Há uma célebre passagem mística, atribuída a Mestre Eckhart, que diz: “O olho com que eu vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê. Entre Deus e eu existe um olho, uma força visual, um reconhecer e um amar.” Essa imagem rompe a ideia de um Deus distante, objeto de nossa razão, muitas vezes, fria. Deus não está “lá fora” como algo a ser alcançado por provas lógicas. Talvez tenha sido essa lógica usada por Filipe quando disse: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta” (Jo 14,8). Partindo desta indagação, podemos perceber um ponto de partida por meio da resposta de Jesus, que permite a ele (Filipe) uma referência interior, uma força visual que nos permite perceber o mundo e a nós mesmos de modo novo.
Esse movimento de ver, reconhecer e testemunhar constitui uma chave hermenêutica relevante para pensar a educação, especialmente quando compreendida como experiência formativa e não apenas como instrução técnica. A exigência desse novo modo de ver encontra ressonância na poética de Manoel de Barros, que traduz, em linguagem simbólica, uma inversão do olhar habitual: “O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça.” O poeta propõe um deslocamento do ponto de vista, um olhar “pelo avesso” da realidade. Não se trata de negar o real, mas de reinterpretá-lo a partir de uma lógica não utilitarista, sensível ao detalhe, ao excesso de sentido e àquilo que escapa às categorias instrumentais.
Aplicada ao campo educativo, essa metáfora sugere a necessidade de uma pedagogia que não se limite à repetição de expectativas prévias, mas que favoreça a emergência do novo. A educação, nessa perspectiva, não tem a autonomia apenas como objetivo final, mas como princípio orientador das práticas pedagógicas. Forma-se um sujeito capaz de habitar a própria existência, de constituir-se como agente consciente e responsável por sua história.
O exercício de “ver além” pressupõe um encontro do sujeito consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com uma dimensão de sentido que o transcende. Essa disposição interior constitui a condição de possibilidade para a redescoberta de duas instâncias fundamentais: a dignidade inerente ao outro e o sentido transcendente da própria existência. A metáfora de Michelangelo, ao contemplar o bloco de mármore, ilumina de modo exemplar essa compreensão educativa. O escultor não via apenas uma pedra bruta, mas a forma já presente em potência; sua tarefa consistia em libertá-la.
Analogamente, o educador é chamado a não reduzir o educando a rótulos, diagnósticos ou expectativas limitantes, mas a reconhecer e favorecer o desenvolvimento das potencialidades que nele habitam. Educar é instaurar um diálogo hermenêutico entre o ser atual e o ser possível, entre a factualidade e a promessa.
Esse processo exige tempo, atenção e acompanhamento. A educação torna-se, assim, mediação entre aquilo que a pessoa é e aquilo que pode vir a ser, por meio do diálogo, do desafio intelectual e da confiança na capacidade de crescimento do sujeito.
Pascal já nos lembrava: “O coração tem razões que a própria razão não conhece.” Não se trata de negar a inteligência, mas de reconhecer que a experiência profunda de Deus não se reduz a conceitos. É encontro, afeto, direção. E é aí que a educação, tantas vezes reduzida a técnicas e metas mensuráveis, pode reencontrar sua alma. Mas como Deus entra em nossa vida? Como experimentá-lo, se vivemos tempos de incerteza e insegurança globais? A resposta não vem de um espetáculo celestial, mas da escuta e do acolhimento de uma palavra que nos é dirigida: “Não fique perturbado o coração de vocês” (Jo 14,1).
Nesse ponto, lembro-me de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. Severino é o homem comum, um Adão qualquer, provado pela dureza da vida. Ele caminha em busca de uma solução que não encontra. O sonho, o esforço, o afeto que depositamos no mundo nem sempre são retribuídos. Severino somos nós, nossos alunos, nossos professores, nossas famílias. Todos, em alguma medida, peregrinos de uma demanda que parece não ter fim.
Aqui se encontra um ponto fundamental para a educação. Se a escola se limita a transmitir conteúdos e treinar habilidades, ela forma executores eficientes, mas não humaniza. Sem diálogo, não há encontro. Sem encontro, não há reconhecimento do outro como sujeito. Sem reconhecimento, não há experiência de Deus, pois Deus se revela na relação.
Educar, então, é também ensinar a não se turbar. É ajudar o outro a encontrar, dentro de si, o olho com que Deus o vê. É criar espaços onde o coração possa ter suas razões sem ser sufocado pela pressa e pelo desempenho. É dizer ao Severino que há vida para além da morte, que a travessia tem sentido, ainda que o caminho seja árido. Não se trata de poder mágico, mas de uma confiança ativa. O mesmo olho que vê Deus torna-se força visual para agir no mundo. E que maior obra, hoje, do que educar para a humanização, ensinando a escutar, a acolher, a não desistir? Que possamos, educadores e educandos, aprendizes da vida, deixar que nosso coração não se turbe. Pois Deus não está lá fora. Ele é o ponto de referência a partir do qual toda a educação se torna, enfim, encontro.
Referências
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a segunda infância. São Paulo: Planeta, 2006.
ECKHART, Mestre. Sermões alemães: sermões 1 a 60. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2005.



