A educação tem sido historicamente marcada por desafios, principalmente àqueles que têm como tarefa educar. Esses desafios correspondem às transformações sociais, políticas e culturais que colocam novas responsabilidades de reflexão e de intervenção nos processos educativos, a partir de uma concepção cujo ponto de partida seria a humanização.
Parafraseando Freire a humanização é compreendida dentro da dimensão que propõe a dialética sujeito-mundo, na qual o ser humano está histórico e culturalmente marcado. Assim, “a partir das relações que estabelece com seu mundo, o homem, criando, recriando, decidindo, dinamiza este mundo. Contribui com algo do qual ele é autor… Por este fato cria cultura.” (FREIRE, 1979a, p.43).
A possibilidade humana de existir – forma acrescida de ser -, mais do que viver, faz do homem um ser eminentemente relacional. Estando nele, pode também, sair dele. Projetar-se. Discernir. Conhecer. É um ser aberto. Essa transitividade do homem faz dele um ser diferente. Um ser histórico. Faz dele um criador de cultura. (FREIRE, 2001, p.10)
Nesse sentido, a pedagogia agostiniana tem o papel de educar o ser humano para a formação de diferentes saberes, para ser espaço para a construção do conhecimento e o compromisso com a formação humano-cristã, visando cidadãos éticos inseridos na sociedade com a perspectiva de torná-la mais igualitária, justa e fraterna. Como instituição confessional, o Colégio Santo Agostinho tem no humanismo o instrumento que prioriza a dimensão da essência do homem, articulando-se com a formação crítica e competente do cidadão – eixo norteador do trabalho acadêmico.
Podemos, de forma resumida, dizer que o grande objetivo é educar para viver verdadeiramente, viver sábia e inteligentemente a unidade no respeito às diversidades, a liberdade, o autoconhecimento, a convivência, o amor e a transcendência. Nessa direção, se traduz, como diferencial agostiniano, a proposta da Educação para o século XXI elaborada pela Unesco: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a compartilhar. (PINHEIRO, 2016, p. 90).
Esses pressupostos agostinianos norteiam a concepção de educação em nosso colégio, orienta a área de conhecimento do Ensino Religioso e as ações pastorais.
2.Refletindo a prática educativa do Ensino Religioso e a mística da psstoral escolar
O Ensino Religioso é o componente curricular que oferece aos educandos um programa com temáticas e habilidades que ajudam a desenvolver e construir uma espiritualidade a partir da vivência de valores e de experiências que contribuem para uma vida de sentido. O Departamento de Evangelização, Pastoral e Ações Sociais (Depas) promove ações a partir da vivência dos valores cristãos e agostinianos, visando despertar o espírito fraterno em direção aos que mais necessitam de ajuda.
Nesse sentido, a constituição da pessoa humana implica, necessariamente, a busca de várias ciências para o desenvolvimento de uma espiritualidade que contribua com a vida e com o mundo. Sendo assim, Pinheiro afirma que educar as crianças e jovens na contemporaneidade significa ter um projeto pedagógico que desperte a sensibilidade e a consciência para promover a vida em todas as dimensões, a fim de oferecer caminhos para serem protagonistas da história como multiplicadores do diálogo e de atitudes cidadãs.
O Ensino Religioso e o Depas então, cultivam esperanças naquilo que a escola precisa fortalecer no educando: o exercício do olhar misericordioso, o cuidado, a cooperação, o amor fraterno, a comunicação, o convívio, a decisão e ação frente à realidade da vida.
Busca-se, assim, refletir a respeito da experiência humana e religiosa de cada um como ser que vivencia os fenômenos e participa da história, especialmente no que concerne ao sentido da vida e à razão de se viver (projeto de vida), recolocando a cada dia as questões fundamentais que movem a existência (Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Para que estou aqui?). Essas temáticas e experiências se transformam em conteúdo e, transversalmente a elas, é que se aborda a temática dos valores, referência de conteúdo do Ensino Religioso até então.
Conforme Pinheiro, os valores são apresentados como eixo fundamental do processo de ensino-aprendizagem, contextualizados dentro da dinâmica do fazer pedagógico representando a totalidade da pessoa humana no jeito de ser, de sentir, de pensar e de agir.
Para isso, é preciso educar o olhar, exercer e aprimorar a escuta, vivenciar o princípio da alteridade, a fim de favorecer a percepção do valor de um mundo plural e diversificado. Assegurar o respeito à diversidade e garantir a integridade da pessoa humana.
