A aprendizagem religiosa na educação infantil

A aprendizagem religiosa na educação infantil

  1. O ensino religioso na educação infantil

O olhar sobre o ensino religioso para a Educação Infantil não se constitui a partir de um componente curricular, mas deve estar presente de forma transversal no que concerne a ação pedagógica dos Direitos de aprendizagem, ou seja no “conviver, brincar, participar, explorar, expressar e no conhecer-se” (BRASIL, 2017, p. 40) e nos Campos de experiência, sendo eles: “o eu, o outro e nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaços, tempos, quantidades e transformações” (BRASIL, 2017, p. 42-44). Historicamente, isso já vem ocorrendo ao longo dos últimos anos na prática pedagógica, segundo a identidade e os princípios da escola católica, levando a aproximar o objeto de conhecimento, “o conhecimento religioso” (BRASIL, 2017, p.438), às Áreas do conhecimento em geral. 

Na Educação Infantil o ensino religioso se concretiza nos Campos de experiência por meio dos objetos religiosos, das interações, das vivências e representações que estão presentes no ambiente, na convivência social e na partilha de crenças e práticas trazidas de casa pelas crianças e que, com olhar, escuta e percepção atenta, intencionalmente são evidenciadas pelo professor.

Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) o “conhecimento religioso” (BRASIL, 2017, p.438), objeto do componente curricular ensino religioso, é produzido e, portanto, está dado, no âmbito dos Direitos de aprendizagem e desenvolvimento, nos Campos de experiências e nas diferentes Áreas do conhecimento (BRASIL, 2017, p. 26), fundamentado na Ciências da Religião. É a Ciências da Religião a ciência que investiga a manifestação dos fenômenos religiosos em diferentes culturas e sociedades, enquanto um dos bens simbólicos resultantes da busca humana por respostas aos enigmas do mundo, da vida e da morte. 

De modo singular, complexo e diverso os fenômenos religiosos alicerçaram distintos sentidos e significados de vida e diversas ideias de divindades e em torno das quais se organizaram cosmovisões, linguagens, saberes, crenças, mitologias, narrativas, textos, símbolos, ritos, doutrinas, tradições, movimentos, práticas e princípios éticos e morais. Sendo que se “os fenômenos religiosos, em suas múltiplas manifestações, são parte integrante do substrato cultural da humanidade” (BRASIL, 2017, p.436), estes também necessitam ser considerados e tratados no contexto da educação infantil e de suas experiências. 

Em consonância com a BNCC as escolas são instigadas a produzir conhecimentos como uma referência político-pedagógica e pastoral que vise explicitar a concepção, os princípios, os pressupostos e os procedimentos do componente curricular ensino religioso. Pois, em diálogo com a pastoral escolar, o ensino religioso também deve apoiar e aprofundar o anúncio do Projeto do Reino de Deus e buscar formar os estudantes para a vivência dos valores evangélicos. 

Remetendo ao pensamento infantil, que se caracteriza por uma ausência de esquemas operatórios, sabe-se que é o que contribui para o desenvolvimento do pensamento mágico, do artificialismo, da imitação, da falta de discernimento, do egocentrismo, entre outros. Razão pela qual, no desenvolvimento da inteligência, o conhecimento religioso não deve ser uma simples adição de rezas, de orações, de ritos, mas deve se constituir em uma transformação qualitativa de estruturas cognitivas e emocionais, segundo as quais a inteligência religiosa infantil evolui nas descobertas e interações a partir dos contextos familiares, da relação com os adultos, com os espaços culturais, com o ambiente escolar e no contato com a natureza. Pois, a apreensão do religioso, além de ser o mais complexo conhecimento para a criança, contribui para o desenvolvimento de sua competência sócioemocional e se consolida na sua humanização fraterna, ética e solidária.

  1. O desenvolvimento religioso

No processo de desenvolvimento da criança de três a seis anos manifesta-se uma concepção de divindade, como a de um ser que age e se revela de modo mais concreto que abstrato, mas também de um pensamento mágico. De acordo com Piaget, o pensamento mágico se dá no período pré-operatório, fase em que a criança não se limita a agir sobre os objetos, mas procura representá-los, isto é, substitui-os por símbolos, e daí pensa sobre ele, desenha-os, representa e assim por diante (BORGES, 1994, p. 98). 

