Uma releitura cristológica e pedagógica do Pacto Educativo Global

Uma releitura cristológica e pedagógica do Pacto Educativo Global

1. O milagre da multiplicação dos lápis

Em 2015, quando visitava a ilha do Sal em Cabo Verde, em pelo Oceano Atlântico, com um grupo de amigos, certo dia fomos visitar uma aldeia típica para entregar alguns bens escolares. Quando chegamos lá, não sabíamos era que o número de crianças era superior ao material que levávamos, algo que nos deixou um pouco embaraçados. Começamos a distribuir o material escolar, e reparámos que os lápis não iriam chegar para todos… até que uma das crianças mais velhas fez o seguinte: pegou no seu lápis, partiu-o a meio, ficou com uma parte… e deu a outra metade a uma criança mais nova.

Partindo deste autêntico “milagre” contemporâneo, que poderíamos definir por “a multiplicação dos lápis” (um pouco à semelhança daquele milagre da “multiplicação dos pães e peixes” de Jesus), ele recorda-nos aquela que é a finalidade última da educação: construir uma sociedade mais humana, fraterna e equitativa. 

Neste sentido, a primeira palavra é agradecer o trabalho silencioso e exigente que todos vocês, na diferença e contexto das suas funções, desenvolvem para a educação das gerações mais novas, ensinando-as a partilhar os seus lápis: ou seja, a partilhar conhecimento e condições de estudo. Aliás, o Papa Francisco deixou-nos uma frase crucial que se tornou num autêntico refrão pedagógico. Diz o Santo Padre: “não podemos mudar o mundo, se não mudamos a educação” . Ao que poderíamos acrescentar: só conseguimos mudar a educação, se mudarmos o estilo de educar. 

Posto isto, sem dúvida que um dos maiores riscos das escolas/universidades é-nos dito por Caetano Veloso numa das suas célebres músicas: desperdiçar o tempo, ao ponto de depois termos de pedir mais tempo ao próprio tempo (cfr. “Oração do Tempo”). As escolas e universidades distinguem-se de outros organismos sociais por oferecer à existência humana um tempo específico e um tempo que não pode ser repetido: é um tempo único na vida para se formar! 

De um modo genérico, é certo que a educação deve ser enriquecida com diversos contributos vindos da área da antropologia, sociologia e psicologia que, na sua especificidade, contribuem para um processo mais personalizado e adaptado aos desafios dos jovens contemporâneos. E durante este Congresso Nacional, certamente que escutaremos brilhantes e importantes reflexões para se repensar a educação hoje. 

Todavia, sendo este um Congresso Nacional de Educação Católica, penso que seria fundamental não esquecermos a raiz básica da nossa educação e que muitas vezes tende a ser esquecida, dado que a essência de uma coisa está sempre na sua origem. Talvez precisemos olhar para Jesus de um modo “mais pedagógico”, a fim de intuirmos quais horizontes pedagógicos que Jesus ainda aponta hoje aos nossos dias. E por quê? Porque, como indica o título do vosso Congresso, para se “Transformar o presente, para tecer o futuro” implica também um olhar o passado, isto é: olhar a origem e fonte da nossa identidade cristã. É daqui que advém a diferença da nossa identidade pedagógica, como nos descreve de um modo mais aprofundado o recente documento da Congregação para a Educação Católica, intitulado: A identidade da escola católica para uma cultura do diálogo (2022).

Como tal, dividimos a nossa reflexão em dois momentos: primeiro, redescobrir a raiz que distingue uma educação católica; segundo, articular os princípios pedagógicos de Jesus com o Pacto Educativo Global (Papa Francisco), de modo a potenciarmos essa tal educação que seja capaz de mudar o mundo.

