Uma escola sinodal
Com o pontificado de Papa Francisco, a Igreja vem buscando trilhar um caminho que transcenda os limites do clericalismo e chegue a uma lógica sinodal, e essa sinodalidade é um convite à conversão e mudança de paradigmas. Sinodalidade seria um processo de escuta mútua e respeitosa em todos os níveis hierárquicos da Igreja. É uma palavra bastante atual que quase não se escutava e vem ganhando espaço significativo no meio eclesial. Reconhecer tais avanços e se deixar interpelar por eles é o primeiro passo para efetivar, a partir da sinodalidade, uma cultura do encontro em nossas escolas.
O convite de Francisco para uma Igreja sinodal influencia diretamente o fazer pastoral na escola e a nossa forma de gestar nossas comunidades educativas. Etimologicamente, o termo sinodalidade provém da ideia grega de “caminhar juntos”. Caminhar junto é o que Jesus faz em toda sua vida. Nesse sentido, convido-vos a fixar neste momento uma imagem específica para representar esse caminhar junto, encontrado no episódio com os discípulos de Emaús, no Evangelho segundo a comunidade de Lucas (24, 15-18.27).
Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e se pôs a caminhar com eles. Mas os olhos deles estavam como que embaçados e não o reconheceram. Jesus lhes disse: “sobre o que vocês estão falando enquanto caminham?” E eles pararam, com o rosto triste.
Um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “Será você o único estrangeiro em Jerusalém que não sabe das coisas que aí aconteceram nesses dias?”. […]
E explicou-lhes o que dizia respeito a ele em todas as Escrituras, começando por Moisés e percorrendo todos os Profetas.
Jesus Cristo foi um educador/evangelizador nato. Nesta narrativa, encontramos elementos norteadores e relevantes para esse processo de nos tornar uma escola sinodal. Neste momento, peço para que imagine a cena narrada por Lucas e te convoco a olhar para Ele; passos lentos e leves, não anuncia sua chegada, aproximando-se silenciosamente das duas pessoas que caminhavam desesperançadas em um longo caminho, faz-se presença acolhedora e se põem a escutar e dialogar. A angústia os cegavam, eles não O reconhecem, mesmo assim, ele caminha, pergunta, questiona e explica. Jesus, sendo Deus, deixa-se encontrar nos caminhos da vida cotidiana.
Após este exercício de fixação, notamos na pessoa de Jesus que Ele se aproxima das pessoas, caminha junto, encontra-se com elas. A escola, enquanto espaço eclesial, deve assemelhar-se a essa postura. Devemos “evangelizar educando e educar evangelizando”, máxima esta que precisa estar impregnada em nossos planejamentos e ações educacionais cotidianas. Ao olhar para a imagem que fixamos desse encontro de Jesus com os discípulos, devemos aprender com Ele como ser uma escola que transpira sinodalidade em todo seu ser.
O filósofo austríaco Martin Buber tem uma célebre frase que diz que: “toda vida atual é encontro”, parafraseando-o, diria: toda ação pastoral-pedagógica, em sua essência, é encontro. Favorecer este contato, e fazer com que nossas ações sejam permeadas de encontros, é uma missão para toda escola confessional. Pôr os pés a caminho, aproximar-se e escutar, abrir-se ao diálogo, assim como Jesus fez com os discípulos de Emaús, fará de nossas comunidades educativas cada vez mais sinodais, evangélicas e promotoras da cultura do encontro.
A cultura do encontro
O Dicionário do Pacto Educativo Global, publicado em 2021, dedica um verbete exclusivo para o tema da cultura do encontro. Nota-se como este tema é importante para compreender o fazer pastoral no mundo atual. O Dicionário nos lembra que “encontros verdadeiros humanizam os relacionamentos, despertam no coração a solidariedade e a compaixão. O encontro é capaz de libertar a pessoa do egocentrismo, ajudando-a a sair de si mesma para acolher o outro como seu/sua irmão/ã.”
Fazer com que esta cultura se torne carne e habite entre nós não é missão de uma pessoa apenas. Esta tarefa precisa de muitas mãos. Nosso corpo docente, direção, colaboradores de todos os setores precisam fixar diante de seus olhos esta missão, para que ela seja norteadora de toda e qualquer ação pastoral-pedagógica.
Toda a educação confessional é desafiada para essa cultura do encontro, onde somos convidados a romper o isolamento do eu, a fim de estabelecer uma rede de encontros onde não seremos apenas indivíduos separados, mas sim uma verdadeira comunidade em comum unidade. A individualidade e o isolamento só dificultam o projeto de encontro que Jesus Cristo propõe. Ultrapassar esses limites carecem de todos nós coragem apostólica e compromisso profético com o outro, pois só quando nos compreendermos como membros de um mesmo corpo (1 Cor 12,27) é que seremos capazes de alcançar as periferias existenciais que insistem em nos afastar uns dos outros.
Encontro é partilha. O Papa Francisco alerta que “a cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros”. É necessário está aberto àquilo que o outro tem a nos oferecer, caso contrário, estabelecer-se-á uma relação puramente assistencial. O espírito de humildade e acolhimento precisa estar enraizado em nós, para que possamos olhar o outro como Jesus olhou e notar a preciosidade que nascerá de cada encontro.
Portanto, o que o Papa Francisco nos convida é uma conversão pastoral, e essa conversão perpassa pelos nossos afazeres, nossas trocas e, sobretudo, pelos nossos encontros. Que qualquer pessoa que adentre nossas instituições sinta, desde a pessoa que está na portaria até a equipe de manutenção, que ali é um lugar onde há respeito, atenção, cuidado e fraternidade.
Que a cada encontro saiamos tocados pelo espírito carismático que transformou essa instituição em uma realidade. Ser escola em pastoral é isso. Parafraseando Francisco de Assis, tomemos cuidado com a nossa escola, talvez ela seja o único evangelho que as pessoas leiam. Que nessa longa estrada, a sinodalidade nos ajude a caminhar juntos e a fomentar uma verdadeira cultura do encontro, e que sobretudo possamos ser coerentes com a bela missão que nos foi confiada: Educar evangelizando e evangelizar educando.

