O potencial religioso da criança

O potencial religioso da criança

A concepção de Sofia Cavalletti (1917-2011) notória biblista, responsável pelo desenvolvimento da Catequese do Bom Pastor (Catechesis of the Good Shepherd – CGS) com Gianna Gobbi (1920-2002), pedagoga montessoriana. A partir do processo Montessoriano, vinculado a um percurso no campo bíblico e litúrgico, Cavalletti e Gobbi organizaram um percurso de educação religiosa presente nos cinco continentes. 

O CGS, um método utilizado em mais de trinta e sete países, dentre os quais o Brasil, onde o modelo chegou m 2001, trazido pela catequista Carmen Tieppo (O SÃO PAULO, 2017). A CGS é conhecida em denominações cristãs como a católica, ortodoxa e episcopal e é a grande contribuição desta autora para o cenário religioso e educativo. 

Para Prudêncio Júnior (2014, p.43), 

Sofia Cavalletti demonstrou ser uma pessoa à frente de seu tempo por meio das narrativas de sua experiência. A observação realizada em mais de 25 anos com crianças em centros catequéticos, paróquias, escolas maternais e primárias e outros lugares preparados para a evangelização das crianças demonstrou formas concretas que têm conduzido os pequenos até hoje ao encontro com o sagrado.

Essa postura de Cavalletti direciona sua vida e o trabalho com crianças que ocorreu a partir de uma solicitação de Adele Costa Gnocchi para ensinar religião em uma escola que utilizava o método de Montessori. 

  1. Proposta Montessoriana como pressuposto 

A criança é o centro do método Montessoriano e o/a professor/a tem o papel de acompanhar o processo de aprendizado. O/a docente guia, aconselha, mas não dita e nem impõe o que vai ser aprendido pela criança (MACHADO, 1986, 21-22).

Além de intelectual, a opção religiosa pelo catolicismo de Montessori orientava seus trabalhos. Isso fez com que se aproximasse de uma pesquisadora que aos trinta anos foi convidada a dar aulas de religião para a escola de Montessori – Professora Sofia Cavalletti.

A proposta de Cavalleti visa a autonomia dos estudantes e tem uma interferência do modelo religioso com a organização de uma proposta denominada Catequese do Bom Pastor (CGS). E o início desse trabalho está relatado no livro “O Potencial Religioso da Criança”. A proposta de uma educação religiosa para crianças de três a doze anos de idade foi resultado de uma pesquisa experimental permanente na vida de Cavalletti, e que se espalhou para diversos ambientes sociais e culturais muito diferentes. 

Cavalletti supõe que uma criança é capaz de ter uma profunda experiência religiosa. “A experiência religiosa é fundamentalmente uma experiência de amor, e o amor é, para o ser humano essencial à vida” (CAVALLETTI, 1985, p. 15). E essa experiência é global para a criança, pois toca todo o ser da criança; ela sente que isso é uma parte natural do que significa ser humano. “Portanto, nos perguntamos se a criança não encontra no fato religioso a satisfação de uma exigência existencial a ponto de influir sobre a formação harmônica de sua personalidade e, se ausente, a ponto de incidir negativamente” (CAVALLETTI, 1985, p. 15).

Pode-se compreender que uma pessoa não está se desenvolvendo completamente como um ser humano a menos que o potencial religioso seja estimulado e crescente. 

Não é, portanto, na procura de uma compensação que a criança se volta para Deus, mas numa profunda exigência de natureza. A criança tem necessidade de um amor global, infinito, tal que nenhum ser humano é capaz de lhe dar. O amor é para a criança mais necessário do que o alimento…No contato com Deus ela experimenta um indefectível amor e, ao mesmo tempo, encontra a alimentação que o seu ser requer e do qual tem necessidade, para desenvolver-se em harmonia. Deus – que é amor – e a criança, que pede o amor mais que o leite materno, se encontram, portanto, em uma correspondência específica de natureza; e a criança, no encontro com Deus, tem prazer pela satisfação de uma exigência profunda de sua pessoa, de uma autêntica exigência da vida (CAVALLETTI, 1985, p. 15).

Na concepção de Cavalletti, essa forma de catequese refunda o conteúdo bíblico, pois foca no uso de parábolas e não em fórmulas e definições. As parábolas são um convite à meditação à medida que conectam a realidade da vida cotidiana com a realidade do Reino de Deus. Pensando na proposta de Jesus ao contar as parábolas, não se explica o seu significado. Ao ser explicada, trair-se-ia a própria natureza da parábola, que é não dar uma definição pronta. 

Cavalletti desencoraja o uso de versos isolados das Escrituras para ilustrar um ponto que impediria o ouvinte de ter uma experiência direta com a Palavra de Deus. Ela defende dar aos ouvintes a passagem completa em si mesma para que possam dialogar com os textos, propondo assim um “encontro vivo”. Assim, encoraja-se a reflexão e não a mera exposição de histórias, ditos e parábolas. Ao encorajar até mesmo as crianças pequenas a refletirem profundamente sobre o significado das passagens bíblicas, percebeu que elas são capazes de trabalhar com os materiais propostos por longos períodos de tempo, até mesmo surpreendendo com suas percepções acerca do Reino de Deus. 

