As crianças vivenciam o sagrado e, a sua maneira, também se relacionam com o Divino. É preciso lembrar que essas experiências com o transcendente se dão na concretude de suas vidas, no contato com a natureza, no cuidado consigo, com o outro e com o mundo. É o ciclo do afeto. Essa compreensão é um caminho viável para a criação de estratégias que favoreçam o desenvolvimento da religiosidade, da espiritualidade e da fé das crianças.
As experiências de evangelização com a Educação Infantil aqui relatadas compreendem as infâncias, suas potencialidades e saberes, como sujeitos ativos nesse processo. A criança é o lugar teológico em que a voz de Deus se revela e pede que nos atentemos a ela.
As características que configuram a infância apontam para uma superação de práticas de evangelização que tratam as crianças como receptores passivos de verdades ensinadas pelos adultos, passando a compreendê-las como partícipes ativas no processo educativo-evangelizador. Uma educação evangelizadora com as infâncias, nessa perspectiva, fundamenta-se na interlocução, mediação e construção conjunta em que crianças e adultos expressem e acolham mutuamente as experiências de fé, a vivência da religiosidade, dos princípios que tomam como base os valores fundamentais do Evangelho. (UMBRASIL, 2016,p.40)
A trilha de evangelização na Educação Infantil contou com dois projetos: “SEMAR – Sementes Maristas” e “Amiguinhos de Champagnat”. Ambos são iniciativas provinciais que contam com fundamentações teológicas e pedagógicas e metodologias para o seu desenvolvimento.
O projeto SEMAR – Sementes Maristas foi pensado para crianças de 2 a 5 anos (Maternal II a 2º Ano da Educação Infantil). Inspirado em Jesus de Nazaré que “crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52), as crianças são envolvidas, de forma lúdica e comunitária, a conhecerem e vivenciarem valores, baseados nas Pequenas Virtudes Maristas. Assim, experimentam os ciclos de cultivo, motivada no processo de vida da semente, no seu preparo, plantio, cultivo, crescimento e nos frutos.
No desejo de tornar Jesus Cristo conhecido e amado, Champagnat é o nosso grande amigo, que se põe, com as crianças em um caminho de aprendizado e descoberta de Deus. Esse é o objetivo dos “Amiguinhos de Champagnat”, projeto voltado para as crianças de 6 anos. Além de fortalecer e propagar o carisma e a missão marista, o projeto estimula a vivência de grupo e reforça as pequenas virtudes apresentadas no Sementes Maristas.
Para a execução dos projetos, o primeiro movimento realizado foi o de implementar o “Amiguinhos de Champagnat” no horário extracurricular para assim, compreender o seu potencial, estratégias de desenvolvimento e apresentar à comunidade escolar a proposta de evangelização com as Infâncias que estava sendo construída. Tivemos uma aceitação muito grande das famílias e das crianças, o que nos motivou a pensar estratégias de engajar cada vez mais toda a comunidade educativa.
Sentimos a necessidade de romper com o tradicional, ofertando assim espaços de escuta, de desenvolvimento pessoal e coletivo para além do extracurricular. O nosso desafio era a criação de uma consciência planetária, de alteridade afetiva e efetiva, que fideliza as crianças criando sentimento de pertença, aliando ao currículo a sensibilidade pastoral.
O currículo não se trata apenas de uma matriz dos conteúdos a serem ensinados. Ele é um espaço de disputa, de relações de poder (SILVA, 2010). É o fio condutor da identidade de um sistema educativo. Portanto, a pastoral precisa estar no currículo. Frisamos que a ação pastoral pode estar presente em todos os campos de conhecimento, não somente no Sentido Religioso.
Para a construção de um currículo evangelizador é preciso quebrar algumas barreiras encontradas na formatação curricular existente em nossas comunidades educativas, heranças de teorias curriculares que valorizavam muito mais o cognitivo. A segmentação dos conhecimentos e a distribuição de horas/aula para cada disciplina é um exemplo de como a organização curricular reflete os saberes que devem ser valorizados. Diante desse cenário, como falar de pastoral dentro do currículo?
Para Lima e Mendes (2018) a articulação educação-evangelização tem na ação pastoral sua principal dinamizadora nesse processo. Uma vez reconhecido que a pastoral também tem seus saberes constituídos, cabe favorecer espaços e tempos para que eles sejam transversalizados no currículo.
