A perspectiva socioemocional da palhaçaria nas aulas de Ensino Religioso do 3º ano do Ensino Médio

A perspectiva socioemocional da palhaçaria nas aulas de Ensino Religioso do 3º ano do Ensino Médio

“Vivei sempre alegres” (1Tes 5, 16) A palhaçaria é uma prática que, já faz algum tempo, vem crescendo e ganhando adeptos que participam dela e vão muito além do uso de uma fantasia e um nariz vermelho: cada vez mais, hospitais e centros de reabilitação vêm sendo tomados pela alegria e pela ressignificação da vida que a palhaçaria oferece. Ainda de maneira discreta, a palhaçaria está presente nas escolas, sobretudo no ensino infantil e nas atividades artísticas, ainda que a prática venha se estendendo a outros níveis e seguimentos. De qualquer forma, os estudos demonstram que a prática palhacesca é um instrumento eficaz para a promoção de uma educação socioemocional e para a criança ou jovem aprendam a lidar com o erro e, sobretudo, no entendimento do protagonismo e desenvolvimento do projeto de vida através do autoconhecimento oferecido pela inicialização à palhaçaria. 

Nunca foi tão importante valorizar esses aspectos, afinal, assim já orienta a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (ABED, 2016), e sobretudo, em tempos de pandemia, o ensino remoto potencializaram o exílio socioemocional e a sobrecarga de informações, trabalhos e a burocratização em diversos contextos da sociedade. Os alunos do terceiro ano do ensino médio tiveram que lidar ainda com o adiamento de vestibulares bem como o encerramento do ciclo do ensino médio. Diante deste cenário, esta alternativa didática contribuiu para que pudéssemos facilitar a aprendizagem, acolher e motivar o aluno na sua singularidade, afinal, como atesta Wuo (2019): o educador precisa ser empático, compreender quando as pessoas estão tristes, felizes, sozinhas, inconstantes. O recurso da palhaçaria é uma estratégia que conduz o sujeito ao autoconhecimento, autoaceitação e acolhimento. É ainda uma maneira de ensinar a lidar com as próprias limitações de maneira de conduzir o aluno ao encontro da própria subjetividade. 

Considerando que os tempos de aulas remotas, em muito, promoveram um desgaste emocional em professores, alunos e em toda comunidade escolar, a presente atividade foi realizada no período de maio a julho de 2020 com três turmas do terceiro ano do nível médio do Colégio Imaculado Coração de Maria (CIM), em Olinda, Pernambuco. O Colégio, é da rede privada de ensino e está ligado à sua mantenedora, Associação Instrutora Missionária, das Irmãs Beneditinas de Tutzing. Preza, já em seu lema; pelos valores de “Vida e formação”, atuando há mais de 65 anos e prezando pelos valores da Escola Católica. Neste sentido, procurou-se uma alternativa de intervenção que prezasse pela interação e real participação do alunado nas aulas e o Ensino Religioso, como via direta de demonstração dos compromissos confessionais do Colégio, nos pareceu uma excelente oportunidade de realizar tal atividade.

Para que a atividade pudesse acontecer, planejamos um total de 6 encontros virtuais, afinal as aulas estavam ainda no modelo remoto. Em média, cada turma contava com uma média de 35 alunos. A sequência didática planejada e empregada visava superar as expectativas em relação ao professor que, tinha como único recurso metodológico no ensino remoto, as aulas expositivas. O recurso à palhaçaria objetivava, portanto, a intervenção com uma metodologia ativa no processo de ensino-aprendizagem afim de motivar os alunos a participarem efetivamente das atividades propostas, diminuindo os impactos do ensino remoto.

Inicialmente, havia uma certa timidez, natural do processo que exigia exposição, pouco a pouco, todavia, as participações foram aumentando.  O “chat”, a todo momento, registrava respostas e inquietações com os depoimentos e provocações promovidas pelo professor. 

No primeiro encontro, fizemos uma contextualização da história do palhaço e das maneiras possíveis de descobrir-se e construir a representação da interioridade. Apresentamos, dentre os tipos possíveis de configuração palhacesca, o “clown” (um tipo mais leve e mais autoral do palhaço, ou seja, ele não se projeta em imitar alguém, mas em ser ele mesmo sem medo da exposição).   

Já no segundo encontro, o professor estava vestido de palhaço, a fim de conduzir, através de um relato da sua própria experiência, uma espécie de inicialização à descoberta do “Clown”. 

Figura 1: Palhaço do tipo Clown – Professor Piperzinho

Fonte: autor

Outrossim, os alunos foram paulatinamente inseridos num processo de “olhar para dentro”, e à semelhança do Clown, reconhecerem-se sujeitos às emoções, alegrias, tristezas e a outros sentimentos que perfazem o ‘eu’ existente na singularidade: demos ao exercício em sala o nome de identificação, conforme atesta Fellini (1986), por meio do clown, exorcizamos tanto impotência quanto o egoísmo. O ponto, em questão, foi fundamental para destacar a fragilidade humana perante a misericórdia e o amor de Deus, em consonância com a ‘parábola do filho pródigo’ (Lc 15, 11-32)

A partir da iniciação, fomos mostrando o brincar, característica peculiar da arte da palhaçaria, representado por um meio de estreitamento das relações mas também um espaço para verdade das ações e dos discursos trabalhados. O palhaço foi apresentado, portanto, como um sujeito da verdade, da transparência, assim, voltando-se para a proposta evangélica de uma verdade libertadora (Jo 8,32). Importa destacar na aula a utilização, mesmo remotamente, de alguns exercícios “palhacescos” – o trava-línguas, a imaginação criativa com personagens e objetos além do improviso. Houve, então, o terceiro encontro.

