Francisco e o desejo por uma educação mais fraterna

Francisco e o desejo por uma educação mais fraterna

A construção de relações saudáveis em nossas vidas é algo essencial para sermos pessoas em constante diálogo e comprometidas com a vida de todos. Pensar neste aspecto é essencial para que a sociedade se comprometa com todos e todas e isso só é possível se houver educação comprometida e, acima de tudo, espírito de comprometimento com o próximo e a fraternidade.

Em janeiro de 2023, o Papa Francisco lançou um vídeo com a intenção de oração para o mês e também lançou uma mensagem aos educadores, fazendo-lhes a proposta de “acrescentar um novo conteúdo ao seu ensino: a fraternidade”.

Vivemos um período de grandes transformações sociais, econômicas, políticas e educacionais. Um mundo realmente novo só será possível sob a condição de sermos responsáveis por ajudar a construir a mudança que esperamos e de ousar em construir, neste mundo, um bom lugar para se viver. É preciso, urgentemente, fazer-se ouvir e articular maior crescimento da consciência humana sobre o que é ser humano e a sua relação com a educação.

O papa Francisco tem defendido em seus discursos, homilias, e sobretudo na carta encíclica Fratelli Tutti, que a fraternidade é a base das relações humanas e que deve ser empenhada como aprendizado, sobretudo nos ambientes educativos. A educação é um ato de amor que ilumina o caminho para recuperarmos o entendimento da fraternidade, para não ignorarmos os mais vulneráveis, para não nos fecharmos nem nos isolarmos em nosso próprio mundo. Para o Papa, “o educador é uma testemunha que não oferece os seus conhecimentos mentais, mas as suas convicções, o seu compromisso com a vida” e isso, por si só, já comunica às crianças e aos jovens o que deve ser o genuíno interesse pelo outro.

Francisco ainda apresenta a realidade de que o professor é aquele que “sabe manusear bem três linguagens: a da cabeça, a do coração e a das mãos, em harmonia. E daí a alegria de comunicar. E eles serão ouvidos com muito mais atenção e serão criadores de comunidade. Por quê? Porque estão semeando este testemunho.” Os três saberes, mais que ressaltar os aspectos cognitivo, psíquico e prático, querem nos chamar a atenção para a nossa visão de educação muito focada no aspecto acadêmico e intelectual, o qual acaba desequilibrando outras aprendizagens igualmente importantes no desenvolvimento da pessoa humana.

Um passo importante no alargamento dos horizontes educacionais é comprometer-se com a cultura do encontro e do diálogo, em um caminho de fraternidade para “Educar ao Humanismo Solidário”. O Humanismo Solidário não é apenas mais um jargão de Francisco, mas significa acolher uma responsabilidade pelo próximo, de modo consciente, intencional e completo. O educador assume a formação de cada indivíduo e busca ensinar a ver o próximo, a amá-lo, respeitá-lo em sua diversidade e servi-lo na caridade. 

Para isso, faz-se necessário ir além das aulas e dos cursos, criar uma rede de relações humanas e abertas, capazes de ouvir. De nos ouvir e, diante disso, não perder a esperança. A educação do século XXI não pode mais se preocupar em formatar pensamentos e impor verdades. Obviamente, ela precisa criar critérios de discernimento, deve orientar e propor, mas sempre tendo em mente que o conhecimento é vivo e não congelado, está em constante movimento e, nos dizeres de Francisco, deve ser sempre “em saída”.

Desta forma, precisamos observar o caminho que seguimos e os exemplos que podemos dar em nossa realidade. Entre eles temos que ter por foco buscar sempre alimentar em nós, educadores, e nos estudantes o desejo de uma sociedade mais humana e fraterna. Vale recordar a intuição tão viva trazida pela Campanha da Fraternidade 2022, que teve por tema “Fraternidade e Educação”, e nos convidou a escutar os ensinamentos de Cristo, que se coloca como servo. Ele é o Educador-servo que nos dá a condição de aprender com nossas realidades e em nossos contextos e nos ensina por meio de seu exemplo. A Campanha deixou evidente para toda Igreja que a visão católica de educação passa por uma visão de ensino-aprendizagem pautada na prática dos valores cristãos, especialmente da justiça, da solidariedade e do amor universal. A sabedoria e o conhecimento não estão acima da caridade, mas estão a serviço da caridade: conhecer é tornar-se responsável.

Francisco acredita na construção de uma nova realidade educacional mais amorosa e comprometida e afirma: “A educação é, sobretudo, uma questão de amor e responsabilidade que se transmite, ao longo do tempo, de geração em geração. Por conseguinte, a educação apresenta-se como o antídoto natural à cultura individualista.”

Dessa forma, é urgente retomar nosso propósito de vida e, acima de tudo, cuidar do outro, colocar-se a escutá-lo e a fazer um processo de encontro. Nesse aspecto, a educação é a condição de uma grande conquista, pois é com a educação que temos as bases das nossas relações. Não podemos fugir disso, nem mesmo deixar de lado a realidade de uma sociedade que se preocupa somente com a realidade financeira e se esquece de escutar, de se colocar como aquele que serve, como Cristo fez.

Devemos seguir o exemplo de Jesus: sua ética, seu comportamento, seu caráter, seu modo de ser e de agir. Ele assumiu uma conduta autêntica em uma sociedade contrária a tudo que ele pregava. Ele veio transformar o mundo, a começar pela sociedade de sua época. Faço minhas as palavras de Francisco: “Rezemos para que os educadores sejam testemunhas críveis, ensinando a fraternidade em vez da competição e ajudando especialmente os jovens mais vulneráveis”.

Autoria:

Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves