa ser sempre re-inventada, a partir de perspectivas que a ajudem a cumprir a sua função de forjar o homem, este ser de infinitas e múltiplas capacidades e, ao mesmo tempo, ser de crises, inconstâncias e incoerências.
Desde o século passado temos assistido inúmeros pensadores levantarem-se afirmando a importância e a necessidade de novos critérios, metodologias e, sobretudo, novas visões educativas que sejam capazes de dar conta realidade em que nos inserimos. A pandemia não apenas evidenciou ser mister repensar o lugar dos educadores, a compreensão da relação entre docentes e discentes, mas o próprio lugar da escola, da universidade em meio à sociedade.
Obviamente é ponto comum entre nós reconhecer a escola como caixa de ressonância da sociedade e, ao mesmo tempo, espaço onde podem ser abertos novos caminhos, novas perspectivas e novos horizontes para um convívio mais harmonioso, respeitoso e humanizante entre todos.
O Papa Francisco bem pontuou na Fratelli Tutti, as mazelas deste nosso tempo fechado, destacado pelos novos totalitarismos, pela negação da história, por um mundo que está sendo pensado para poucos e por uma comunicação limitada, falha e tendenciosa, embora tenhamos à nossa disposição os recursos da telemática. Perguntamo-nos diante da realidade que nos cerca- e da qual somos também construtores- quais as possibilidades de futuro, caso continuemos neste círculo vicioso que tende ao egoísmo, ao isolamento e à depreciação dos diferentes?
Desde a modernidade, consolidamos a ideia de um sujeito encastelado, centro do universo, independente de tudo e de todos, para quem convergem todos os direitos e tudo mais. Evoluímos e qualificamos a vida. Em boa parte do planeta há mais conforto do que há 50 anos. O acesso aos bens e à tecnologia foi dissiminado e as comodities estão aí para quem pode pagar por elas. Por outro lado, as previsões indicam que, em 2030 cerca de 650 milhões de pessoas viverão em situação de miséria. A qualidade da vida não qualificou o ser humano, que parece ainda mais egoísta e autocentrado.
A educação tem, nesse sentido, uma tarefa irrenunciável: qualificar o ser humano, repensar relações, construir redes em torno do bem comum e do cuidado de todos, a fim de que todos possamos cuidar do planeta que habitamos. Os desafios internos e externos em torno dos quais debate-se a educação e, mais especificamente, a educação católica pedem-nos reafirmar valores, compromissos e práticas curriculares e extracurriculares firmadas no evangelho. Apostar em currículos pautados pela pedagógica de Cristo, o Mestre dos mestres, colocando no centro o ser humano, a vida em todas as suas variedades e dimensões e dispondo-nos a protegê-la, custe o que custar.
É fundamental não nos deixarmos amarrar pelos dilemas. Sempre surgirão outros e, talvez, mais urgentes. Como educação católica urge resgatar o sentido de nossa missão, em vista de propor uma educação que:
- Ensine a bem viver: “Seria necessário introduzir na preocupação pedagógica o viver bem, o ‘saber viver’, ‘a arte de viver’, o que se torna cada vez mais necessário diante da degradação da qualidade da vida, sob o reinado do cálculo e da quantidade” (Morin).
- Ajude a enfrentar as incertezas: “Uma boa sociedade seria aquela que dissesse a si mesma: não somos bons o suficiente” (Bauman).
- Prepare para estabelecer conexões sadias e maduras: “O caminho para criar conexão é passar tempo com outros off-line, sem plateia vivendo a história e não stories” (Poslowski).
- Ensine a condição humana: “Ser humano é redescobrir a cada dia a fórmula da vida. (Savater).
Tais perspectivas inscrevem-se na ordem de uma educação verdadeiramente cristã, humanista e solidária. Uma educação que promova o exercício da cidadania e dos direitos de todos. Como bem contempla a proposta da Unesco “Construir nosso futuro juntos”, ao afirmar que o século XX dedicou-se a garantir o direito à educação a todos e que o século XXI deverá empenhar-se pelo direito à educação de qualidade.
O Brasil, com 42 milhões de estudantes em escolas e universidades públicas, em sua grande maioria precárias em todos os sentidos, está longe de ser uma país chamado a acomodar-se. Os desafios que temos pela frente são imensos. Isso, entretanto, ao invés de nos desanimar deve motivar-nos a que nos tornemos mais próximos uns dos outros formando uma grande rede (intra e extra), como propõe a ANEC, uma Rede de Redes, inclusive oferecendo de nossa expertise, carismas e vocação à educação aos que estão desprovidos de recursos em todos os sentidos.
Se quisermos ter relevância como educação católica, num país que prevê apenas 24% de católicos em 2040, precisamos rever nossos processos, abrindo mão de preciosismos e abrir-nos à beleza da diversidade, tornado realidade a aliança pela educação, conforme nos convoca o Santo Padre, ao sentir no coração de pastor os apelos de um mundo que clama por mais vida. Façamos de nossas instituições espaços de acolhida e cuidado, no empenho colaborativo de construirmos verdadeiras Comunidades Educativas, onde todos aprendem e todos ensinam e onde todos descubram a razão do seu viver, construindo relações harmoniosas e vidas em equilíbrio.

