Em 12 de setembro de 2019, o Papa Francisco emite uma mensagem por ocasião do lançamento do Pacto Educativo Global. Entretanto, devido a pandemia foi necessário adiar o evento. Em 15 de outubro de 2020 de modo remoto ocorreu o lançamento do Pacto. Conforme lemos no próprio “instrumentum laboris” compreendemos que “Uma tal iniciativa não é uma ideia nova e repentina, mas a concretização de uma visão e de um pensamento que o Papa manifestou várias vezes em seus discursos”. (Cf. PEG, 2020, p. 2). A fundamentação do Pacto são as encíclicas “Evangelii Gaudium” e “Laudato Si” que estão em sintonia com o Concílio Vaticano II e o pós-Concílio.
Na perspectiva apontada pelo Papa Francisco em sermos uma “Igreja em saída” convida-nos à uma nova posição pastoral que é feita de “primeirar”, isto é, fazer acontecer. Uma Igreja em saída é uma comunidade que se envolve. Após considerar os problemas do mundo e da cultura atual propõe o desafio da “mística de viver juntos”, isto é, tornar essa maré um pouco caótica uma experiência de fraternidade, numa caravana solidária. (Cf. PEG, 2020, p. 2) Neste convite está também o cuidado com as fragilidades do povo e do mundo, e ele não é dirigido somente aos cristãos, mas a todos os homens e mulheres da terra que reconhecem que “a educação e a formação se tornam prioritárias, pois ajudam a se tornar protagonistas diretos e construtores do bem comum e da paz”. (PEG, 2020, p. 2)
E considerando ainda que “a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza” (LS, n. 215). Afirma o Pacto:
Nunca como agora – num contexto dilacerado por contrastes sociais e uma visão comum – é urgente uma mudança de rumo que – através de uma educação integral e inclusiva, capaz de uma escuta paciente e de um diálogo construtivo – faça prevalecer a unidade no conflito. Para este fim, é altamente desejável, afirma o Papa, que sejam iniciados processos de partilha e transformação, com todas as iniciativas necessárias para permitir às gerações futuras a construção de um futuro de esperança e de paz. (PEG, 2020, p. 2-3)
Importante ainda ressaltar que o Papa fala de uma “Vila da educação” que gere uma rede de relações humanas e abertas. Tal “vila” deve colocar no centro a pessoa, favorecer a criatividade e a responsabilidade por um projeto a longo prazo e formar pessoas disponíveis para se colocar a serviço da comunidade. (Cf. PEG, 2020, p. 3). É preciso ampliar o conceito de educação considerando que ele não se esgota nas aulas das escolas ou Universidades, mas é garantida principalmente respeitando e reforçando o direito primário da família a educar, e o direito das Igrejas e das agregações sociais a amparar as famílias e colaborar com essas na educação dos filhos. (Cf. PEG, 2020, p. 3).
A noção de “Pacto” é muito significativa, pois implica o sentido de que precisa de pelo menos duas pessoas para firmarem um pacto e também o sentido de uma aliança educativa. O termo “aliança”, segundo a tradição hebraico-cristã, evoca o vínculo de amor estabelecido entre Deus e o seu povo. Amor que em Jesus derrubou o muro entre os povos, restabelecendo a paz (Cf. Ef 2, 14-15). (Cf. PEG, 2020, p. 3).
O primeiro pressuposto do Pacto é o respeito à diversidade. Lemos no Pacto:
(…) Um pacto global pela educação só poderá haver, primariamente, a forma de um reconhecimento da indispensabilidade de cada contribuição para enfrentar a emergência educativa que estamos vivendo ha algumas décadas, como o próprio Papa Bento XVI já havia reconhecido em sua Carta à Diocese e à cidade de Roma sobre a tarefa urgente da educação, de 21 de janeiro de 2008. E as suas considerações são ainda atuais: “Todos temos no coração o bem das pessoas que amamos, em particular das nossas crianças, adolescentes e jovens. De fato, sabemos que depende deles o futuro desta nossa cidade. Portanto, não podemos não ser solícitos pela formação das novas gerações, pela sua capacidade de se orientar na vida e discernir o bem do mal, pela sua saúde não só física, mas também moral. Educar, porém, nunca foi fácil, e hoje parece tornar-se sempre mais difícil. Fala-se por isso de uma grande “emergência educativa”, confirmada pelos insucessos com os quais com muita frequência se confrontam os nossos esforços para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e dar um sentido à própria vida. (PEG, 2020, p. 3-4).
