Introdução
O que significa educar para o cuidado, a solidariedade e a participação cidadã? A experiência de uma escola católica, em Porto Alegre, durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, evidencia uma forma de voluntariado que relaciona espiritualidade cristã, diaconia e cidadania participativa.
Neste sentido, o termo espiritualidade é alicerçado no entendimento de que esta não acontece de forma separada da vida prática e da história das pessoas, como se fosse vivenciada apenas em momentos específicos do cotidiano, tais como durante uma oração, retiros, cultos ou celebrações. Este entendimento é necessário porque atualmente parece haver uma valorização de espiritualidades católicas que consideram uma visão dualista, separando ou tendo como contrárias dimensões como fé e vida, espírito e corpo, oração e ação.
1. Fé que se faz vida
Diante da enchente, um pequeno grupo de pais e mães procurou o Colégio para saber como poderia ajudar. Inicialmente, foram organizadas doações de roupas. Em poucos dias, a mobilização cresceu: chegaram alimentos, colchões, produtos de limpeza e itens de higiene, enviados também por instituições de diferentes regiões do país. O Colégio tornou-se espaço de organização e distribuição de doações, e uma rede de voluntariado foi se constituindo. Quando o período mais crítico passou, a solidariedade não terminou. O grupo decidiu manter a mobilização e um espaço da escola passou a acolher doações, campanhas e atendimentos. Atualmente, organiza ações para arrecadar donativos e recursos destinados a necessidades de diferentes comunidades e instituições.
Talvez aqui surja uma pergunta: o que este exemplo tem a ver com espiritualidade? Na tradição cristã, a espiritualidade diz respeito à vida inteira. O Deus revelado em Jesus Cristo não permanece distante da história humana. Jesus reza, mas também acolhe, cura, partilha o pão e se aproxima de quem sofre. A fé, portanto, não se reduz a uma experiência interior, mas se traduz em relações, escolhas e ações.
O autor Ildo Perondi, ao abordar o tema da espiritualidade a partir de uma perspectiva cristã na pós-modernidade, inicia a sua reflexão relembrando a pergunta do povo de Deus durante o exílio da Babilônia, à beira dos rios: “Como podemos cantar um canto ao Senhor em terra estranha?”¹ Transportando para a nossa experiência de voluntariado, podemos perguntar: como perceber sinais de espiritualidade na terra estranha de uma catástrofe ambiental que coloca à prova a esperança e a resiliência de inúmeras pessoas?
2. Diaconia: servir é parte da identidade cristã
Para a pessoa cristã, servir não é atividade secundária, mas expressão da própria identidade da sua comunidade. O serviço cristão nasce do encontro com Jesus e busca tornar concreta a dignidade de cada pessoa. Ajudar alguém em uma emergência é importante, mas a experiência pode suscitar perguntas maiores: por que determinadas pessoas são mais atingidas? Quais direitos não foram garantidos? O que precisa mudar para que a solidariedade não seja necessária apenas depois da tragédia?
O voluntariado supera uma lógica meramente assistencialista quando promove encontro, escuta, corresponsabilidade e participação. Diante de uma situação concreta, da necessidade específica de ajuda e solidariedade que algumas pessoas enfrentavam, outras se colocaram a serviço, fazendo desabrochar, na sua forma mais genuína, a diaconia. Soares, em um estudo sobre a diaconia, mantém que ela é sempre necessariamente profética e analisa o que isso significa para as comunidades cristãs em sua presença solidária junto ao povo oprimido.
Em geral, quando falamos de diaconia ou serviço, queremos referir-nos ao ministério da Igreja relativo às necessidades humanas materiais, promocionais, de assistência ou de solidariedade. A diaconia seria o serviço da Igreja no campo sócio-político-cultural. Hoje, particularmente, esse ministério poderia resumir-se em três palavras: assistência social, solidariedade, ações de transformação.²
3. Do voluntariado à cidadania participativa
Cidadania participativa significa ir além da condição de espectador. Significa reconhecer-se como sujeito de direitos e responsabilidades, capaz de participar da construção da realidade. Em situações de emergência, muitas pessoas se reconhecem como parte da história e percebem que podem agir. Foi isso que aconteceu com o grupo de voluntariado: tornou-se experiência de pertencimento.