Um recurso peculiar utilizado na aula seguinte foi o trecho do evangelho em que Jesus ordena “Deixai vir a mim os pequeninos, não os impedis, porque deles é o reino de Deus” (Mt 19, 14). A palhaçaria foi, portanto, apresentada através de um meio para resgatar, nos adolescentes e no futuro adulto; a título de hábito, a criança que todos temos, mas, de alguma maneira, passamos por valores da sociedade, escondendo e limitando. O modelo de ação da criança que o palhaço resgata, é o agir empaticamente, perdoando, falando a verdade, permitindo-se errar e aprender com o erro e, sobretudo, não ter vergonha de ter vergonha ou medo. 

A partir daí, fizemos a reflexão sobre o palhaço representar “um ser criança a todo momento”, no entanto, precisa de uma prática e uma permissão individual de si e para si. A palhaçaria em sua essência atua, representando o meio pelo qual o sujeito reconhece: sua pequenez, fraqueza, suas limitações e passa a lidar com a situação de forma leve, sem ressentimento, culpa e tende a melhor lidar com as próprias crises e angústias. Somado às ideias, as aulas reforçaram a importância do serviço de orientação educacional (SOE), oferecido pelo colégio e que conta com psicólogos especialistas para cada seguimento do ensino. Assim foi o quarto encontro. 

No quinto encontro, tivemos apoio de alguns alunos do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO), instituição também ligada à rede Beneditina. Esse encontro foi uma apresentação simulando a contratação de um palhaço pelo dono do circo: a montagem da peça teve por base a parábola dos talentos (Mt 25, 14-30) e mostrou como cada um recebe um dom e deve pô-lo à disposição para que multiplique. Um detalhe importante é que uma das aulas que participou da atividade era deficiente visual e reforçamos, com isso, a importância que cada um de nós, na nossa singularidade, temos diante do criador.

Figura 2: Encontro final da palhaçaria em sala.

Fonte: Autor

Importa ainda destacar que, devido as aulas serem remotas, não fizemos a construção individual do palhaço, considerando que, por motivos diversos, o acesso à câmera e microfone, durante as aulas remotas, poderiam não favorecer o aspecto inclusivo da sequência didática. O alvo do processo foi a identificação pessoal de cada aluno, de seus defeitos e outras coisas que possivelmente ele não gosta ou identificava como problemático ou dificultador de relações em casa, na escola ou em outros ambientes. Esse foi o sexto encontro.

Um elemento importante a ser destacado é que não houve medo, em nenhum momento, da possível e realizada pergunta do aluno “qual a relação da palhaçaria com o ensino religioso?” Foi justamente a partir dessa pergunta que pudemos realizar as intervenções e facilitações com as turmas considerando o potencial de construção de uma resposta que revelasse o amor de Deus, a possibilidade de ser feliz aceitando-se quem é, e, ao mesmo tempo, preparando um projeto de vida que partisse da descoberta das próprias limitações. 

As conclusões que pudemos tirar do processo foi que, primeiramente, a assiduidade dos alunos às aulas e mais que isso, a interação e construção de diálogo através das propostas. O autoconhecimento, ou pelo menos a iniciação a esse processo através das aulas de ensino religioso, possibilitam ao aluno uma via para que possa exercer sua liberdade como condição basilar do exercício da sua dignidade de pessoa humana. A palhaçaria revelou-se como uma prática importante para ser trazida também em outros momentos e outros seguimentos com o intuito de favorecer um alunado mais consciente, mais tolerante, mais empático e que possa, conhecendo seus próprios limites, amar-se e amar aos outros como a si mesmo, e nisto, amar a Deus sobre todas as coisas.

Referências

ABED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica. Construção psicopedagógica, v. 24, n. 25, p. 8-27, 2016.

DE LA TAILLE, Y. Humor e tristeza: O direito de rir. Campinas, SP: Papirus Editora, 2014

DUNKER, C.; THEBAS, C. O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

FELLINI, Federico. Fellini por Fellini. 3ª ed. Tradução de José Antônio Pinheiro Machado. Porto Alegre: L&PM, 1986.

MACHADO, Paula et al . Relações entre o conhecimento das emoções, as competências académicas, as competências sociais e a aceitação entre pares. Aná. Psicológica,  Lisboa ,  v. 26, n. 3, p. 463-478,  jul.  2008 .   Disponível em <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0870-82312008000300008&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  04  jan.  2021.WUO, Ana Elvira. Aprendiz de clown: Abordagem processológica para iniciação à comicidade. São Paulo: Paco e Littera, 2019.

Autoria:

Felipe Gustavo S. da Silva