E este respeito à diversidade, o empenho a ser feito numa educação que tem como fundamento a abertura ao outro é compreendida como fraternidade original. Lemos no Pacto:
A fraternidade é a categoria cultural que funda e guia paradigmaticamente o pontificado de Francisco. Inseri-la nos processos educativos, como ele sugere em sua “Mensagem”, significa reconhecê-la como dado antropológico fundamental, a partir do qual enxertar todas as principais e positivas “gramáticas” da relação: o encontro, a solidariedade, a misericórdia, a generosidade, mas também o diálogo, o confronto, e, de modo mais geral, as variadas formas da reciprocidade. (PEG, 2020, p. 4)
Neste sentido, podemos afirmar que o objetivo do Pacto é educar para a fraternidade, pois é o verdadeiro ponto de chegada de cada processo educativo realizado. E na perspectiva da construção de uma “vila global da educação” este princípio recebe um impulso renovado que é precisamente a disponibilidade de colocar-se à serviço da fraternidade a sancionar a plena realização da humanidade que é comum a todos, pois “(…) De fato, fomos criados não apenas para viver “com os outros”, mas também para viver “a serviço dos outros”, numa reciprocidade salvífica e enriquecedora”. (PEG, 2020, p. 5)
Considerando o objetivo do Pacto em promover uma educação para a fraternidade que seja uma educação do viver com os outros, do serviço aos outros, pretendemos, de modo dialógico ir demonstrando os desafios que o ensino superior, em particular, as universidades católicas em nosso país, têm diante de si mesmas. Para tal, utilizaremos a metodologia proposta pelo próprio Pacto, mas também o método ver-julgar-agir que é amplamente utilizado na pastoral da Igreja no Brasil, ou ainda, chamado de método indutivo, próprio da Doutrina Social da Igreja, o qual considera além da hermenêutica conceitual filosófica-teológica (no caso do Pacto: Fraternidade e Aliança), o uso das ciências sociais como instrumento necessário para uma compreensão melhor da realidade social.
O contexto
A ferida mais grave do atual contexto sociocultural segundo o Papa Francisco é a “idolatria do eu”. Educar exige entrar num diálogo leal com os jovens. Eles chamam-nos à urgência de uma solidariedade intergeracional. Há uma tendência a fechar-se em si mesmo, a proteger os direitos e os privilégios adquiridos, a conceber o mundo dentro dum horizonte limitado que trata com indiferença os idosos e sobretudo não oferece mais espaço à vida nascente. (Cf. PEG, 2020, p. 6) A “egolatria” gera todas aquelas fraturas as quais tornam pesadas a ação educativa desenvolvida em todos os níveis. No texto, elencam-se as fraturas: fratura entre as gerações, entre povos e culturas diferentes, partes da população rica e partes da população pobre, as primeiras sempre mais ricas e as segundas sempre mais pobres, entre masculino e feminino, entre economia e ética e entre humanidade e planeta terra. (cf. PEG, 2020, p. 6).
Também é preciso considerar a emergência das redes sociais, em particular, a internet com a web, como consequência direta do processo de globalização. Educar para as mídias sociais exige discernimento. A educação precisa habilitar todos aqueles aos quais se dirige, a habitar esta complexidade e a “humanizá-la”, conscientes de que qualquer instrumento depende sempre da intencionalidade de quem o utiliza. (Cf. PEG, 2020, p. 7)
A “desintegração psicológica” devido à difusão das novas tecnologias é apontada pelo Papa Francisco como um dos problemas educativos mais urgentes. A preocupação diz respeito a uma “pobreza de interioridade”, uma crescente dificuldade a parar, a refletir, a escutar e a escutar-se. É preciso também concentrar-se em educar as demandas dos jovens, prioritárias em relação ao fornecer respostas. Conforme ensina o Pacto: “(…) trata-se de dedicar tempo e espaço no desenvolvimento das grandes questões e dos grandes desejos que habitam no coração das novas gerações, que de uma serena relação consigo mesmas, possam levar à busca do transcendente”. (PEG, 2020, p. 8).