2. Redescobrir a raiz de uma educação católica

Das muitas caraterísticas que descrevem a identidade de Jesus, uma delas é a figura de “Jesus mestre” (Jo 13,13). Mas indo mais a fundo, da sua biografia colhemos este princípio crucial da dimensão (humana) de Jesus: Ele antes de ser mestre, foi aluno; antes de ser formador, foi formando; antes de ensinar, aprendeu. Sendo mais precisos, Jesus formou-se durante 30 anos para ser formador durante apenas três anos. Vejamos agora em detalhe estes dois momentos e que conteúdos podemos retirar para a educação contemporânea.

2.1 Jesus cresceu em estatura, sabedoria e graça 

A formação de Jesus resume-se a esta frase evangélica escrita depois da narração da Sua perda e reencontro no Templo, quando tinha 12 anos: “crescia em sabedoria, estatura e graça” (Lc 2,52). Ou seja, uma formação que inclui o âmbito físico (estatura), espiritual (graça) e intelectual (sabedoria).

Neste longo período de formação (30 anos) em Nazaré, não obstante outros formadores, Maria e José são os formadores mais decisivos, introduzindo o menino Jesus nas seguintes dimensões da formação humana: doméstica, prática, religiosa e afetiva.

Acerca da dimensão doméstica, Jesus aprende de Maria as tarefas domésticas do quotidiano, bem como a arte da contemplação exterior e interior (Lc 1,19; Lc 2,51c). 

Da dimensão prática, aprende de José a arte do trabalho de carpintaria (Mc 6,3; Mt 13,55), «sendo um trabalho físico que engloba o corpo, especialmente as mãos, exigindo concentração, paciência e silêncio, implicando criatividade, rigor e precisão». Além disso, «em casa, Jesus vive as realidades humanas que contemplaremos depois na vida pública: dormir e acordar, levantar-se ou colocar-se à mesa, beber e comer». 

Também serão Maria e José a introduzir Jesus na dimensão religiosa, quer pelo ensino das orações tradicionais, o significado das festas judaicas, o exercício da liturgia doméstica e a pedagogia da oração pessoal. Aliás, a prática da oração (noturna) individual que Jesus opera durante a sua vida pública (Mc 6,46; Lc 5,16; 6,12) «deve fundar-se num hábito adquirido desde a sua juventude» em casa.

E sobre a dimensão afetiva, podemos presumir que «os sentimentos manifestados por Jesus durante a vida pública formaram-se durante a sua vida em Nazaré (…), (onde) desenvolve uma rica vida afetiva: capacidade de afeiçoar-se, compaixão, alegria, tristeza, choro, medo, angústia, comoção, impaciência ou desilusão». 

Destas quatro dimensões fica evidente o seguinte: que a formação paternal de Maria e José não é apenas teórica, mas também prática; que não é apenas uma formação individual, mas também social. Por isso, podemos reiterar que é uma formação integral, visando o crescimento integral (e não apenas parcial) de Jesus. 

2.2 Jesus mestre

Depois da etapa da formação, Jesus inicia a etapa de formador com o início da sua vida pública (30 anos). Sobre o estilo da formação de Jesus, sem dúvida que podemos elencar inúmeros aspetos, mas aqui circunscrevemo-nos a três.

Primeiro, Jesus oferece uma educação para todos (sem exclusão). Jesus não escolhe um grupo uniformizado de apóstolos, mas um grupo diverso em que cada um possui histórias, dons e serviços diferentes. E é sobretudo a este grupo que Jesus se apresenta como o “formador dos futuros formadores” da sua Igreja. Ao mesmo tempo, Jesus não forma apenas este grupo restrito, mas todos aqueles com quem se encontra: quer as pessoas que não o acompanham diariamente (Mc 5,18-19; Lc 8,38-39), quer as pessoas que aparecem esporadicamente (Lc 19,1-10), quer os membros de outras regiões (Mc 9,38-39; Lc 9,49-50) e quer as multidões que abarcavam todos os estratos sociais (Lc 6,17-19).

