Pastoral e sinais dos tempos: apelos do Espírito às escolas católicas

Pastoral e sinais dos tempos: apelos do Espírito às escolas católicas

Pastoral e sinais dos tempos: apelos do Espírito às escolas católicas

Uma das palavras mais fortes de Jesus para nós está no Evangelho de Lucas (12, 56) quando repreende o povo de seu tempo por não saberem interpretar o tempo presente: “Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?”. A advertência não é à toa e serve para todos: para a multidão, que perde seu senso crítico diante de propostas vazias e estéreis de líderes religiosos e políticos; para as lideranças religiosas que guiam multidões  sem sensibilidade ao que vivem no dia a dia. A pastoral escolar nas escolas católicas deve estar atenta aos sinais dos tempos, ouvindo, interpretando e respondendo com coerência aos desafios e apelos que surgem da realidade. Não é mais possível ignorar as contradições que marcam nosso mundo e fingir que vivemos em uma cristandade plena, como se os problemas sociais, políticos e culturais não tivessem impacto nas comunidades escolares. Ignorar essas questões é viver em uma ilusão e propor uma pastoral que cuide apenas da dimensão religiosa da pessoa humana, é desconsiderar o clamor profundo da humanidade por transformação, justiça e dignidade.

O mundo atual está repleto de desafios para as escolas católicas. As tensões sociais, as polarizações ideológicas e as pressões do mercado exigem uma pastoral que não apenas “adapte” sua mensagem, mas que esteja profundamente enraizada no evangelho e em uma visão cristã da realidade. A pastoral precisa ser sensível às transformações sociais, reconhecendo as complexidades e contradições do tempo presente, ao mesmo tempo em que oferece uma resposta fundamentada na verdade revelada por Cristo.

Ouvir os sinais dos tempos implica uma escuta atenta e amorosa dos gritos profundos da humanidade, aqueles que surgem da dor, da angústia, da busca por sentido e dignidade. A pastoral escolar deve olhar para o mundo com ternura e compaixão, sem medo de se envolver com as questões urgentes do presente. Isso é o que o Papa Francisco chama de “cheiro de ovelha” ou “cheiro de carne”. O Evangelho é a resposta que a humanidade precisa, e cabe à escola católica ser um canal vivo dessa mensagem de salvação por meio de uma pastoralidade ativa e proativa.

É nesse contexto que se faz necessário a reflexão sobre os apelos do Espírito Santo, que nos convidam a viver uma pastoral mais coerente com as necessidades do tempo presente. Nos últimos anos, a ANEC ouviu as demandas e partilhas dos grupos de trabalho pastoral (GT Pastoral) e percebeu que os desafios não são apenas administrativos ou institucionais, mas também missionários. O Espírito Santo nos impulsiona a uma pastoral que seja sensível e responsiva às realidades que os alunos, pais e educadores enfrentam. 

Apelo à afirmação consciente da identidade confessional

Por exemplo, sentimos que a identidade confessional das escolas católicas também precisa ser reafirmada, mas de uma maneira que não se limite a aparências ou formalidades. Ela deve ser uma expressão profunda da fé, que se vê nos símbolos religiosos ou ritos, mas também se manifesta na maneira como a comunidade escolar vive a sua missão pedagógica e a sua relação com Deus, com os outros e com o mundo. Em um contexto de secularismo e relativismo, resgatar uma identidade autêntica se torna fundamental, mas essa identidade precisa ser dinâmica, aberta ao diálogo e à transformação que o Espírito Santo propõe para cada época. Ressignificar a identidade católica não significa retroceder para modelos ultrapassados como querem alguns, mas assumir com coragem e fé o compromisso com o Cristo vivo, que é atual, dinâmico e profundamente transformador.

Um estudo conduzido pela Universidade de Louvain, na Bélgica, analisou as tendências da identidade confessional nas escolas e descobriu que entre o “verniz confessional” e a “escola reconfessionalizada” existe um caminho do meio muito frutuoso que é o da recontextualização, ou seja, a reproposição da identidade e pastoralidade a partir do contexto, das territorialidades dos estudantes e suas famílias. Nesse sentido é que dizemos que a pastoral escolar busca promover, para além da instrução religiosa, um processo profundo de humanização que se reflete em todas as dimensões da vida escolar. Reduzir a evangelização à transmissão de costumes religiosos, à catequese ou ao ensino da doutrina limita a experiência formativa do estudante. Nesse sentido, a missão da escola católica vai muito além de formar o conhecimento. Ela forma a fé, o caráter e a convivência fraterna entre todos, independentemente de sua tradição religiosa. 

Apelo à educação da fé para uma maturidade cristã

Por isso é fundamental que a evangelização escolar seja mais do que uma resposta emocional ou uma apologia defensiva da fé. Ela precisa ser amadurecida e profunda, capaz de oferecer aos jovens a clareza para enfrentar as complexidades do mundo contemporâneo com discernimento e esperança. A fé deve ser apresentada não como um refúgio passivo, mas como uma força transformadora, que capacita os alunos a viverem com autenticidade, a tomarem decisões éticas e a se comprometerem com o bem comum. A educação na fé, portanto, precisa ser integrada ao cotidiano escolar, permeando não apenas as práticas religiosas, mas também o currículo, as relações interpessoais e as escolhas sociais dos alunos. O Papa Francisco, em sua exortação Christus Vivit, ressalta a importância de uma fé madura, que educa para o autoconhecimento e para a responsabilidade social, tornando os jovens agentes de transformação na sociedade.