Na reflexão sobre a cultura do descartável, o Papa Francisco, demonstra que o desafio da construção de uma identidade menos fragmentada está no reconhecimento da importância de construir a própria identidade pessoal a partir dos outros, em particular os idosos. O homem contemporâneo enfrenta insegurança e instabilidade porque é empobrecido de alma e privado de esperança, pois seu presente é pobre sem passado e futuro, é vazio, sem memória e sem perspectiva. (Cf. PEG, 2020, p. 9).
Um compromisso educativo da interioridade e da identidade, cada vez mais atingido pelo mundo globalizado e digital, questiona-se que não se rompa o vínculo com o mais amplo horizonte social, cultural e ambiental no qual essa está inserida. A falta de cuidado com a interioridade reflete-se numa falta de cuidado da exterioridade, e vice-versa, pois “se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza da nossa relação com o mundo” (LS, n. 11). O desafio de uma educação ecológica integral leva a um radical desafio relacional, pois está em jogo o futuro das gerações e do próprio planeta. (Cf. PEG, 2020, p. 10).
Considerando este contexto, e aplicando o método ver-julgar-agir, em particular, o VER, poderíamos afirmar que a situação da universidade brasileira se assemelha ao que o Papa Francisco afirma na encíclica Laudato Si:
Gostaria de assinalar que muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afetam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates públicos e econômicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se coloquem como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos colaterais. Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem frequentemente no último lugar. Isto deve-se em parte, ao fato de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros do poder estão localizados longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contato direto com os seus problemas. Vivem e refletem a partir de uma comodidade dum desenvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial. Essa falta de contato físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a ignorar parte da realidade em análises tendenciosas. Isto, às vezes, coexiste com um discurso “verde”. Mas, hoje não podemos deixar de re-conhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. (LS, n.49)
Como afirma o texto do Papa Francisco, uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. Na perspectiva do Pacto Educativo Global, uma educação para a fraternidade que objetiva a mística de “viver com os outros” e “servir aos outros”, precisa considerar que estes outros em nosso país são os pobres e os excluídos. Muitas vezes, nossas universidades católicas, são apenas o reduto da elite brasileira. A inclusão social ainda é muito incipiente em nossas universidades. Faltam reflexões profundas que possam levar as universidades a assumir com coragem às novas perspectivas educativas, incluindo, como propõe o Pacto a superar a fratura entre economia e ética.
Um modo de tornar o pacto realidade de nossas universidades dar-se-á quando houver um maior compromisso de justiça na perspectiva apontada pela Doutrina Social em seu princípio de subsidiariedade. Repensar o modo de atuar junto a cultura liberal que se impõe ao globo como “pensamento único” (Bento XVI) favorece uma educação ecológica integral, e ainda mais, quando estes outros, são os sujeitos dos grupos considerados minoritários, ou seja, o negro, o indígena e a mulher.
Ser uma “universidade em saída”, indo às periferias existenciais, irá favorecer um maior encontro com os problemas reais da sociedade. Escapar do efeito “bolha social” é uma possibilidade de promover uma cultura do diálogo onde a proximidade efetive-se como rede, nas palavras do Pacto, uma “vila da educação”. É urgente ouvir o clamor da terra e dos pobres. Em nosso país, sabemos o quanto a desigualdade social é antes racial. É preciso repensar a formação da elite brasileira que está em nossas universidades. Segundo o sociólogo Jessé Souza, nós precisamos ajudar a elite intelectual que se torna submissa à elite do dinheiro e que constrói uma imagem distorcida do Brasil de modo a disfarçar todo tipo de privilégio injusto. (Cf. SOUZA, 2015, p. 13). Há uma missão aí exigente, promover uma cultura do humanismo solidário junto à elite.