Segundo, Jesus educa para transformar vidas. Uma das formas de ensino mais recorrentes de Jesus eram as parábolas. O que isto significa? Significa que Jesus não fala em modo metafísico só compreensível para uma elite, mas fala em modo simples e para toda a gente, cuja parábola permite um efeito pedagógico maior que o simples discurso instrutório: não é uma narrativa abstrata, mas uma narrativa que permite a encarnação do ouvinte dentro da própria história da parábola, desencadeando nele uma reação ética de confronto com a sua própria vida. Ou seja, a formação de Jesus não visa apenas a transmissão de conteúdos, mas também visa mudar a própria vida dos ouvintes.

Terceiro, Jesus educa para o limite. Além da palavra, Jesus também educa pela experiência, nomeadamente a experiência do limite, que no fundo visa evitar dois extremos: o pessimismo antropológico e a omnipotência humana. Por outro lado, a experiência do fracasso, quando no discurso das bem-aventuranças Jesus anuncia as futuras dificuldades e contrariedades que os discípulos atravessarão na sua missão (Mt 5,11) e, como tal, Jesus apela a uma confiança em Deus que jamais abandona o humano. E por outro lado, a experiência do sucesso, quando os 72 discípulos (Lc 10,2-12) são enviados em missão e mais tarde regressam contentes porque as coisas correram bem (Lc 10,17), Jesus reprova esta atitude de arrogância humana porque nos devemos manter humildes, dado que tudo deve ser visto como um mérito de Deus que age pela ação humana, e não um exclusivo mérito do humano (Lc 10,18-19). Ou seja, a formação de Jesus não é apenas teoria, mas faz das próprias experiências da vida uma forma de aprendizagem que complementa a teoria: caso contrário, a educação reduz-se a uma utopia.

Neste sentido, se antes referíamos que Maria e José foram os grandes formadores de Jesus até aos 30 anos, agora devemos acrescentar um outro formador decisivo que se torna mais visível durante a vida pública de Jesus: o Pai do Céu, como explicita de um modo particular o evangelista São João. Por diversas vezes, vemos Jesus referindo-se ao Pai (oração, diálogo, testemunho), demonstrando que, mesmo sendo formador, Jesus mantém a humildade de se aconselhar e continuar a formar junto do Pai, numa formação permanente.

Ora, tendo por base esta abordagem ao nosso Mestre, daqui retemos duas breves conclusões: primeiro, que ninguém pode educar sem se formar prévia e permanentemente; segundo, somos sempre uma “obra dos outros”, pelo que ninguém aprende apenas por si próprio, o que nos torna responsáveis pela educação dos outros. Ou seja, Jesus, enquanto mestre, forma formadores para que depois se tornem formadores de outros futuros formadores, numa cadeia inter-temporal que chega até aos nossos dias.

Posto isto, e de modo a tornarmo-nos mais plausível a vitalidade dos ensinamentos de Jesus, passemos a um confronto entre a vida de Cristo e o “Pacto Educativo Global”.

3. Jesus diante do “Pacto Educativo Global”

Como é do conhecimento da maioria, em 2019 o Papa Francisco lançou uma ideia que se concretizou a 15 de outubro de 2020: a criação de um “Pacto Educativo Global” que envolvesse uma série de organismos políticos e educativos no compromisso de uma renovação pedagógica.

Tendo presente as linhas gerais deste Pacto Educativo Global, seria importante que o relêssemos agora à luz do nosso formador central, Jesus Cristo (e que analisamos no ponto anterior), dando assim uma visão cristológica a este documento. Nesta linha, analisaremos estes sete princípios sob quatro chaves de leitura: a enumeração de alguns riscos pedagógicos atuais, o contributo dos conteúdos pedagógicos de Jesus, as competências pedagógicas a serem desenvolvidas e a proposta de alguns desafios pedagógicos práticos (que depois deverão ser adaptados o melhor possível a cada situação escolar), a fim de implementarmos este mesmo Pacto Educativo Global. 

