“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A Campanha da Fraternidade nos apresenta um Deus que escolheu se fazer próximo, que habita a história humana e caminha ao lado do seu povo. A encarnação nos convida a olhar para a Pastoral Universitária com um olhar missionário mais profundo, centrado no cotidiano da vida, atravessando as dores, as esperanças e as angústias de nossa sociedade, fazendo-nos um convite sincero ao encontro e ao compromisso com a realidade que nos cerca.
No entanto, é preciso romper muros, tanto visíveis quanto invisíveis, que muitas vezes afastam o saber científico da realidade concreta das pessoas e dos territórios vulnerabilizados. A Universidade Católica deve ser um espaço de missão e comunhão. Não pode fechar-se em si mesma, mas deve deixar-se tocar pela vida que pulsa fora de seus limites. É justamente nesse cenário que este texto se propõe a refletir, compreendendo a Pastoral Universitária como ponte, capaz de formar vínculos entre a fé, o saber e a realidade social.
Nessa perspectiva, o Papa Francisco nos revela que “não é suficiente ver, não: é preciso olhar” (FRANCISCO, 2016). Essa frase, em um primeiro momento, pode parecer simples, mas diz profundamente sobre o fazer pastoral em uma instituição de ensino confessional católica. Afinal, todos os dias somos confrontados com inúmeras realidades que passam diante dos nossos olhos, e é necessário educar os olhos do coração para enxergarmos além das lentes do cotidiano.
No percurso pastoral, essa diferença ganha um significado ainda mais profundo quando associada às práticas educativas e à maneira como compreendemos a educação católica. Ver significa constatar uma realidade que se apresenta diante de nós. Não exige, necessariamente, envolvimento ou leitura de mundo; não nos obriga a nos colocar no lugar do outro e, mais significativamente, não exige que caminhemos ao seu encontro. O ver pode tornar-se uma relação cotidiana, banalizada e fria com aquilo que nos cerca. Olhar, por outro lado, exige aproximação, empatia, convivência e encontro. É justamente nessa dimensão de uma Igreja que se faz missionária, que se aproxima e se deixa interpelar pela realidade, que o trabalho pastoral revela sua potencialidade educativa.
A Pastoral deve ser um terreno fértil para a produção de conhecimento, onde projetos pedagógicos, extensionistas, socioeducativos e solidários possam nascer, desenvolver-se e tornar-se experiências concretas de transformação social por meio da Universidade. Essa compreensão pressupõe que a dimensão pastoral dialogue com o ensino, a pesquisa e a extensão, atravessando a própria experiência universitária e contribuindo para que o conhecimento se encontre com a fé, a vida e o compromisso social (Juliatto, 2009).
Educar em Pastoral, ou seja, pensar uma “Universidade em Pastoral” (Alves, 2002; Juliatto, 2009), exige reconhecer que a práxis pedagógica também pode se constituir como lugar de encontro, no qual o conhecimento ganha rosto, diferentes histórias se cruzam e a formação profissional se abre à escuta, à responsabilidade e ao cuidado com o outro. Nesse horizonte, o olhar de Cristo inspira uma prática educativa capaz de perceber para além dos conteúdos, alcançando também a pessoa que aprende, suas perguntas e a realidade que a cerca. Trata-se de um convite que revela a força educativa do encontro e nos provoca a sair de nossas bolhas sociais, aproximando-nos das periferias, das comunidades e das histórias de vida tantas vezes invisibilizadas e marginalizadas.
É justamente no encontro, nesse movimento de aprender a olhar, que essa questão ganha contornos pastorais. Uma Universidade Confessional Católica não se preocupa apenas com a formação acadêmica e profissional de seus estudantes, mas também com as experiências educativas que podem ampliar essa formação. O voluntariado, os projetos sociais, as ações extensionistas e outras experiências de participação permitem que o estudante coloque seus conhecimentos em diálogo com realidades, pessoas e contextos que nem sempre fazem parte de seu percurso acadêmico cotidiano. Nesses espaços, a formação profissional pode ser complementada por aprendizagens construídas na convivência, no serviço, na escuta e no compromisso com o outro. Essa compreensão encontra fundamento na Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, na qual o Papa João Paulo II relaciona a missão da Universidade Católica à defesa e ao desenvolvimento da dignidade humana e ao serviço prestado às comunidades, tendo como horizonte a verdade e o bem comum (João Paulo II, 1990, n. 12).
É preciso criar encontros e construir pontes entre o Evangelho e a vida cotidiana, o conhecimento acadêmico e o compromisso social, a Universidade e a sociedade. Experiências de voluntariado, projetos sociais, ações extensionistas, grupos de jovens, espaços de espiritualidade e formação podem favorecer encontros que talvez não acontecessem espontaneamente no cotidiano universitário, mas podem ser fruto de uma parceria fecunda entre as atividades pedagógicas da Universidade e a Pastoral, trabalhando em sintonia para gerar uma formação integral.
Para isso, é fundamental que a Pastoral se constitua como um espaço de inovação, espiritualidade e desenvolvimento de tecnologias sociais, no qual o estudante possa conviver, estabelecer vínculos, participar e propor projetos sociopedagógicos, pastorais e sociais capazes de gerar impactos significativos na sociedade. Como lugar de encontro e formação, a Pastoral deve favorecer experiências que aproximem o estudante de diferentes realidades, convidando-o a sair de si mesmo, ampliar seu olhar e romper as fronteiras que tantas vezes o distanciam do outro. Nesse movimento, o encontro deixa de ser apenas aproximação e passa a constituir uma experiência de convivência, aprendizagem e compromisso com o bem comum.
Assim, a Pastoral pode contribuir para uma formação que integre conhecimento, experiência, fé e compromisso com o bem comum, ajudando o estudante a compreender que sua formação também se constrói na relação com o outro e na responsabilidade diante da casa comum que compartilhamos. A educação integral passa também por essas aprendizagens que não se traduzem facilmente em gráficos e números; ao contrário, acontecem quando uma experiência modifica nossa maneira de compreender a realidade, amplia o olhar ou nos ajuda a perceber uma realidade que sempre esteve diante de nossos olhos, mas que ainda não havíamos verdadeiramente olhado. É nessa direção que a formação humanizada e a cultura do encontro proposta pelo Papa Francisco podem encontrar, nas práticas pastorais, espaços concretos de experiência e aprendizagem (FRANCISCO, 2016).
O Papa Leão XIV, ao refletir sobre a missão educativa da Igreja, recorda que as comunidades educativas guiadas pela palavra de Cristo “não erguem muros, mas constroem pontes” (LEÃO XIV, 2025). Nesse sentido, a Universidade Católica não pode ser indiferente às desigualdades. É necessário tocar a vida, ser presença e ser cuidado. Entre muros e pontes, a Pastoral Universitária se afirma como espaço de encontro. Um espaço missionário onde a fé se traduz em presença encarnada, tornando-se solo fértil para a promoção do serviço à vida, à dignidade humana e à construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Foto de Leslie Jones na Unsplash

Antonio José de Lucena Romão Júnior
Mestre em Educação pela UERJ, bacharel em Segurança Pública e Social pela UFF, pedagogo e historiador, com especializações nas áreas de Gestão de Políticas Públicas e Sociais, Pedagogia Social, Projetos Sociais, Gestão Escolar, Ensino Religioso e Aconselhamento Pastoral. Coordenador de Pastoral no Colégio La Salle Abel, atua na Educação Católica, formação de jovens, voluntariado, cidadania e Pastoral Educativa.



