Introdução
O voluntariado tem como foco proporcionar atividades solidárias, visando atender demandas emergentes da sociedade. O ato de ajudar o outro é um dos principais objetivos desse labor. E, essa prática permite ao indivíduo abrir um caminho para a sensação de pertencimento.
Nesse sentido, pode-se elucidar que trazer esse estudo para a sociedade possibilita um maior entendimento sobre esta sensação e sua relação com a saúde mental. Assim, essa pesquisa colabora para a formação de uma comunidade mais empática, o qual se evidencia o trabalho voluntário como atividade que proporciona o senso de pertencimento.
É importante destacar que compreender a sensação de pertencimento a partir do trabalho voluntário é de suma relevância, uma vez que pode trazer mais estudos na área das ciências humanas. Além disso, é fundamental para a construção de mais intervenções e políticas públicas e privadas que incentivem o voluntariado e salientam os seus benefícios, principalmente para aqueles que são voluntários.
Diante desse viés, pode-se afirmar que o propósito deste artigo é refletir sobre a sensação de pertencimento e os benefícios da prática do voluntariado.
Trabalho voluntário e sensação de pertencimento
O trabalho voluntário está atrelado ao ato de ajudar o outro, ou ainda, de proporcionar a demais pessoas algo que agregue na vida de cada um. Tal trabalho, não é tido como um labor remunerado e, portanto, não apresenta algum fim lucrativo. Para Crippa e Feijó (2014), o voluntariado está atrelado à solidariedade, na qual é vista como uma característica que impulsiona as pessoas a participarem de ações sociais ou projetos. Nesse sentido, essa característica pode ser tratada como um mecanismo reforçador de coletividade, união, interação social e afetividade. Conforme (SELLI E JUNGES, 2008), esse tipo de trabalho pode ser lido como uma ferramenta chave para a mudança de paradigmas na sociedade, fomentando a cidadania. Além disso, é fundamental explicitar os benefícios desse labor para a satisfação pessoal e sensação de pertencimento.
Baumeister e Leary (1995) destaca a sensação de pertencimento como a necessidade de alguém pertencer, ser aceito, fazer parte de algum grupo, um pensamento ou uma comunidade. Desse modo, essa sensação possibilita o fortalecimento do laço social ou a conexão com o outro.
Nessa mesma linha de pensamento, pode-se elucidar o entendimento de Abraham Harold Maslow, que foi um psicólogo norte-americano, conhecido como o “pai da psicologia humanista”, na qual trabalhou conceitos importantes para a área da psicologia. Um desses conceitos foi a teoria sobre o senso de pertencimento ou a necessidade de pertencer. Segundo ele, na sua obra “A teoria da motivação humana”, publicada em 1943 na revista Psychological Review, os humanos não conseguem se desenvolver sozinhos, necessitando de interações sociais. Ademais, Maslow em sua construção da “pirâmide de Maslow”, que trabalha com as necessidades motivacionais de um ser humano, destaca que o senso de pertencer é uma necessidade básica, assim como a fisiológica, a segurança, a social e de estima. Nesse sentido, a sensação de pertencimento é algo que necessita ser experienciado para que o ser humano consiga atingir níveis de satisfação, reconhecimento, status e autoestima. Diante desse viés, pode-se destacar que a sensação de pertencimento é uma necessidade básica atingível, fundamental para o desenvolvimento humano, capaz de construir e aprofundar as relações sociais e possibilitar outras sensações importantes para esse desenvolvimento.
Para o Papa Francisco o voluntariado baseia-se numa atitude de solidariedade profundamente enraizada numa “grande oportunidade de expressar o nosso ser irmãos” (FRATELLI TUTTI, 77). Trata-se de um serviço sem retribuição, sem a busca necessária de reconhecimento, mas um investimento do próprio tempo para desenvolver, isto é, tornar fecunda a vida dos outros. Porém, para o pontífice quem não vive a gratuidade fraterna, transforma a sua existência num comércio cheio de ansiedade: está sempre medindo aquilo que dá e o que recebe em troca. Portanto, para todos os que abraçam o voluntariado com dedicação, esse serviço irá gerar “grande satisfação diante de seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever” (FRATELLI TUTTI, 79). Ou seja, uma verdadeira sensação de pertencimento.
São Francisco de Assis estendeu o conceito de fraternidade não apenas aos seres humanos – e em particular aos abandonados, aos doentes, aos descartados, aos últimos, indo além das distâncias de origem, nacionalidade, cor ou religião – mas também ao sol, ao mar e ao vento. Nutria uma profunda veneração e respeito por todo ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas, por exemplo, tinham o seu lugar (pertencimento), pois ao seu modo elas louvavam o Criador. O olhar, portanto, é global, universal (MORO, 2004). Nesse sentido, quando abordamos São Francisco de Assis, estamos falando da ideia de que toda a criação é convidada na gratuidade do servir louvar e buscar seu lugar na existência e encontrando tal lugar, convidada a criar um vínculo e senso de pertencimento na sociedade e no mundo no qual esse ente está inserido.