3.1 Colocar a pessoa no centro 

Porque Deus nos criou diferentes e irrepetíveis, embora a educação seja em grupo, ela deve visar o crescimento de cada um na sua singularidade. Não se trata de subjugar a identidade pessoal a uma ideologia comunitária, mas de entrelaçar a identidade pessoal na identidade comunitária. 

Um dos riscos da globalização acarreta para a educação é a uniformização da população mediante uma uniformização do ensino: isto é, encaixar as pessoas em determinados padrões sociais, os quais muitas vezes estão subjugados a determinados interesses económicos. 

Diante deste cenário, Jesus ensinou-nos uma vez que “o sábado foi criado para o humano e não o humano para o sábado” (Mc 2,27-28). O que isto quer dizer? Que a lei deve ter como finalidade promover o humano e não ostracizar o humano. Porque o risco de qualquer ideologia é tornar-se num totalitarismo: anular a diversidade. E a riqueza típica da cultura brasileira implica uma ulterior atenção pedagógica: o saber integrar todos os estudantes, apesar das suas diferenças étnicas e culturais.

Como tal, compete às escolas e universidades educar para a singularidade. Pois uma pessoa não vale pelo número de likes que tem no seu instagram, mas vale porque é um ser irrepetível e amado por Deus. E daqui deixamos um desafio concreto: além de um acompanhamento pedagógico personalizado, não poderíamos desafiar os jovens a ter um “diário do estudante”, onde narrem a sua “singular história académica”?

3.2 Escutar as gerações mais novas 

Um outro risco da educação é a adultização do ensino. Ou seja, uma educação pensada por adultos, a partir das expectativas dos adultos e segundo as intuições dos adultos. É certo que os adultos devem tomar a dianteira da educação, mas esta não pode ignorar um dos princípios da Evangelii Gaudium: a realidade é superior à ideia.

Jesus, numa das belas passagens do Evangelho, deixa-nos este refrão pedagógico: “deixai vir a mim as criancinhas” (Mt 19,14-15). Não são apenas os adultos que têm coisas para ensinar aos mais novos, mas os mais novos também têm coisas para ensinar aos adultos, nomeadamente: a sua humildade, a sua alegria, a sua honestidade e, sobretudo, a sua curiosidade.

Como tal, compete às escolas e universidades o desafio de um educar para a escuta: um escutar os anseios e perguntas dos mais novos, envolvendo-os no projeto educativo. Como nos explica a filósofa Simone Weil, a atenção é uma escuta que implica um aproximar-se do outro para o podermos escutar com qualidade e, escutando o outro, escutamo-nos a nós mesmos. É como um respirar: esvaziamo-nos (expirando) para depois nos voltar a encher (inspirando) com os outros, enriquecendo-nos mutuamente. 

Diante da atual geração juvenil dos “fones nos ouvidos”, importa desafiar os agentes educativos para esta dimensão da escuta, para o qual deixamos um desafio concreto: a fim de que os estudantes possam ter um maior papel consultivo nas decisões escolares, não será útil criar mecanismos pedagógicos que favoreçam uma “cultura da escuta” que ouça as perguntas e anseios dos estudantes?

3.3 Promover a mulher

Felizmente, desde meados do séc. XX que a mulher tem assumido um maior protagonismo na vida social, precisamente porque dispôs das mesmas condições educativas do homem. No entanto, sabemos que ainda hoje, em muitas geografias do mundo, continua a haver diversas formas de descriminação feminina em âmbito escolar, pelo que esta conquista ainda não está terminada.

