O mundo mudou e a escola também mudou. Pensar nessa mudança é compreender que a sociedade atual exige de nossos jovens e seus educadores uma transformação de mentalidade e de atitude que acompanhe o redesenho do espaço-tempo. Parte dessas mudanças vem do uso intensivo que fazemos da tecnologia, que nos impõe uma cultura imediatista, normaliza relações descartáveis e dá à exposição em redes sociais o status de verdade absoluta. A essas mudanças não estamos alheios em uma escola católica, pelo contrário, estamos imersos e envolvidos por demais e, por isso, sentimo-nos interpelados a refletir e agir de maneira consciente para incorporar valores nesta mudança de época.
Como profissionais da educação e agentes da Pastoral Escolar, é importante não nos acomodarmos com essas mudanças, mas usufruir desse novo tempo para refletirmos o nosso fazer pedagógico. Afinal, o que uma cultura baseada no individualismo, que atomiza e liquefaz as relações interpessoais, tem a dizer para nós que cremos no Evangelho? Sim, vivemos em um mundo que nos ensina que a individualidade é mais segura que a coletividade, que o sujeito vale mais que a comunidade e que ir ao encontro do outro só faz sentido quando ganhamos algo em troca. Vemos, mas não enxergamos. Ouvimos, mas não escutamos. Por isso, a necessidade de conflitar nosso pensamento que já internalizou por demais esta cultura de individualismo e nos questionar: o que fazer para proporcionar, dentro da escola, um ambiente de encontros?
O capítulo 24 do Evangelho de Lucas nos apresenta os discípulos a caminho de uma cidade chamada Emaús. Eles conversam entre si e lamentam a morte do Nazareno. O medo, a tristeza, a descrença e o desespero os impedem de ver que o próprio Ressuscitado foi ao encontro deles. Ao longo do caminho, é possível perceber que Jesus vai preparando os discípulos por etapas antes de se revelar por completo na partilha do pão. Até lá, Ele nos apresenta a sua pedagogia divina: a iniciativa do encontro, o diálogo paciente e profundo, a comunicação de sua identidade por um gesto concreto.
É Jesus quem toma a iniciativa e se aproxima. Ele não interrompe a conversa, mas passa a fazer parte dela. Esse encontro, que desperta a estranheza nos discípulos, também toca a vida dos dois.
Em seguida, o Ressuscitado estabelece um diálogo com aqueles que caminhavam tristes, realizando as suas intervenções, tal qual um Mestre, com o intuito de ajudar as duas pessoas a compreenderem aquilo em que eles não conseguiam acreditar. Então, Jesus lhes ilumina com a Palavra de Deus, pacientemente explica como todas as coisas ruins acontecidas se conectam a um bem maior e faz com que as dúvidas dessem espaço para a esperança de uma vida nova.
Entretanto, é na partilha do pão ao redor da mesa que a identidade de Jesus se revela aos olhos daqueles que não O enxergavam. No momento em que é identificado, Ele desaparece. Assim, os mesmos discípulos, que antes lamentaram a morte de Jesus e duvidaram da Sua ressurreição, agora, experimentam o renascimento de si mesmo. Tudo mudou. A tristeza deu espaço para a alegria; da angústia brotou a tranquilidade; do medo, a coragem do retorno para dar início a missão de anunciar a experiência vivida e a Boa Notícia da Ressurreição para todos em Jerusalém.
Dessa passagem bíblica, é importante ressaltar que Jesus buscou conhecer o íntimo dos seus discípulos, e identificou a necessidade de observar e de ouvir o que eles tinham a Lhe dizer. Portanto, aproximar-se é sentir a dificuldade do outro e ouvi-lo com largueza de coração. Isso é tão urgente que o Santo Padre, o Papa Francisco, convida-nos incansavelmente a promover a cultura do encontro. Com isso, “significa saber que, além das nossas diferenças, somos todos filhos de Deus”. Não é à toa que dentro de uma escola católica é sabido que a Pastoral é o coração da escola e, portanto, uma propagadora do Amor e espaço-tempo gerador de compromisso com o próximo.
O itinerário catequético percorrido pelos discípulos de Emaús aponta o caminho para a transformação dos espaços da escola em um local de encontros. Logo, enquanto educadores e pastoralistas, é essencial acolher os estudantes e dialogar com eles para ouvi-los em suas angústias, tristezas, frustrações e esperanças. Sendo assim, estranhar o familiar e se familiarizar com o que parece estranho no mundo de hoje é de suma importância para compreendermos a juventude e suas complexas relações. Dentro de diferentes modos de vivenciar esse período e a cultura desse tempo, os agentes de pastoral precisam se manter atentos aos jovens que os procuram ou que chegam ao longo dessa caminhada. Sentar, ouvir, acolher e buscar entender são exemplos de como colocar em prática a escuta ativa – o segundo passo do itinerário de Emaús. Por isso a importância de estar inteiro na presença do outro.
O terceiro passo é revelar a identidade de um Deus de bondade. Um Pai que não julga, mas que é compreensivo e, sobretudo, amoroso e compassivo. Como em Emaús, é no gesto concreto da Eucaristia – do pão partido e compartilhado na mesma mesa – que conseguimos revelar o rosto terno e misericordioso de Deus. A Eucaristia sempre será o ápice de qualquer jornada catequética, mas existem vivências eucarísticas correlatas que também cumprem a tarefa de revelar a identidade do Deus-amor: a solidariedade, o voluntariado, a oração comunitária, as atividades missionárias – estas são vivências eucarísticas que consolidam a experiência de encontro e que vão culminar na celebração do Mistério Pascal de Cristo no Sacramento Eucarístico.
Dessa forma, em tempos de mídias e redes sociais, bem como de muitos outros desafios que o mundo lança em meio às nossas práticas pedagógicas, é nossa missão encorajar os nossos jovens a lançarem mão do que lhes impedem de ver a Cristo, assim como fizeram os discípulos de Emaús e encorajá-los a também partirem ao encontro dos irmãos. Estamos cientes de que são muitas as dificuldades para educarmos a juventude nos dias atuais. Mas aqui fica um apelo: que façamos dos obstáculos a nossa motivação diária; que deixemos as nossas “amarras” de lado e nos apeguemos ao acolhimento do outro. É sorrir com os olhos, abraçar com as palavras, acolher com o coração e amar com a nossa essência.

