Crianças na Educação Infantil são como livros: sabemos o enredo, o assunto, mas ao ler, somos surpreendidos com algo novo. Em constante descoberta, elas instigam os educadores a criar, a imaginar e experimentar novas possibilidades sempre. Mesmo em meio a novos recursos tecnológicos, as novas formas do cotidiano familiar e das relações, as crianças continuam encantando-se por uma boa história. História narrada sem pressa, que cria expectativa, que faz pensar em novas possibilidades, que instiga a imaginação e, acima de tudo, que favorece a significação do mundo e a construção da própria história.
Neste texto, intentamos refletir sobre a importância de narrar as histórias bíblicas na ação pastoral na Educação Infantil como forma de favorecer a apreensão da história dos crentes e suscitar o desejo de pertença à comunidade de fé.
1.Narração – dar significado ao mundo
O dia a dia na Educação Infantil revela o quanto as crianças gostam de ouvir, de aprender novas histórias. Não obstante os recursos que as educadoras podem utilizar ou as técnicas, é importante destacar que há histórias que praticamente fazem parte da infância: três porquinhos, Cinderela entre tantas outras princesas, arca de Noé, p. ex. As narrativas ajudam a criança a organizar suas ideias estabelecendo relações com o mundo que ela conhece e com aquele narrado, bem como estabelecendo sequência lógica, instigando, ainda, sua capacidade imaginativa.
O propósito de qualquer leitura ou narração é a apreensão de significados mediatizados ou fixados pelo discurso escrito ou falado, ou seja, a compreensão dos horizontes inscritos por um determinado autor num determinado texto, em confronto com a referência de vida e de significados de cada leitor ou ouvinte (KLEIN, 2011, p. 44).
Quanto mais relacionada à realidade da criança, com elementos que despertam sua curiosidade ou com imagens que geram identificação, mais significativa, torna-se a história, gerando maior interesse. Uma história significativa pode ser repetida sem que a criança se canse, e em cada repetição as imagens se recriam e motivam a pensar e interagir com o conteúdo narrado. A história facilita a fixação de conceitos, de padrões de comportamento e critérios éticos para tomadas de decisão.
Outro aspecto importante das narrativas ou contação de história e a relação entre o narrador e seu ouvinte. Embora aplicativos com histórias narradas e ilustradas também despertam o interesse da criança, na narrativa, é importante a relação estabelecida entre quem ouve e quem narra a história. Muitas vezes a criança interage, pergunta, relata as imagens que está criando estabelecendo uma relação de confiança com o contador.
As narrativas também favorecem o sentido de pertencimento da criança à comunidade. Segundo Fowler (1992, p. 93) “as histórias e imagens pelas quais vivemos”, moldam o caráter e estes são compartilhados pelo grupo. As histórias infantis são descrições do jeito de viver e agir que são dados como exemplo a ser imitado ou não, indicando para a criança o modus operandi da comunidade ao qual pertence e de cujas atitudes e histórias se identifica e apropria.
2.Narrar Deus
A criança da Educação Infantil, em geral, sente prazer em ser ativa, na experimentação de suas ações e no que deseja conquistar, gosta de atrair atenção sobre si. Em termos piagetianos, o nível de pensamento é pré-operatório. Aos poucos, a criança passa a planejar suas ações e perceber a relação entre causa e efeito. Surge a capacidade de seriar e classificar, além da noção de conservação de quantidades e a função simbólica. Trata-se de uma riqueza e um desafio para a ação da Pastoral Escolar. Diante disso, ressaltamos a importância das narrativas bíblicas.
Narrar histórias bíblicas para crianças é inseri-las num mundo de significantes e significados compartilhados pela comunidade de fé. Com as narrativas vai-se apropriando do conjunto de dogmas, da moralidade e até mesmo dos ritos e orações da comunidade. Um forte exemplo é a história da criação do mundo. A partir da história assimila-se uma verdade de fé basilar do cristianismo: “Creio em Deus, criador do céu e da terra”. A partir da história de Ester que reza e jejua pedindo a ajuda de Deus é possível compreender o que é a oração. Seriam infinitos os exemplos e possibilidades que as narrativas oferecem para a evangelização na Educação Infantil, necessariamente somados à criatividade dos educadores e agentes de pastoral. As histórias bíblicas contam como Deus agiu na história da comunidade revelando o seu jeito de ser e fazer no tempo de hoje. Tais histórias, contadas de geração em geração, até que fossem registradas por escrito, revelam o pertencimento e enche de sentido a vida daquele que crê.
Narrativas bíblicas falam de Deus, mas também falam da pessoa humana com seus sucessos e fracassos. Pensemos na figura de Davi, valente guerreiro escolhido e abençoado por Deus que se deixa seduzir pelo poder, pelo prazer, torna-se um pecador que se arrepende e alcança o perdão. Intrigante também é a história de Suzana, vítima de fofocas e condenada à morte. Enfim, intrigas, invejas, violência, mas também compaixão, solidariedade, fidelidade fazem parte da vida humana e das histórias da Escritura e é justamente nelas que Deus revela seu amor e bondade.