A própria postura de Jesus ao se aproximar das mulheres (Mc 1,29-31), ao ser encontrado por mulheres (Jo 4,5-26), ao curar mulheres (Lc 13,10-16), ao defender as mulheres (Jo 8,3-11), ao instruir mulheres (Lc 10,38-42), ao aceitar mulheres como parte do grupo dos discípulos (Lc 8,1-2)… revela como Deus jamais desvaloriza a dignidade da mulher. Aliás, no próprio mistério pascal, são as mulheres que ocupam um lugar em destaque, sobretudo a Sua mãe Maria: quando os homens fogem, são as mulheres que permanecem ali a acompanhar de Jesus na via para o Calvário (cfr. 4.ª / 6.ª / 8.ª estação da Via-Sacra), a estar com Ele junto à Cruz (Jo 19,25-27), as primeiras a confirmar a Sua Ressurreição (Jo 20,11-18) e a esperar a descida do Espírito Santo ocorrida no dia de Pentecostes (Act 1,14). E, como se não bastasse, na própria eclesiogénese observamos um forte protagonismo feminino, quer na colaboração missionária (Act 16,15.40), quer no serviço de diaconado (Rm 16,1).

Como tal, compete também às escolas e universidades educar para a paridade. E daqui deixamos um desafio concreto: não será que a promoção de certos eventos que elucidem a biografia de determinadas mulheres que moldaram a própria história da humanidade, poderá ajudar a desencadear uma maior consciência feminina numa sociedade ainda bastante patriarcal? E hoje saudamos a memória da Santa Irmã Dulce (1920-1992), que apadrinha este Congresso. Na verdade, o mundo não se constrói apenas com grandes presidentes, com grandes descobertas científicas ou com grandes discursos musculados, mas também se constrói com pequenos gestos, como nos ensinou esta mulher religiosa. 

3.4 Responsabilizar a família

A nossa primeira escola não é a escola do ensino fundamental nem temos como primeiro professor aquela pessoa instruída que ensina na escola, porque a nossa primeira escola é a nossa família e o nosso primeiro professor é o colo (as mãos) da nossa própria mãe. Diante deste dado, jamais podemos abdicar de uma relação umbilical entre escola e família. O risco é o de cairmos numa hegemonia pedagógica escolar que instruiu jovens à margem do seu contexto familiar. Devemos criar esta circularidade vital entre estas duas comunidades: a comunidade familiar e a comunidade educativa. Caso contrário, criamos um dualismo existencial com efeitos na personalidade do estudante: este não pode ser uma pessoa no seio familiar e outra no seio escolar, mas a mesma pessoa que cresce em sintonia nestas duas comunidades que se complementam.

Como demonstramos no ponto anterior, a família foi um elemento decisivo na própria formação de Jesus (Lc 2,52), desde o seu nascimento até ao início da vida pública. E hoje não devemos de ter receio de afirmar que a família é também um seio de formação, pelo que devemos defender uma “exclusividade pedagógica da família”. O que isto quer dizer? Quer dizer que há certos conteúdos que, se não for a família a transmiti-los, estes mesmos conteúdos não serão transmitidos ou serão transmitidos em modo deturpado. De um modo sintético, partilho uma breve síntese de uma reflexão precedente, em que apresento uma proposta pedagógica de oito exercícios práticos que uma família pode desenvolver no seu contexto familiar quotidiano e que defino como as oito Bem-aventuranças da filiação. A saber: bem-aventurados os filhos que têm sonhos; bem-aventurados os filhos que dominam a gramática das emoções; bem-aventurados os filhos que conhecem a biografia dos seus pais; bem-aventurados os filhos que emprestam os seus ténis aos irmãos; bem-aventurados os filhos que aprendem com a derrota; bem-aventurados os filhos que se sujam na Natureza; bem-aventurados os filhos que acreditam sem terem visto; bem-aventurados os filhos que choram a morte dos seus familiares.

Deste modo, compete às escolas e universidades educar para a vida, essa vida que brota graças a uma família. E daqui deixamos outros desafios concretos: será que temos celebrado dignamente o Dia da Família na escola, ou apenas nos empenhamos a celebrar efusivamente as outras festas civis e culturais? No processo de educação, será que temos consciência que, por detrás de um estudante, está sempre uma história familiar, muitas vezes marcada por momentos de fragilidade e rutura?