Considerando ainda o texto do Papa Francisco, o mesmo ainda alerta para reconhecer que os pobres são tratados como apêndices em nossas discussões. Estão presentes em nossos debates e discursos, mas não em nossas universidades. A política de cotas precisa ser promovida com mais afinco, pois é uma política afirmativa sobretudo da população negra a quem foi negado o direito de compreender-se ser humano por mais de duzentos e cinquenta anos. O desafio de contratar em seus quadros funcionais pessoas negras e mesmo promover em espaços de gerência, como também superar uma relação de desigualdade de gênero que muitas vezes se mostra em rendimentos. E também o desafio da interculturalidade. Muitas vezes as culturas de outros povos são tratadas como mero folclore, apesar de haver esforço por reconhecê-las. A fratura entre ricos e pobres está em evidência em nossas universidades.
Há outras questões que emergem e poderiam ser consideradas a partir desta única colocação que faz o Papa Francisco, contudo, reconhecemos que cada universidade deve procurar fazer esta autoavaliação. O “VER” é mais do que um olhar sobre a realidade é um “olhar com os olhos misericordiosos de Jesus”. A consciência dolorosa que pretende despertar o Papa Francisco em cada um de nós implica a busca por uma “interioridade” que nos ajude a falar a língua da fraternidade e a beleza da relação com o mundo. Entretanto, como contemplar o belo sem olhar o horror que vivem milhões e milhões de irmãos e irmãs? Como ser indiferente à dor que desfigura tantos rostos por fome, miséria, violência, guerras e falta de teto, terra, trabalho, saúde e educação? Como não sentir indignação diante das queimadas e exploração selvagem de nossas florestas? Diante do extermínio dos povos indígenas e ou mesmo a violência contra pessoas em situação de rua? Como ficar indiferente à cultura do estupro? Como não reconhecer a cultura que descarta jovens e idosos considerados apenas em seu aspecto pragmático utilitarista? Mais que respostas, temos perguntas, e com certeza outras surgirão. Que a ciência busque o amor e escape do perigo do fechamento e isolamento de si mesma no cientificismo e torne-se sabedoria e coloque-se a serviço da vida da humanidade, do bem comum desta Casa Comum, sobretudo dos pobres e excluídos.
Visão
Uma nova visão é proposta que parte do primeiro princípio indispensável para um novo humanismo, e portanto, da educação para um novo pensamento, capaz de unir diversidade e unidade, igualdade e liberdade, identidade e alteridade. Lemos no Pacto: “Em outras palavras, trata-se de entender que as diversidades não apenas não são um obstáculo à unidade, nem a desestabiliza, mas – pelo contrário – são indispensáveis, são o seu horizonte de possibilidades: unidade e diferença não se excluem, na verdade, estão entrelaçadas”. (PEG, 2020, p. 11). Diz ainda o Pacto:
Na prática educacional, o novo pensamento inaugura, consequentemente, um exercício de diálogo amplo, que envolve livremente quem quer que queira trabalhar para uma autêntica cultura do encontro, do enriquecimento recíproco e da escuta fraterna: “Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevitável da vida, é preciso recordar-se sempre que somos irmãos; por isso é preciso educar e educar-se para não considerar o próximo como um inimigo nem um adversário a eliminar.” Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2014), porque se “o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão universal, nada e nem ninguém fica excluído desta fraternidade” (Laudato Si, n. 92). (PEG, 2020, p. 11-12)
Esse exercício de diálogo amplo é o que ocorre no diálogo inter-religioso. Reconhece o Papa Francisco que o diálogo entre as religiões é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e para as outras comunidades religiosas. (Cf. EG, n. 250). Falando da importância do pensamento do diálogo e da paz afirma que “(…) deve iluminar e orientar cada vez mais aqueles que os cidadãos elegeram para a administração político-econômica da sociedade civil”. (Cf. PEG, 2020, p. 12)
O Pacto reconhece a importância da relação educacional, ou seja, coloca a pessoa no centro da relação. Comentando a respeito da experiência escolástica afirma que: “(…) uma educação frutífera não depende primariamente da preparação do professor nem das habilidades dos alunos, mas da qualidade do relacionamento que é estabelecido entre eles”. (Cf. PEG, 2020, p. 12).