Porém, é necessário destacar que estar em grupo, como a de um trabalho voluntário, não garante que todas as pessoas sintam a sensação de pertencimento, por isso, como anteriormente mencionado, o projeto ou ação social pode possibilitar ou não essa sensação, uma vez que, a necessidade/sensação de pertencimento é diferente para cada pessoa, assim, alguns sujeitos investem ou se motivam ainda mais quando estão inseridos em algum grupo, enquanto outros preferem não se envolver ou experienciar manter relações sociais no contexto de grupo em que está fazendo parte (LEARY E KELLY, 2009).
Discussão
Considerando, portanto, que as categorias da Pirâmide de Maslow são organizadas partir de um conjunto de prioridades hierarquizadas, podemos verificar que nós, quanto indivíduos humanos, sempre sentiremos o desejo de satisfazer as necessidades do nível posterior após a satisfação do nível anterior. Porém, nem sempre será fácil alcançar plenamente o grau de satisfação social, pois, a partir desse nível, as necessidades deixam de ser necessidades fisiológicas e passam a ser necessidades psicológicas, que tangem as sensações de pertencimento, aceitação e afetividade.
Ainda que haja muito esforço pessoal para alcançar o topo da Pirâmide de Maslow, que trata justamente da autorrealização que abrange a realização pessoal, a criatividade, a moralidade, espontaneidade, resolução de problemas, ausência de preconceito e a aceitação dos fatos, será difícil encontrar um indivíduo que atenda a todos esses critérios. Para Maslow (1954) a satisfação das necessidades, evidentemente pode não ser absoluta ou ocorrer abruptamente: “o cidadão médio é satisfeito talvez 85% em necessidades fisiológicas, 70% em necessidade de segurança, 50% em necessidade de afiliação, 40% em necessidade de estima e 10% em necessidade de autorrealização” (p. 54). Portanto, a satisfação de uma necessidade se dá de forma gradual dando margem ao aparecimento de outras imediatamente superiores.
Uma visão dura da realidade social atual nos mostra que essas necessidades, por muitas vezes possuem prazo de validade motivadas apenas por simples interesses pessoais. O conceito de amizade é confundido por ganhos pessoais e o sentimento de pertença e aceitação são considerados mecanismos para obtenção de poder e benefício próprio, e não uma forma de alcançar o desenvolvimento humano. Como resultado dessas consequências é verificado um aumento das doenças mentais ligadas a escassez emocional, como a depressão e ansiedade, fruto de uma busca desenfreada pela conquista pessoal e pela supervalorização dos que aparentam possuir o ideal de sucesso emocional.
Conclusão
Nota-se que a sensação de pertencimento difere de pessoa para pessoa. E, é algo bem mais complexo de ser atingido. Mesmo que haja a necessidade de se pertencer, ser aceito e acolhido em algo e, esse fator ter importância para desenvolvimento humano, obter essa sensação é algo que exige fatores internos, de escolha pessoal e de caráter subjetivo. Ou seja, o indivíduo pode não obter a sensação de pertencimento, pois realiza o trabalho voluntário com interesses que não estão conectados o verdadeiro propósito da ação, conforme enfatizam os ensinamentos do Papa Francisco e São Francisco de Assis.
Dessa maneira, pode-se afirmar que o trabalho voluntário pode gerar a sensação de pertencimento aos indivíduos, entretanto cabe salientar que a necessidade/sensação de pertencimento é diferente para cada sujeito. Isso possibilita compreender que para alguns, o voluntariado trará essa sensação e permitirá que a pessoa fortaleça esse sentimento não apenas com as ações e projetos sociais propostos, mas também com o grupo voluntário em que ela participa. Todavia, outras pessoas podem não investir nessa interação social e nas oportunidades e benefícios que essas atividades proporcionam.
Referências
BAUMEISTER, R. F., & LEARY, M. R. The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497-529. doi: 10.1037/0033-2909.117.3.49, 1995.
CRIPPA, Anelise; ISIDORO, Tábata; FEIJÓ, Anamaria Gonçalves dos Santos. Voluntariado e saúde. Revista da AMRIGS, v. 58, n. 3, p. 247-251, 2014.
LEARY, M., R., & KELLY, K. Handbook of Individual differences in social behavior. Em M. R. Leary & R. H. Hoyle, pp. 400-409, 2009.
MASLOW, Abraham H. Motivation and personality. Nova York: Harper e Row, 1954
SELLI, Lucilda; GARRAFA, Volnei; JUNGES, José Roque. Beneficiários do trabalho voluntário: uma leitura a partir da bioética. Revista de Saúde Pública, v. 42, p. 1085-1089, 2008.
Sergio M. DAL MORO. Fontes Franciscanas e Clarianas (FFC). Tradução Celso Márcio Teixeira… (et al.) Petrópolis: Vozes FFB, 2004.
PAPA FRANCISCO. Fratelli Tutti: Sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2020