3.5 Abrir-se ao acolhimento 

Um ulterior risco da educação é o educar apenas para os resultados académicos. O ranking das escolas feito a partir da média de resultados, do qual advém uma hipotética maior credibilidade de uma instituição de ensino, não pode ser a razão última da sua existência. Não descurando este pormenor, as instituições de ensino devem também ser capazes de criar oportunidades de estudo para os mais pobres e educá-los sem descriminação, bem como fomentar nos seus estudantes este sentimento de solidariedade para com os mais pobres.

Disso foi exemplo o próprio Jesus, pelo que devemos reparar neste pequeno detalhe: Jesus, mais do que falar “sobre” os pobres, “sobre” os frágeis e “sobre” os marginalizados, falava “com” os pobres, “com” os frágeis e “com” os marginalizados (Mc 1,33-34). Desta forma, compete às escolas e universidades educar para a fragilidade, sobretudo neste tempo em que parece que só é válido aquele que é jovem, belo e famoso. E daqui deixamos um desafio concreto: além das visitas de estudo que as escolas organizam para conhecer monumentos e locais emblemáticos, não seria oportuno organizar também para os estudantes visitas ou exercícios de voluntariado nos hospitais pediátricos ou casas de saúde (autênticos “monumentos de humanismo”!) para despertar esta sensibilidade pela fragilidade?

3.6 Renovar a economia e a politica 

Um outro risco associado ao anterior, trata-se da finalidade última da educação: formar apenas profissionais e não cidadãos. Porque a finalidade última da educação não é a glória pessoal do estudante, mas capacitar o estudante a transformar o seu contexto, mediante as suas aptidões profissionais, de modo a construir o maior bem possível. Na verdade, o mais importante na formação não é que o aluno tire a nota máxima, mas que o aluno renda o seu máximo. E a isto acrescenta-se um outro elemento: a sua formação profissional deve torná-lo um “vigilante social” do próprio sistema político e económico em que habita, mediante o seu olhar crítico e denunciador de injustiças, de modo a garantir o justo equilíbrio social. 

Acresce ainda que, infelizmente, temos assistido a um desinteresse crescente da população pelos temas políticos, o que acarreta um grave problema: a política pode ser manipulada por alguns, em vez de ser debatida por todos. Por este motivo, compete às escolas e universidades educar para a comunidade, incutindo nos estudantes esta responsabilidade pelo bem comum, como nos ensina Jesus no seu discurso das bem-aventuranças (Mt 5,3-10).

E daqui deixamos mais um desafio concreto: será que não podemos criar campanhas de solidariedade social nas nossas instituições escolares, desenvolvendo assim a consciência política dos nossos estudantes? 

3.7 Cuidar da casa comum 

Diante de uma geração que aprendeu a controlar tudo com um fácil click nas plataformas digitais, «uma “praça” onde os jovens passam muito tempo», importa que se tenha consciência de que a vida não se reduz ao mundo digital mas que existe também um mundo real. Mais do que nunca, a questão ecológica tornou-se numa questão de sobrevivência da própria humanidade. Se o mundo é “uma casa comum”, partilhada por todos, então todos se devem sentir responsáveis pelo cuidado desta casa. O próprio Jesus demonstrou um carinho especial pelo meio-ambiente, quer quando instruiu os apóstolos mediante uma contemplação da natureza (Mt 6,26) ou quer quando demonstrou o seu poder divino mediante um conter a força da natureza (acalmar o vento: Mc 4,39).

Como tal, compete às escolas e universidades educar para a ecologia, resgatando-os da escravidão do mundo digital para uma dimensão ativa no mundo real. E daqui deixamos um último desafio concreto: no meio das atividades extra-pedagógicas, não será que as escolas poderiam proporcionar “experiências ambientais”, tais como o voluntariado na limpeza de parques naturais ou o simples peregrinar por meio da natureza? 