Entretanto o Pacto reconhece o risco que é o discurso de colocar a pessoa no centro. Quem deve estar no centro é uma pessoa real e concreta e neste sentido, é preciso considerar a realidade social e perceber quem está à margem. Diz o Pacto:
Isso também implica assumir o controle concreto das situações iniciais em que se encontram hoje muitas crianças do mundo inteiro. De fato, não podemos esconder que o discurso sobre a centralidade da pessoa em qualquer processo educacional corre o risco de se tornar muito abstrato se não estiver disposto a abrir os olhos para a situação real da pobreza, do sofrimento, da exploração, da negação de possibilidades, em que se encontra boa parte da infância mundial. E sobretudo, se não se é disponível a fazer alguma coisa. Como o Papa Francisco ama se expressar, é preciso agir sempre ligando a cabeça, o coração e justamente as mãos. (PEG, 2020, p. 13)
Outro princípio fundamental a recolocar-se no centro do planejamento educacional é o que “o mundo pode mudar”. Bento XVI na sua encíclica social “Caritas in Veritate” identifica a questão de entender os atos da globalização como fatalistas e sem esforço humano. Entretanto, os eventos culturais, históricos e econômicos que acontecem em nossa volta não podem ser interpretados como fatos incontestáveis, determinados por leis absolutas. (Cf. PEG, 2020, p. 13)
Neste sentido o Papa Francisco pede que escutemos o clamor dos jovens que pedem mudança. Lemos no Pacto: “(…) E é justamente na força desse clamor dos jovens – que encontra cada vez mais espaço nas inúmeras manifestações criadas por eles – que todos, especialmente, aqueles que estão envolvidos no setor da educação, devem encontrar a força necessária para alimentar essa revolução da ternura que salvará o nosso mundo que está muito ferido” (PEG, 2020, p. 14)
Aqui propõe-se que não tenhamos medo de correr o risco saudável e de despertar a inquietação pela realidade. Correr o risco que implica: “(…) Como se lê na Evangelii Gaudium – do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado”. (PEG, 2020, p. 14)
Podemos considerar que aqui tratamos do JULGAR. A partir da reflexão conceitual sobre uma nova visão de educação podemos avaliar nossos processos educativos. A visão de buscar a unidade na diversidade implica o exercício de um amplo diálogo e o colocar a pessoa no centro da relação educacional. A centralidade da pessoa leva à uma nova atitude educacional que é o imperativo que o mundo pode mudar e a revolução da ternura é feita a partir da escuta do clamor dos jovens. Em nossas universidades deve se multiplicar os espaços de diálogo que envolvam diretamente os jovens em suas necessidades, sobretudo grupos de vivência e cooperação solidária que atuam como “escuta à jovens em situação de vulnerabilidade”, mas também, apoiar a iniciativa de outros projetos de protagonismo juvenil considerando sua participação mais direta junto às instâncias de decisão universitária através da inserção no movimento estudantil e ou mesmo pastoral. O estágio e a extensão por meio de cursos e disciplinas podem favorecer uma maior integração junto à sociedade, sobretudo, às comunidades, ongs e movimentos sociais e eclesiais.
O diálogo com as juventudes pede uma maior atenção às especificidades, e isso também implica considerar as classes sociais. A cultura dos jovens das periferias, por exemplo, o rap, o hip hop, o funk e o grafite muitas vezes são desconsideradas como arte em nossas universidades. Para um exercício de compreensão maior da importância destes diálogos com as culturas juvenis faz-se necessário uma releitura da própria história brasileira sob à ótica dos pobres, dos negros, dos excluídos. A própria Igreja no Brasil reconhece que ainda é necessário abraçar a causa dos negros. Embora majoritariamente os negros declaram-se católicos, conforme o censo de 2010, poucos são os que participam das comunidades de modo efetivo. Segundo Marco Davi de Oliveira, a religião mais negra do Brasil é o pentecostalismo com 8 milhões de negros frequentando as igrejas. Uma atenção maior a esta cultura da periferia precisa ser dada pelas nossas universidades para que possamos compreender melhor a realidade social, sobretudo, das nossas metrópoles brasileiras.
Ao considerarmos o outro – a centralidade da pessoa – que propõe o Pacto, não de modo abstrato mas real, a pessoa do negro pobre periférico, compreendemos que poderemos então falar de fraternidade na perspectiva que pede o Pacto, pois no Brasil, ser fraterno é reconhecer na pessoa do pobre e excluído, e aqui o negro, o indígena e a mulher negra pobre, o outro, que segundo Enrique Dussel está exterior ao sistema na América Latina e por isso mesmo provoca e convoca-nos à justiça com seu rosto, pois como afirma o Pacto citando o Papa Francisco na Evangelii Gaudim – o risco é ir ao encontro do rosto do outro – rosto real e não abstrato – marcado pela dor e pelo tempo, pela fome e miséria, e pela exclusão. Diríamos que estamos diante de uma alteridade real à que a universidade é chamada a promover junto às juventudes.