Apelo à profissionalização da pastoralidade

Além disso, outro apelo importante é o de oferecer um serviço pastoral de qualidade, com profissionalização e intencionalidade. A pastoral não deve ser vista como uma atividade acessória ou secundária na vida escolar, mas como um componente essencial e integrado ao processo educativo. A resistência à profissionalização da pastoral, em nome de um ideal de espontaneidade ou entusiasmo, muitas vezes subestima a complexidade da missão evangelizadora nas escolas e universidades. Evangelizar em ambientes educativos exige competências específicas, uma abordagem reflexiva e estratégica, e a capacidade de integrar a fé ao currículo de maneira coesa. A pastoral escolar, assim, precisa ser organizada de maneira que sustente a identidade católica da instituição e a sua missão de evangelizar, oferecendo aos alunos e à comunidade escolar uma experiência significativa de fé e compromisso.

Nesse sentido, a pastoral deve ser vista como um serviço essencial para a formação integral dos estudantes enquanto uma ação que se articula com os outros componentes educacionais para construir um ambiente verdadeiramente cristão e transformador. A profissionalização da pastoral deve garantir que ela seja realizada com intencionalidade e qualidade, respeitando as especificidades do contexto educativo e a missão evangelizadora da escola católica. Dessa forma, a pastoral escolar se torna um meio eficaz de educar os jovens para a fé, para a vida ética e para o compromisso com a sociedade, realizando a missão fundamental de evangelizar de forma integral e profunda.

A pastoral escolar, ao assumir seu papel no contexto educacional, precisa ser vista como uma ação estratégica e integrada ao projeto pedagógico da instituição. Quando negligenciada ou tratada como um apêndice da estrutura escolar, perde-se sua força transformadora, limitando seu impacto na vida dos estudantes e da comunidade. Para que a pastoral alcance sua grandeza e potencial transformador, é imprescindível que a gestão escolar a considere como uma área estratégica, com investimentos adequados, recursos humanos qualificados e tempo dedicado. A pastoral precisa ser bem estruturada para não se tornar uma atividade fragmentada, mas um elemento que permeia todos os aspectos da vida escolar. Quando isso ocorre, ela fortalece a identidade católica da escola, fideliza as famílias e oferece um diferencial no mercado educacional. Além disso, contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes, alinhando as dimensões humana, espiritual e social.

Apelo à inovação pastoral

Por outro lado, a pastoral também é desafiada a se renovar e a inovar. O distanciamento entre as gerações e o crescente indiferentismo religioso exigem uma revisão dos métodos de evangelização, que muitas vezes se encontram desatualizados e desconectados das realidades vividas pelos jovens. Evangelizar hoje é mais do que transmitir doutrinas ou aplicar fórmulas tradicionais; é ouvir as inquietações da juventude, entender suas angústias e dialogar com suas realidades. A pastoral precisa ser cativante e significativa, sem perder a profundidade do conteúdo cristão. Para isso, a mensagem evangelizadora deve ser autêntica, ressoando com a vida concreta dos estudantes, e não apenas adaptada a estéticas superficiais ou emocionais que, muitas vezes, soam forçadas e vazias.

Novas Linhas de Ação Pastoral da ANEC: uma resposta aos apelos

Diante dessa escuta atenta aos sinais dos tempos, a ANEC decidiu atualizar suas Linhas de Ação Pastoral. A primeira edição, publicada em 2019, buscou responder aos desafios daquele momento, oferecendo diretrizes para uma pastoral escolar que se alicerçasse nos valores cristãos e se conectasse às realidades vividas nas escolas católicas. Desde então, no entanto, o contexto mudou substancialmente. Em nível eclesial, educacional e cultural, vivenciamos mudanças significativas, que exigem um novo olhar e uma nova abordagem para a ação pastoral.

A atualização das Linhas de Ação Pastoral surge, portanto, como uma resposta aos desafios contemporâneos que impactam a vivência escolar e a missão das instituições católicas. Esta nova edição é fruto de um processo de escuta e discernimento, que envolveu não apenas especialistas e líderes pastorais, mas também as vozes das comunidades escolares, suas necessidades, dúvidas e anseios. Cada elemento incluído nas novas diretrizes foi pensado para fortalecer a identidade católica das escolas, de forma autêntica e relevante, e para capacitar a pastoral a enfrentar com confiança e flexibilidade as complexidades da vida moderna.

Esse processo de atualização reconhece, sobretudo, a importância de formar alunos que sejam, simultaneamente, cidadãos conscientes e discípulos comprometidos. A pastoral escolar não se limita a uma experiência religiosa restrita à sala de aula ou aos momentos de oração, mas abrange toda a dinâmica da escola, influenciando a cultura escolar, a relação entre os membros da comunidade e a postura ética diante dos desafios sociais. As novas Linhas de Ação Pastoral propõem que as escolas católicas sejam espaços de acolhimento, diálogo e crescimento integral, onde alunos de diferentes realidades e crenças possam compartilhar experiências e fortalecer valores comuns.

Com essa perspectiva, a ANEC reitera o papel transformador da pastoral como um elo entre a fé e a vida cotidiana, integrando o conhecimento acadêmico com a formação espiritual e humana. O compromisso da pastoral atualizada é com uma evangelização que seja ativa, criativa e inclusiva, capaz de responder aos desafios atuais com discernimento e coragem, promovendo a construção de uma sociedade mais justa e solidária. As escolas católicas, por meio dessa ação pastoral renovada, têm a missão de ser luz e fermento, testemunhando os valores do Evangelho de maneira concreta e acessível a todos.

Autoria:

Gregory Rial