Principalmente, o princípio da alteridade compreendido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sobretudo na Educação Infantil com a descrição do “O eu, o outro e o nós” que enfatiza habilidades e valores fundamentais para a construção da identidade, da subjetividade, das relações interpessoais, do respeito a si mesmo e ao outro. Fundamentos estes que vão de encontro a pedagogia agostiniana de conhecer-se e abrir-se ao encontro.
Assim nos diz a BNCC:
Ao mesmo tempo que participam de relações sociais e de cuidados pessoais, as crianças constroem sua autonomia e senso de autocuidado, de reciprocidade e de interdependência com o meio. (…) Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos. (BNCC, 2017, p.40)
Essa consciência implica, necessariamente, um ato comprometido da pessoa humana de estar no mundo, no sentido de assumir sua responsabilidade histórica de existir humanamente para que possa vivenciar concretamente sua vocação para “ser mais”.
Para isso, segundo Pinheiro o projeto educativo agostiniano constitui-se de cinco pilares essenciais que contribuem para a dimensão pessoal, comunitária, crítico-transformadora, ecológico-cósmica e transcendente na formação do educando.
Assim, o conhecimento religioso, enquanto sistematização de uma das dimensões da relação do ser humano com a realidade transcendental, está ao lado das ações pastorais, que, articulados, explicam o significado da existência humana.
É importante lembrar que a sala de aula é um espaço de partilha e de abertura para o diálogo de diversas manifestações e construção do conhecimento, não tem a finalidade de ser uma comunidade de fé. Isso implica, então, a necessidade de se construir uma pedagogia que favoreça tal perspectiva, porque o que objetivamos é fruto de uma experiência pessoal, na incansável busca de respostas para as questões existenciais.
É preciso, assim, interpenetrar teoria e prática adequando as atividades, textos, linguagem aos educandos, buscando respeitar suas subjetividades e histórias de vidas já construídas.
3. Ação Pastoral e a expressão da religiosidade na educação infantil
O Ensino Religioso na Educação Infantil é um terreno fértil para desenvolver a formação cidadã, tendo a alteridade como princípio norteador dos gestos concretos e do sentido da vida, bem como a expressão da religiosidade como caminho de abertura para o outro, para a natureza e para o Transcendente. “São as crianças, que sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida” (ALVES, 2015).
Na faixa etária de 4 a 6 anos é importante o desenvolvimento da religiosidade.
As crianças começam a ter as primeiras referências religiosas no seio familiar, e ocorre a repetição de gestos, de orações, a partir de uma dimensão afetiva da religiosidade.
Num primeiro momento da vida da criança não são dadas as condições para que a religiosidade humana se manifeste, mas pouco a pouco, com as experiências afetivas da primeira infância, o desenvolvimento da inteligência, os comportamentos imitativos… a criança vai se abrindo para o mundo do religioso. (GODIN, 1963, apud ÀVILA, 2007 ).
Sendo assim, o planejamento das atividades precisa ter o foco na interatividade que visam proporcionar experiências significativas na perspectiva de uma educação integral e ligada às questões humanas universais. A imaginação, o lúdico, a interação são o ponto de partida de todo o processo de ensino-aprendizagem, e permitem que a criança se expresse, exponha ideias, socialize e desenvolva o pensar.
Desse modo, o educador organiza a aula a partir de uma rotina pré-estabelecida começando pela exposição do tema, seguido de uma história, música e roda de conversa, momento fundamental para promover o diálogo e permitir que as crianças narrem, descrevam o que conhecem ou ouviram a respeito do tema. Neste caso, é muito importante que a criança se sinta livre para expressar os sentimentos e para contar a experiência religiosa da qual faz parte.
O caminho percorrido pelo Ensino Religioso tem como experiência o desenvolvimento e o crescimento da criança na formação dos valores a partir do olhar social. Caminho este promovido pelo entrelaçamento de ideias e formação humana de uma escola em pastoral, como nos relata a professora Jacqueline:
“O olhar do Ensino Religioso para a Educação Infantil e a Pastoral revela encontros. Numa época em que se fundam valores éticos como o respeito às diferenças, a valorização de si, do outro e do mundo que o rodeia, o educando de 4 e 5 anos é convidado a viver experiências humanizadoras e basilares para sua formação: sai de sua realidade e vai ao encontro do outro. Buscar o outro é fazer Pastoral. É viver um encontro de alteridades. Nesse encontro há intencionalidades e consequências. Talvez a maior de todas as consequências seja despertar o educando para ver, aceitar e crescer com o outro! Mas antes é preciso olhar. Que o Ensino Religioso na Educação Infantil, unidos à sensibilidade da Pastoral nos ensine a encontrar”! (Jacqueline Crepaldi Souza – Professora de Ensino Religioso do Colégio Santo Agostinho – Unidade de Belo Horizonte)
O Ensino Religioso e o Depas do Colégio Santo Agostinho, unidade de Belo Horizonte, traduzem, por meio do Programa Entrelaçar e de outras ações, o sentido da educação católica, orientada pelos valores agostinianos do serviço: “Não basta fazer coisa boas. É preciso fazê-las bem” In os.118,12,2; do diálogo “A verdade não é minha nem tua, a fim de que possa ser tua e minha. In ps. 103,2,11; do testemunho “Amar a verdade, conservar a caridade e desejar a unidade” Sermão 267,4 e do anúncio “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não descansa em ti. Conf.1,1; promovendo uma educação transformadora e humanizadora que ultrapassa os muros da escola.