Para Cavalletti (1985, p. 11), é preciso ir além de instruir as crianças a fazerem gestos, a dizerem palavras, mas sim levá-las a fazerem a uma real experiência da relação com Deus, consigo, com os outros e com a sociedade (1985, p. 11). Esse é o princípio da evangelização para Cavalletti, que não considera a criança como receptora passiva de verdades ensinadas pelos adultos. Assim, a partir da proposta de Cavalletti entende-se a criança como protagonista no processo educativo-evangelizador. Ainda para a autora, “a criança é capaz de ver o invisível, quase como se fosse mais tangível e real do que a realidade imediata que lhe é apresentada. Ela quase que transcende a natureza física quando é favorecido a elas um itinerário de encontro com Deus” (CAVALLETTI, 1985, p. 36).

  1. CGS – A catequese do bom pastor 

A CGS usa o pacto da palavra bíblica para descrever a conexão ou relacionamento com Deus, uns com os outros e com a comunidade de fé e se dá em três níveis: Nível I, para crianças de três a seis anos; Nível II, para crianças de seis a nove anos; Nível III, para crianças de nove a doze anos. 

No Nível I é apresentada a pessoa de Jesus e tem como tema unificador a parábola do Bom Pastor, a fim de ajudar cada criança a se apaixonar pelo Bom Pastor, que é uma resposta individual. Cavalletti propõe o uso das parábolas como as principais histórias do primeiro nível, porque esse foi o método que Jesus usou para introduzir o mistério do Reino de Deus. Quando ela e Gobbi observaram as crianças em seu átrio, perceberam que as crianças eram mais frequentemente atraídas para a parábola do Bom Pastor. Algumas crianças voltavam repetidamente para refletir sobre essa história ou para fazer o mesmo “trabalho” repetidas vezes. A percepção popular pressupõe que as crianças não conseguem captar tais abstrações. Para Cavalletti, o “significado” da parábola não estaria nos objetos da narrativa, pois pela sua pesquisa, percebeu que as parábolas permitem que as crianças respondam com admiração e se perguntem sobre o que Deus poderia estar revelando através desses textos. Essa descoberta é contra intuitiva, na medida em que a teoria cognitiva sugere que as crianças pequenas deveriam primeira ser apresentadas a narrativas concretas. 

As narrativas do nascimento e da vida de Jesus são apresentadas para ajudar as crianças a perceberem que Jesus é uma pessoa real que viveu na Terra em um lugar e tempo reais. Para ajudar nessa compreensão, essas crianças pequenas fazem um trabalho envolvente com a geografia de Israel e Jerusalém nos dias de Jesus. Além disso, como nas escolas montessorianas, no Nível I, existe uma área para atividades da vida cotidiana em que as crianças pequenas aprendem a ser cuidadosas ao trabalhar com porcelana e cristal, ter experiência em despejar água e limpar a si mesma. 

O Nível II concentra-se na Videira Verdadeira e nos Ramos, para ajudá-las a entender sua conexão uns com os outros “na Videira”. Este nível introduz a História da Redenção, permitindo que as crianças comecem a esclarecer a visão de Deus para o seu povo, bem como iniciar a preparação para a primeira comunhão. O nível II também inclui o trabalho com o cânon e os gêneros das Escrituras.

O Nível III, que se dá após a criança receber a Eucaristia, é o momento de compreender melhor o Antigo Testamento e a história da salvação, visto que a criança já possui uma noção de tempo e consegue se inserir na história. O nível III investiga o trabalho elementar em hebraico. A mensagem cristã é solidamente baseada na história, e assim deve ser a catequese, segundo Cavalletti.

Nesse sentido, o treinamento cuidadoso de catequistas é fundamental para a eficácia da CGS. Este treinamento é prolongado e complexo, assim como é para o Método Montessori — pelo menos um ano cumulativamente para cada nível. Segundo Prudêncio Júnior (2014, p. 42), no processo da CGS, o/a catequista “procura conhecer a fé pelos olhos da criança. Precisamos saber como é a criança para compreender o que há nela que é tão importante para o Reino.” 

O/A catequista é o intermediário inicial nesta relação através das apresentações e diálogos durante o tempo de oração, sugerindo perguntas meditativas que vêm do texto bíblico para as crianças compreenderem e guardarem em seus corações. 

A postura crítica de Cavalletti representa um desafio para os educadores cristãos. As perguntas que moveram Cavalletti ainda são pertinentes para o entendimento do cenário educativo e religioso. Quem é a criança? Quais as suas fases de desenvolvimento e as características que precisam ser consideradas em seu processo de aprendizagem e de evangelização? Como se relacionam com o sagrado?

Referências

CAVALLETTI, Sofia. O Potencial religioso da criança. Loyola. São Paulo-SP. 1985.

O SÃO PAULO. (Jornal on line da Arquidiocese de São Paulo). Catequistas: testemunhas do encontro com Jesus Cristo. De 29 de agosto de 2017. Disponível em http://jornalosp.arquisp.org.br/taxonomy/term/498 Acesso em junho/2018.

MACHADO, Izaltina de Lourdes. Educação Montessori: de um homem novo para um mundo novo. 3ª. edç. São Paulo: Pioneira, 1986.PRUDÊNCIO JÚNIOR, Gilson. A catequese do Bom Pastor. A evangelização das crianças na perspectiva de Sofia Cavalletti. In: Sou catequista. Revista digital. Edição 5 / Ano 2 / Maio de 2014. Disponível em http://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2014/11/edicao05.pdf. Acesso em junho/2018.

Autoria:

Edile Maria Fracaro Rodrigues