Para além do estético: a catolicidade como forma de habitar o espaço educativo

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Para além do estético: a catolicidade como forma de habitar o espaço educativo

Crucifixos na parede, capelas bem localizadas, oração antes das aulas, missas já marcadas… Detalhes importantes, mas que correm o risco de reduzir a identidade confessional à sua dimensão visível. São detalhes preciosos, valiosos, mas insuficientes se não responderem à provocação central: como a fé habita a educação no seu cotidiano escolar para além do estético? A verdadeira catolicidade não é um ornamento estético ou um verniz institucional, mas um modo de estar no mundo e habitar a ação pedagógica no cotidiano.

Compreender a catolicidade sob a chave do “habitar” exige um deslocamento epistemológico e espiritual. Católico (katholicos) refere-se à totalidade, à globalidade, ao abraçar toda a realidade. Habitar constrói o sentido de permanência, pertencimento e encarnação. Não é ocupar um prédio, mas impregná-lo de sentido. Dessa forma, a catolicidade não pode ser um verniz sobreposto a um currículo secularizado ou um mero “marketing de valores”, mas deve ser sobretudo uma forma de habitar a educação.

Toda proposta educacional traz uma resposta à pergunta: quem é o ser humano? Em um cenário marcado pelo utilitarismo e pela mercantilização, a escola católica, como todas as escolas, é pressionada a enxergar em seus estudantes clientes consumidores de serviços, destinados a se tornar futuros recursos para o mercado, mão de obra qualificada.

Aqui a catolicidade habitada revela sua força profética. Fundamentada na antropologia cristã e no personalismo de Jacques Maritain, a escola católica afirma que o ser humano é uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus, dotada de dignidade inalienável e destino transcendente. Assim, educar enquanto missão é acompanhar o desabrochar integral da pessoa: intelectual, afetivo, ético, social e espiritual.

Luigi Giussani, em O Risco Educativo, traz o conceito de educação como uma “introdução à realidade total”. A fé não pode ser apresentada como um dogma imposto, mas como uma hipótese explicativa da existência verificada na experiência concreta. Habitar a educação a partir dessa perspectiva implica oferecer ao educando um “olhar de revelação”. É o olhar que recusa rótulos, preconceitos e pré-julgamentos e enxerga para além das aparências, revelando a cada ser humano seu valor infinito e ajudando-o a descobrir que sua vida possui um sentido profundo.

Com isso, habitar a escola católica exige também transformar o clima institucional em um laboratório permanente de fraternidade. A catolicidade de uma instituição não é mantida por decretos, mas pela qualidade das relações humanas cultivadas diariamente.

O Pacto Educativo Global, convocado pelo Papa Francisco, nos dá orientações claras para essa atualização: colocar a pessoa no centro, escutar as novas gerações, valorizar a família e cuidar da Casa Comum. Habitar a escola enquanto católica exige abrir-se à cultura do encontro. Uma escola católica não pode ser um gueto fechado e defensivo, mas, precisamente por ser universal, ela se abre ao diálogo e acolhe a diversidade com respeito.

Portanto, na escola católica, o educador não é mero instrutor técnico, mas mediador da cultura, testemunha viva de um modo de habitar o mundo. Pela sua coerência ética e capacidade de amar, a fé se torna inteligível aos estudantes. A identidade confessional não é um tesouro estático do passado, mas uma chama acesa pelo compromisso renovado da comunidade educativa. Quando habitamos verdadeiramente a educação, a escola católica cumpre sua vocação: torna-se um espaço onde a fé humaniza a cultura e a convivência e antecipa a promessa de um mundo fraterno e cheio de esperança.

FONTES

CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. A Escola Católica. Roma, 1977.

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Roma, 2015.

FRANCISCO, Papa. Mensagem para o Lançamento do Pacto Educativo Global. Roma, 2019.

GIUSSANI, Luigi. O Risco Educativo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

MARITAIN, Jacques. A Educação na Encruzilhada. Rio de Janeiro: Agir, 1960.

PAULO VI, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Roma, 1975.

Autoria:

Felipe Pasquôto de Oliveira

Pedagogo com experiência em educação, gestão de projetos pastorais e formação de lideranças juvenis. Atua estrategicamente na integração de valores institucionais à prática pedagógica, com experiência em engajamento estudantil, fortalecimento comunitário e promoção de ambientes inclusivos. Licenciado em Pedagogia (UNIP) e em Letras Português/Inglês (UNICV), com pós-graduação em Andragogia e Educação Digital e em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Línguas Estrangeiras (UNINTER). Atualmente, atua como referencial do Grupo de Referência Nacional da Pastoral Familiar para Juventudes e Adolescências, integra a Comissão de Coordenação do Movimento dos Focolares na cidade de Curitiba e faz parte da Coordenação do Núcleo de Economia de Comunhão (EdC) na região sul.