“O Depas e o Ensino Religioso são dois movimentos distintos no processo de formação acadêmica e existencial dos educandos e até da comunidade agostiniana. Porém, existe uma intercessão e uma necessidade importantíssima de um para o outro. Primeiro, a entrada da pastoral em sala de aula acontece nesta intercessão com o Ensino Religioso, onde dentro de uma perspectiva educativa com foco acadêmico o Depas consegue entrar na rotina de sala de aula, do estudo acadêmico, viabilizado pelo ERE. Em contrapartida o conteúdo programático do ERE tem uma intencionalidade na mística, ele precisa ter esse critério místico. Então, a pastoral traz essa intercessão ao ERE a ela trazendo no conteúdo que corresponde o cognitivo, que responde ao rigor acadêmico, aos estudos científicos, a mística, a dimensão do religare, a vivência na fé”. (Maria das Dores, Coordenação de Pastoral do Colégio Santo Agostinho – Unidade de Belo Horizonte)
Sendo assim, pensar a educação a partir da experiência, dos valores promove um desenvolvimento progressivo de sentido e de concretização das ações que acontecem em parceria, resguardando as especificidades do Ensino Religioso como área do conhecimento e a Pastoral com a experiência da mística, como algo que brota do coração e do princípio evangelizador Ambos têm a missão de educar evangelizando, favorecendo a autonomia, a responsabilidade, o protagonismo das crianças.
As ações promovidas pelo Depas são motivadoras para que os educandos vivenciem uma experiência de maior engajamento social, como o voluntariado que manifesta a expressão de um amor genuíno promovido pelo encontro com o outro. Na verdade, esse encontro com outro permite conhecer verdadeiramente quem somos, uma vez que “necessitamos uns dos outros para sermos nós mesmos” Sl125,1,3.
Esta dinâmica do conhecimento de nós mesmos e o quanto somos capazes de contribuir para a construção de uma sociedade mais humanizada está diretamente relacionada a coerência do que falamos e praticamos.
Por esta razão, o amor está na fundação do humano, bem como no seu horizonte. Como nos diz Santo Agostinho “Põe amor nas coisas e as coisas terão sentido. Retira-lhes o amor e se tornarão vazias”. Serm,138,2.
A pedagogia agostiniana nos leva para esta dimensão de educar no amor e por amor, opção esta que vai ao encontro da humanização por meio de seus valores.
Referenciais
ALVES, Rubem. A arte de educar. Disponível em https://institutorubemalves.org.br
ÁVILA, Antônio. Para conhecer a psicologia da religião. Loyola, 2007.
DAIRELL, Juarez. Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1996. p. 77-84.
FERREIRA, Arthur Vianna. Inquietudes: reflexões sobre Santo Agostinho de Hipona.1ªed. Rio de Janeiro: Autografia, 2018.
FONAPER. Parâmetros curriculares nacionais: ensino religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997.
FREIRE, Paulo. Educação e atualidade brasileira. São Paulo: Cortez, 2001. p.117
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 1979b. p. 79
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 148
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
MARTINS, Ângela Maria Gusmão Santos. O sentido da educação que vem da experiência: as ideias de John Dewey. 2007
MATRIZ DE REFERÊNCIA CURRICULAR: Ensino Religioso. Belo Horizonte, Contagem e Nova Lima. 2019. p.128
MORIN, Edgar. Os setes saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2001.
PASSOS, João Décio. Ensino Religioso: construção de uma proposta. São Paulo: Paulinas, 2007.
PINHEIRO, Luiz Antônio. Marco doutrinal: a proposta pedagógica agostiniana. In: SOCIEDADE INTELIGÊNCIA E CORAÇÃO. Marcos Teóricos: princípios norteadores do Projeto Pedagógico agostiniano. Belo Horizonte: Sociedade Inteligência e Coração, 2016.RUBIO, Pedro. Toma e lê! Síntese Agostiniana. São Paulo: Loyola, 1995.

