Entre os desafios da educação católica no Brasil, está a pastoralidade. Em um breve histórico recordamos que a maioria das nossas escolas confessionais católicas nascem no contexto da predominância social da religião católica. Elas gozavam de um grande prestígio social em sua responsabilidade de formar em excelência e de educar na fé, inclusive sacramentalmente.
Em escala temporal essa realidade se transformou rapidamente. A religião começou a ocupar outro lugar na sociedade, as escolas católicas sofrem com o avanço dos grandes grupos educacionais e as taxas de natalidade diminuem.
Destaca-se ainda a insegurança vivida nas escolas neste ano de 2023, o crescente suicídio entre os jovens, a vivência de tempos e relações líquidas, as realidades de trabalho e emprego que desafiam os nossos jovens e adolescentes. Inseridas nesse cenário estão as escolas católicas e a pastoralidade. Por isso, destacamos alguns pontos a serem discutidos neste texto. o primeiro deles refere-se à identidade das escolas católicas.
Há muito tempo essas instituições têm sido definidas como centros de formação com bases humanísticas para a formação integral da pessoa humana. Isso é muito bom, mas todas as escolas atribuem para si essa missão. Do mesmo modo que, em um dado momento da nossa história, todas as escolas assumiam, ao menos nos documentos, a missão de formar cidadãos críticos e conscientes.
Tanto a formação humanística e integral quanto a formação crítica devem ser bases da identidade das escolas católicas, contudo, isso por si só não as definem.
A Congregação para a educação católica afirma que a escola católica se insere na missão salvífica da Igreja e especialmente na exigência da educação na fé. O projeto educativo dela deve ter em conta os atuais condicionamentos culturais, define-se precisamente pela referência explícita ao Evangelho de Jesus Cristo.
O Documento de Aparecida assinala que devemos resgatar a identidade católica de nossos centros educacionais por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a ser uma opção profética plasmada em uma pastoral de educação participativa. Tais projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade eclesial, cultural e excelência acadêmica.
Atrelado a isso, em sua maioria, elas recebem as inspirações basilares do modo de ser de cada família religiosa, a isso denominamos carisma. Sabemos que esse é um conceito difícil de ser alcançado.
O carisma deve ser balizado pelas ações dos nossos fundadores, isso não é definição, mas é apropriação, vivência e presentificação carismática. Uma das grandes questões é como aferir essa vivência carismática. Talvez um caminho seja o de pensar e agir com os corações dos nossos fundadores.
Como os nossos fundadores e fundadoras agiriam neste momento? Esse deve ser um grande balizador das nossas ações cotidianas. Mas para alcançarmos isso é preciso darmos um passo anterior. Conhecer a vida, as minúcias, o modo de agir dos nossos fundadores e fundadoras. Conhecer as histórias dos nossos fundadores e fundadoras é abrir portas para fazermos uma experiência de nos imbuirmos do carisma e sermos propagadores dele.
O segundo tema diz respeito ao que fazemos com essa identidade, missão e modo de ser. O fato de nos denominarmos instituições confessionais asseguram que somos uma instituição que assume audazmente o querigma evangélico e carismático? Aqui adentramos diretamente no papel da pastoralidade em nossas instituições.
A pastoralidade é o grande guarda-chuva que carrega em si os elementos de uma instituição que assume a sua identidade confessional e querigmática. Nesse guarda-chuva cabem a pastoral, o administrativo e o pedagógico: uma escola em pastoral. Mas o que fazemos com isso? “Uma escola em pastoral” pela amplitude do que esse termo carrega, pode esvaziar-se.
Não podemos ceder à tentação de fazermos dessa ideia um elemento bonito a ser estampado em nossos sites e propagandas, em nossas paredes, mas que fique solto, sem lugar. Por isso, trazemos a pastoral escolar e universitária como um lugar – físico e teológico, um espaço demarcado, uma fonte de onde emanam as ações que alcançam a vida da instituição, que vão ao encontro e se deixam encontrar pela comunidade educativa.
Em nossas instituições educativas cada espaço físico e funções são demarcados e com a pastoral não pode ser diferente. É preciso que os espaços físicos das nossas instituições falem do nosso querigma carismático. Falamos de pastoral como acolhida, mas qual o espaço reservado a pastoral em nossos prédios e como eles comunicam a nossa pastoral e carisma? Qual o espaço da pastoral no nosso planejamento institucional, em nosso calendário?
A pastoral necessita estar no calendário, no planejamento e, sobretudo, com um plano de pastoral que dê sustentação e direção as ações, alinhado ao projeto educacional. Mas como isso toma concretude no dia a dia da nossa instituição? Como fazer com que o espírito, o carisma e o nosso modo de ser carismático alcancem e direcionem o quefazer das nossas instituições?
Reconhecemos que até aqui trazemos mais interrogações que respostas e o fazemos justamente por reconhecermos a necessidade de nos questionarmos para olharmos a nossa realidade e projetarmos o futuro.
Conjugar excelência acadêmica, formação humana e encontro com o Cristo Salvador e modelo de humanidade; saciar a sede de sentido e de transcendência; entregar para a sociedade seres humanos críticos e conscientes do seu papel social; humanizar a humanidade em sua tríade corpo, alma e espírito. Essas são algumas das linhas que podem constituir a identidade das instituições educativas.
Os questionamentos aqui apresentados são luzeiros para reflexão! É também um momento importante para construirmos audazmente o presente e o futuro. Sigamos com esperança, enraizados em Cristo e audazes na missão.