4. De consumidores a produtores de lápis

Para terminar, o filme Gênio Indomável (Good Will Hunting) de 1997, vencedor de dois Óscares da Academia de Hollywood, narra-nos a história interessante de um jovem estudante dotado de uma inteligência acima da média, mas cuja vida atravessa uma enorme tempestade juvenil. Mas em todo o filme, há uma pergunta tácita que desinstala a reflexão do espectador: o que é mais importante no ensino, aprender coisas ou aprender a viver as coisas?

Penso que este é o grande desafio da educação hoje. E não nos esqueçamos disto: quando Jesus encarnou neste mundo, Ele veio apenas para nos ensinar uma coisa. Ele veio apenas para nos ensinar a viver. Logo, aqui reside a raiz profunda de uma educação católica: educar segundo Aquele que é o grande “formador dos formadores”. Porque se hoje o evangelho produz poucos frutos, talvez seja porque as palavras dos formadores sejam apenas palavras humanas, e não palavras de Deus, pois se desligaram da sua fonte (Jesus Cristo).

Por fim, deixo esta pergunta em suspenso para a nossa reflexão: se um dia um aluno teu não tiver um lápis para escrever, tu és capaz de partir o teu lápis a meio e dar-lhe a outra metade?

¹  Francisco, Discurso aos participantes no IV Encontro de Scholas Occurrentes, 5 de fevereiro de 2015.
²  Cfr. Heidegger, «L’origine dell’opera d’arte (1935/36)», 5.
³  Congregação para a Educação Católica, A identidade da escola católica para uma cultura do diálogo (Instrução), Cidade do Vaticano 2022.
4  Não obstante o exílio de dois anos no Egipto (Mt 2,13-23), bem como outras deslocações periféricas e as peregrinações a Jerusalém por ocasião das festas judaicas, a maior parte do tempo de Jesus, vivido antes do início da vida pública, é passado sobretudo em Nazaré: Mc 1,9; Mt 2,23; 4,13; Lc 2,4.39.51; Jo 1,45-46; 19,20; At 10,38.
5 Cfr. Begasse de Dhaem, Mysterium Christi, 143.
6 Cfr. Cardoso, Onde está o teu filho? Para uma pedagogia quotidiana diante da crise familiar, 64-67.
7 Begasse de Dhaem, Mysterium Christi, 153.
8 Begasse de Dhaem, Mysterium Christi, 152.
9 Begasse de Dhaem, Mysterium Christi, 154.
10 Begasse de Dhaem, Mysterium Christi, 155.
11 Cfr. Mc 3,13-17; Mt 10,1-4; Lc 6,12-16; 9,1; Jo 1,40-49; Act 1,13.
12 Cfr. Ricouer, «Posizione e funzione della metafora nel linguaggio biblico», 106.
13 Cfr. Cardoso, Onde está o teu filho? Para uma pedagogia quotidiana diante da crise familiar, 68.
14 Cfr. Francisco, Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo, 12 de setembro de 2019.
15 Cfr. Arendt, The origins of Totalitarianism, 437-459.
16 Cfr. Francisco, Evangelii Gaudium, 231.
17 Cfr. Francisco, Christus vivit, 246.
18 Weil, Waiting for God, 147.
19 Cfr. Recalcati, Le mani della madre, 19-24.
20 Cfr. Cardoso, Onde está o teu filho? Para uma pedagogia quotidiana diante da crise familiar, 104-131.
21 Cfr. Galimberti, I miti del nostro tempo, 44-46.
22 Cfr. Congregação para a Educação Católica, Educar ao humanismo solidário, 16-19.
23 Francisco, Christus vivit, 87.
24 Cfr. Francisco, Laudato Si’, 203-208.
25 Cfr. Vieira, Sermão da Sexagésima, IX.

Autoria:

Pe. José Miguel Cardoso