O Papa Francisco chegou afirmar em uma de suas falas se quisermos compreender a realidade precisamos partir da periferia, portanto, fica a provocação para que a universidade “pegue a visão” que está sendo proposta pelo Pacto e pergunte-se sobre o quanto em seu planejamento educacional tem promovido uma cultura de solidariedade junto às periferias, sobretudo, inserida na cultura da juventude negra periférica e pentecostal. Outro desafio é o diálogo com os movimentos sociais. O Papa Francisco tem enfatizado a importância de dar voz aos grupos sociais que muitas vezes são silenciados pois não são considerados em seus coletivos. Favorecer o espaço de participação dos movimentos sociais que são marginalizados junto às universidades é fortalecer a democracia pelo princípio da participação. De alguma forma, como diz o Papa Francisco, o mundo vai mudando mesmo que não vejamos. Há um provérbio africano que diz: “Pessoas simples, em lugares simples, fazem coisas simples e geram mudanças extraordinárias!”.
A Missão
Em relação ao esforço em criar uma “vila da educação”, o Papa Francisco enfatiza que sem esforço de todos não será possível e é necessária uma tríplice coragem: em primeiro lugar a coragem de colocar a pessoa no centro; em segundo lugar, a coragem de investir as melhores energias com criatividade e responsabilidade; em terceiro lugar e último lugar, a coragem de formar pessoas disponíveis para o serviço da comunidade. Compreende-se daí que há uma intrínseca relação entre a encíclica social Laudato Si e o Pacto Educativo Global.
A educação é “chamada a criar uma cidadania ecológica” (Laudato Si’, n. 211) que pode tornar-se uma ferramenta eficaz para construir a longo prazo uma sociedade mais acolhedora e atenta ao cuidado do outro e da criação. Lemos no Pacto: “Em outras palavras, o compromisso educacional não é voltado apenas para beneficiários diretos, crianças e jovens, mas é um serviço prestado à sociedade como um todo, que na educação se renova”. (PEG, 2020, p. 15)
A segunda passagem corajosa rumo a um novo pacto formativo consiste em ter a força, como comunidade (eclesial, social, associativa, política), para oferecer à educação as melhores energias que se têm à disposição. E oferecer tais energias exige o desafio de colocar os melhores jovens graduados e as mentes mais brilhantes a serviço do bem comum em detrimento das grandes empresas com fins lucrativos. E reconhecer o desperdício de energia que ocorre devido a incapacidade de sobriedade que leva-nos a responder docilmente aos estímulos da propaganda e a viver no consumismo individualista. A coragem é necessária para superar tais fragilidades numa verdadeira e radical inversão de rota onde só a educação pode a longo prazo alcançar uma mudança positiva. (Cf. PEG, 2020, p. 16)
E o terceiro ato de coragem solicitado pelo Papa é aquele de formar pessoas disponíveis para se colocarem a serviço da comunidade. Lemos no Pacto: “(…) nenhum educador alcança plena ação educativa se não se comprometer a formar e a plasmar, naqueles que são confiados a seus cuidados, uma plena e real disponibilidade ao serviço dos outros, de todos os outros, de toda a comunidade humana, a partir daqueles que mais apresentam uma situação de fadiga e de desafio”. (PEG, 2020, p. 16-17).