As realidades humanas precisam ser tratadas com as crianças, visto que estão inserindo-se no mundo onde as relações acontecem. Estão numa fase de construção da moralidade, ainda heterônoma, de ampliação do círculo de relações e experimentação destas. Kohlberg (1958, apud DUSKA; WHELAN, 1994, p. 57) considera que a consciência do certo e do errado gira em torno do medo de ser punido, de sentir dor, isso, naturalmente, nas crianças mais velhas e/ou amadurecidas desta fase. O problema, mais que nos atos, está na consequência negativa, do ponto de vista hedonista, que o ato pode acarretar. As histórias infantis de fundo moral, em sua maioria, exploram esta característica para impor conceitos estabelecidos socialmente. No fim da história quem fez o que é mal é punido, até mesmo com a morte. Algumas histórias bíblicas podem gerar interpretações que reforçam o medo da punição. Outras podem interferir nas relações humanas baseadas na confiança, por exemplo, por isso, as histórias precisam ser bem escolhidas. O sacrifício de Isaac, por exemplo, pode repercutir na relação com os adultos com quem convive ao passo que as narrativas que têm personagens crianças, geram identificação. É curiosa a experiência de Cavalletti (1985), relatando o grande interesse das crianças pela história do bom pastor, história que gostavam de ouvir inúmeras vezes, reinterpretar, desenhar, dramatizar.
É importante escolher bem as histórias para que estas sejam narradas com fidelidade ao texto bíblico. Diferente dos contos de fadas que apresentam releituras que alteram a intenção original do texto, é importante que com as histórias bíblicas o mesmo não aconteça. É possível narrar de forma a “tornar mais espontânea e coloquial a linguagem escrita” (KLEIN, 2011, p. 52). Depois de conhecida narrativa é importante uma releitura que a coloque mais em sintonia com a realidade da criança, mas sem que haja alteração na mensagem central do texto original, visto que se trata da Palavra de Deus.
Elemento importante também é o diálogo que se estabelece entre o narrador e seus ouvintes. Além da já citada relação de proximidade, este diálogo facilita a compreensão da criança acerca do texto. Como as relações de causa e efeito podem não ser ainda claras e seu pensamento é quase mágico, esta conversa sobre a história é essencial, pois as crianças da educação infantil tendem a usar a imaginação para preencher as lacunas da compreensão. Faz-se necessário ouvir suas interpretações e perceber como estão assimilando o que lhes é ensinado para evitar distorções que geram fundamentalismos futuros. Não se trata de dar a “moral da história”, mas perceber em que medida a fantasia da criança pode distorcer a verdade de fé compartilhada pela comunidade. É preciso também cuidado com histórias que são atraentes para as crianças, como a arca de Noé, mas que geram interpretações literais que no futuro podem ser erroneamente descartadas como inverdade. A experiência mostra que histórias assim, podem ser trabalhadas quando os estudantes já tiveram maior maturidade para entender a linguagem religiosa e não na Educação Infantil.
3.Considerações finais
Por fim, narrar histórias bíblicas para crianças na Educação Infantil coloca a Pastoral Escolar frente a uma fonte segura que é a Sagrada Escritura que deve ser “o coração de toda atividade eclesial” (Verbum Domini, 1). O próprio Cristo se comunica pela Palavra e ele é a razão da ação educativa e evangelizadora na Escola Católica.
As narrativas tornam a mensagem mais palpável para as crianças e gera identificação, o que favorece uma verdadeira evangelização que implica no anúncio da salvação da pessoa inteira, contribuindo para a formação integral com a qual a escola se compromete. Criatividade e interação com as crianças são formas de melhor aproximar-se da sua realidade e transmitir as crenças e valores da comunidade de fé de forma significativa para as crianças. Escolher bem, preparar as narrativas de acordo com a linguagem e realidade favorecem para que a identificação das crianças as preparem para uma adesão de fé baseada na experiência de um Deus cuidador, amoroso e acolhedor.
Referenciais
CAVALLETTI, Sofia. O potencial religioso da criança. Descrição de uma experiência com crianças de 3 a 6 anos. São Paulo: Loyola, 1985.
DUSKA, Ronald. WHELAN, Mariellen. O desenvolvimento moral na idade evolutiva. Um guia de Piaget a Kohlberg. São Paulo: Loyola, 1994.
ERIKSON, Erik H. Infância e sociedade. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
FOWLER, James W. Estágios da fé. A psicologia do desenvolvimento humano e a busca de sentido. São Leopoldo: Sinodal, 1992.
IGREJA CATÓLICA. Papa (2005-2013: Bento XVI). Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini. 1ª ed. São Paulo: Paulinas, 2010. (Documentos Pontifícios; 194).KLEIN, Remi. A criança e a narração. In.: Protestantismo em Revista. [online]. 2011, Vol. 24, jan./abr., pp. 42-61. Disponível em: http://periodicos.est.edu.br/index.php/nepp/article/view/137. Acesso em 14 set. 2020.