São diversos os desafios para a implementação no currículo e é preciso estar atento e forte nos espaços de articulação e diálogo. Reafirmar a capacidade técnica tanto dos projetos quanto da equipe é uma estratégia fundamental. As experiências com os projetos pastorais-pedagógicos aqui relatados são fruto de conversas feitas ao longo de um ano com a direção e a coordenação pedagógica.
Para a execução do projeto firmamos parceria com o grupo docente. Entendemos que dentro da escola, todas/os são agentes de pastoral e que através de seu trabalho, também transmitem o carisma. Para tal, é importantíssimo garantir espaço para a Pastoral nas formações continuadas das/os professoras/es.
A metodologia escolhida foi a metodologia de projetos, uma sugestão que partiu de boas experiências das docentes em anos anteriores. As professoras tiveram acesso aos materiais dos projetos provinciais e a partir deles, e desenharam o planejamento para cada ano/etapa. Foram, em média, três meses de conversas, rascunhos, até fecharmos o desenho final do projeto que seguisse uma trilha de experiências, respeitando o desenvolvimento de cada idade. Coube à Pastoral a orientação dos projetos, colaborando na elaboração de atividades e vivências, sendo referência da ação pastoral. Assim, aliamos conteúdos já trabalhados em sala de aula à uma visão mais ampla, social, avançando para uma vivência profunda do carisma.
No desenvolvimento do “Sementes Maristas” e dos “Amiguinhos de Champagnat”, por exemplo, aproveitamos a Semana Champagnat (SCh), semana temática de celebração da vida e obra de São Marcelino Champagnat, como pontapé inicial. Todos os anos a SCh traz um tema para reflexão da comunidade educativa, e no ano em questão, abordou-se o meio ambiente.
Foram realizadas atividades de sensibilização, convidando as crianças para uma grande missão que seria revelada ao final da semana. Cada turma do “Sementes Maristas”, recebeu a tarefa de plantar e cuidar de um vaso. A partir daí, as docentes desenvolveram o projeto desde o preparo da terra, explorando os sentidos e observando os espaços verdes da escola. As turmas também estudaram sobre os pequenos animais que vivem nos jardins e a importância do cuidado com a terra e todos os seres que ali habitam. As docentes do 2º Ano da Educação Infantil, junto às crianças, confeccionaram um bornal para colecionar cada vivência realizada no projeto. Foi um processo muito bonito e marcante para as turmas.
O desenvolvimento do “Amiguinhos de Champagnat” acompanhou um projeto já existente nas turmas de 1º Ano do Ensino Fundamental e que já era um sucesso: Champagnat na minha casa. Como forma aproximar e sentir a espiritualidade Marista, as/os estudantes levaram Champagnat – representado por um boneco de pano – para casa e vivenciaram, com ele, momentos de oração, lazer, interação com a família. Mas, antes de levarem Champagnat para casa, as turmas conheceram mais sobre a sua história, através de livros, rodas de conversas com irmãos e pastoralistas, além de visitarem o Museu Marista – cujo acervo conta a história da congregação, principalmente, do início da presença Marista no Brasil.
O desenvolvimento dos projetos nos mostrou que não foi preciso reinventar a roda para construir maneiras de trabalhar em conjunto. Potencializamos e visibilizamos projetos que já existiam, fortalecendo o carisma na comunidade educacional. Com paciência, realinhamos o que não deveria ter se rompido: as práticas pedagógicas-pastorais.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/SEB, 2017. Disponível em: <<http://basenacionalcomum.mec.gov.br/>>
LIMA, Keles Gonçalves e MENDES, Edson “Currículo e Pastoral: Concepção, lugares e evidências” IN: REDE MARISTA DE SOLIDARIEDADE. Educação e evangelização na contemporaneidade: contextos, desafios, práxis e pistas para a pastoral no currículo. Curitiba: PUCPRESS, 2018, p.72-88.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: Uma Introdução às Teorias de Currículo.3° Edição. Editora Autêntica. 2010.UMBRASIL. Evangelização com as infâncias: no Brasil Marista – Brasília, DF: UMBRASIL, 2016. Disponível em: <<http://www.umbrasil.org.br/wp-content/uploads/2018/11/Evangeliza%C3%A7%C3%A3o.pdf>>