O ser humano é constituído de relações: consigo mesmo, com a pessoa próxima e com Deus. E é através das diferentes formas de relações que constrói a sua identidade. Utilizando um termo teológico, é possível dizer que as relações propõem comunhão, exigindo a responsabilidade coletiva do cuidado.
4. Cuidar da Casa Comum
O exercício de diaconia em um momento de desastre ambiental relacionou ecologia e espiritualidade. Neste sentido, Silveira e Silveira afirmam que: “a ecoespiritualidade traz uma sensibilidade ambiental que aponta para o horizonte holístico da relação entre humanos e não humanos”.³
Quando uma catástrofe climática destrói casas, interrompe trajetórias escolares, afeta o trabalho e desloca famílias, a questão ambiental torna-se imediatamente uma questão de dignidade humana. É nesse horizonte que podemos falar de ecoespiritualidade. Ela ajuda a nomear uma consciência: somos parte de uma criação da qual não somos donos absolutos.
A tradição cristã reconhece o mundo como criação e dom de Deus. O cuidado da Casa Comum, portanto, não é uma pauta externa à fé, mas está relacionado ao cuidado com a vida. Na Laudato Si’, o Papa Francisco⁴ insiste que tudo está interligado; que o cuidado ambiental e o cuidado social não podem ser separados.
Concluindo: uma espiritualidade que se deixa tocar pela realidade
O voluntariado revelou uma espiritualidade que não foge da realidade, mas se deixa tocar por ela; revelou uma diaconia que não se limita à assistência, mas pode despertar consciência e compromisso; e revelou também uma cidadania que nasce do pertencimento, da relação e da responsabilidade compartilhada.
Se desejamos educar para uma sociedade mais humana, precisamos oferecer oportunidades para que nossas comunidades educativas experimentem fraternidade, responsabilidade e cuidado. Essa tarefa encontra sua inspiração no próprio Jesus, que se aproxima, escuta, acolhe e serve. A solidariedade deixa, então, de ser apenas uma ação eventual e passa a ser um modo de estar no mundo.
Talvez seja essa uma das vocações da escola católica hoje: ser lugar onde fé e vida se encontram; onde a oração conduz ao serviço; onde o serviço gera comunhão; onde a comunhão desperta cidadania; e onde a cidadania se compromete com a dignidade humana e o cuidado da criação. Quando isso acontece, o voluntariado deixa de ser apenas uma resposta diante da emergência e se torna experiência de formação, (eco)espiritualidade e transformação.
Notas
- Salmo 137, 1.
- SOARES, Sebastião Armando Gameleira. Diaconia e profecia. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 39, n. 3, p. 207–230, 1999.
- SILVEIRA, Emerson José Sena; SILVEIRA, João Paulo. Ecoespiritualidade: religião e a nova gramática espaço-temporal. REVER: Revista de Estudos da Religião, São Paulo, v. 19, n. 3, p. 79, set./dez. 2019.
- FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
Referências
FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
PERONDI, Ildo. Espiritualidade cristã na pós-modernidade. Cadernos de Teologia Pública, São Leopoldo: EST, ano V, n. 41, 2008.
SILVEIRA, Emerson José Sena; SILVEIRA, João Paulo. Ecoespiritualidade: religião e a nova gramática espaço-temporal. REVER: Revista de Estudos da Religião, São Paulo, v. 19, n. 3, p. 79, set./dez. 2019.
SOARES, Sebastião Armando Gameleira. Diaconia e profecia. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 39, n. 3, p. 207–230, 1999.