O Pacto praticamente encerra assumindo a máxima: “O verdadeiro serviço da educação é a educação ao serviço”. Uma educação que promova a fraternidade para “viver com os outros” mas também “servir aos outros”. Como diz o Pacto, citando Hanna Arendt:
(…) A educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, os jovens. Na educação decide-se também se nós amamos tanto os nossos filhos a ponto de não desalojá-los do nosso mundo deixando-os à mercê de si mesmos, a ponto de não arrebatar de suas mãos a chance de realizar algo novo, algo de imprevisível para nós; e prepará-los ao invés, em vez disso, para a tarefa de renovar um mundo que será comum a todos. (Entre o Passado e o Futuro, Garzanti, Turin 1999 [orig. 1961], 255). (PEG, 2020, p. 17)
Podemos afirmar que o AGIR está sintetizado aqui como A missão que é criar uma “vila da educação” por meio de redes de relações humanas e abertas. Para isto, importante é assumir a tríplice coragem. Ao considerar os desafios do Pacto Educativo Global no Ensino Superior procuramos demonstrar que, em contexto brasileiro, a coragem de colocar a pessoa no centro, a abertura para o outro como fundamento do Pacto está na pessoa do negro pobre e periférico. Com isso, não estamos desconsiderando os outros grupos sociais, mas a ênfase sobre este grupo dá-se por uma tomada de consciência negra necessária que compreende a dívida social histórica que temos para com esta população. A coragem em assumir a questão racial pela universidade brasileira é colocar a pessoa no centro. A coragem de investir as melhores energias em criatividade e responsabilidade, em particular, apoiando iniciativas de projetos sociais e pastorais de comunidades vulneráveis. E a coragem de formar pessoas disponíveis para o serviço da comunidade através do estudo e atividades práticas de inserção junto à periferia e desta forma vivenciar uma educação ao serviço dos outros.
Conclusão
Em nosso texto sobre os desafios do Pacto Educativo Global, não deixamos de considerar a realidade brasileira em seu contexto maior. A realidade de desigualdade social, que antes é racial, faz sentir na situação real das comunidades indígenas e quilombolas, pois viveram um processo escravagista desde o período colonial.
Consideramos importante no processo de construir essa “vila da educação”, que sejam considerados, a sabedoria ancestral indígena que nos ajuda a aprender o “bem viver” com um estilo de vida mais sóbrio e em maior harmonia com toda a criação. Igualmente, consideramos que se faz necessário aproximar-se das comunidades quilombolas, para que assim nossas universidades possam estar comprometidas com a História considerada à luz da exigência de justiça do Evangelho enquanto opção preferencial pelos pobres.
Nossas universidades ainda reproduzem modelos de formação semelhante a “Casa Grande” e tratam a periferia, as favelas, como “senzalas”. A abolição não libertou o negro dando-lhe condições de homem livre. O preconceito prevaleceu e não houve política afirmativa de inclusão, e portanto, foi relegado à margem. A Igreja reconheceu que a escravidão, da qual ela mesma foi incentivadora, é um pecado do passado. E agora os Bispos do Brasil afirmam que “(…) Esse pecado do passado não nos deve impedir, porém, de combatermos hoje, e com veemência, toda forma de exclusão, de discriminação e de racismo”. (CNBB, 2013, p. 61).
Os desafios do Pacto Educativo Global para o Ensino Superior no Brasil exigem de todos nós um profundo discernimento sobre o empenho em promover a fraternidade a que somos chamados, seja na busca por viver com os outros e servir aos outros. Considerando que toda questão social é antes antropológica, reconhecemos que precisamos assumir a causa dos negros como causa do Brasil e da pastoral da Igreja no Brasil, e necessariamente, na universidade brasileira.
Deixamos agora uma palavra dos Bispos do Brasil para que possam ajudar-nos na reflexão sobre o sentido do pacto educativo a ser assumido enquanto Ensino Superior brasileiro.
É o que queremos fazer, também agora, incentivando nossas comunidades a renovar nosso compromisso evangélico com a vida e com a justiça, procurando tirar de nossa cabeça, de nosso coração e de nossas práticas tudo que é resquício de uma “senzala” que ainda pode existir dentro de nós. Quando achamos normal explorar nossos empregados, quando achamos normal nos submeter sem reagir à opressão e à violência, quando achamos normal pedir favores aos políticos no lugar de exigir nossos direitos, quando achamos normal que uns poucos privilegiados concentrem e gozem de riquezas e privilégios, quando muitos irmãos e irmãs, comunidades, e até populações inteiras, são obrigados a viver na exclusão e na humilhação. Que o Espírito Santo nos ilumine para que possamos fazer escolhas coerentes com o Evangelho que anunciamos. (CNBB, 2013, p. 61).
Referências
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