Esse pensamento mágico pode interferir significativamente na formação dos conceitos e da experiência de cada indivíduo, e que se não for bem elaborado e compreendido no desenvolvimento das fases subsequentes, o adulto manterá uma concepção religiosa infantil. Nesse sentido, é importante, ao trabalhar os temas religiosos, preocupar-se em apresentar com fidelidade a mensagem proposta, evitando-se a produção de fantasias, ou de elementos que não contribuam para a apreensão do significado racional dos conceitos e da sua aplicação no concreto da vida. Caso assim não seja, isso implicará em adultos num estágio de magismo, artificialismo e antropomorfismo no campo religioso (ALETTI, 1993, p. 61). 

Diante desse pressuposto é possível afirmar que o desenvolvimento religioso está vinculado ao desenvolvimento cognitivo e socioemocional, pois cada indivíduo tem experiências religiosas na família, posteriormente também em outros contextos culturais e, nas mesmas, pode vivenciar situações nas quais se cultua, ou não, o divino. Na fase infantil, esse processo é muito concreto, e se dá por meio do ver, do tocar, do expressar e do ato de ouvir o Outro, como forma de experimentar o divino. Em todas essas experiências, ressalta-se a importância da concretude plástica, a ser vista com o olhar, percebida com o toque e explorada com a expressão interpretativa da criança. Aqui tanto é concretude para ver e tocar os ícones, as artes plásticas, os ritos como também os textos e livros sagrados. 

  1. A metodologia do ensino religioso na educação infantil

No que diz respeito à metodologia do ensino religioso na Educação Infantil, é importante que o fazer pedagógico com as crianças envolva objetos e ritos religiosos do seu campo de convivência, seja do ambiente escolar, familiar e cultural. Para alargar conhecimentos e estar em sintonia com as experiências e opções religiosas da família, é fundamental solicitar a participação das crianças em tarefas, pesquisas e outras atividades que se iniciam na escola e se estendam em casa com a própria família. Ainda no fazer pedagógico, as breves narrativas, histórias e contos, símbolos e objetos, ritos e textos sagrados devem ser apresentados e utilizados primeiro como informação, para que se constituam em conhecimento e, assim, a criança compreenda o fenômeno religioso presente nas diversas culturas. 

A fé torna-se uma consequência das tradições recebidas, das experiências familiares, dos conhecimentos adquiridos, das reflexões sobre os valores evangélicos e das vivências proporcionadas às crianças. No ensino religioso, também, é possível tratar de temas como bullying, preconceito, intolerância, desrespeito-respeito, solidariedade, empatia,  doação, entre tantos outros, ao Outro e ao Ambiente, em visto do favorecimento e da construção de relações interpessoais saudáveis.

No campo da percepção e apreensão da religiosidade, os materiais são acrescidos de iconografias, artes plásticas e cênicas, representações simbólicas, parábolas, fatos da vida de Jesus e dos fundadores das instituições, experimentados e vivenciados com jogos, toques, sensibilização do olhar, do sabor, do odor, entre outros que contribuem para a compreensão do conhecimento no ensino religioso nesta fase. Acrescenta-se, ainda, que, sobre a organização curricular, a BNCC propõe objetos de conhecimento a serem proporcionados e desenvolvidos nos Campos de Experiências e, por essa razão, orienta uma nova e diversificada forma metodológica para o componente curricular ensino religioso. 

  1. O constante olhar do educador 

Em relação aos Campos de Experiências, é fundamental que o trabalho pedagógico contribua para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, para a compreensão moral e ética dos dilemas da vida, ajudando a discernir com base nos valores cristãos e se posicionando para uma cidadania responsável. Nesse contexto, o conhecimento das tradições religiosas, das filosofias, da antropologia e da sociologia contribuem para a formação do humanismo solidário, que solidifica a identidade autoconfiante e altruísta da criança. Portanto, é fundamental conhecer os aspectos que interferem no desenvolvimento moral e religioso da pessoa, para compreender tanto os processos de desenvolvimento da fé como as alterações biológicas e psíquicas próprias do crescimento do ser humano. 

Por fim, a pastoral escolar tem um papel considerável na escola católica ao favorecer experiências de processos de educação da fé, já que as razões para viver uma vida com sentido exigem experiências que tocam a interioridade humana. Só alcançando essa interioridade é possível encontrar o divino que existe no núcleo interior de cada ser. Essas experiências se fazem por meio da espiritualidade e também da sua expressão na religiosidade. E assim como ninguém vive sem um sentido maior e mais profundo, a fé é algo constitutivo e fundamental na experiência humana.

Referenciais

ALETTI, M. Psicologia, psicoanalisi e religione: studi e ricerche. Bologna: Dehoniane, 1992.

BORGES, T. A criança em idade pré-escolar. São Paulo: Ática,1994.BRASIL. Ministério de Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.

Autoria:

Sônia de Itoz

Sérgio Junqueira