Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo e que se tornou ainda mais frequente na convivência com adolescentes: por que tantos jovens parecem ter dificuldade para explicar o que sentem?
Paradoxalmente, nunca produzimos tantas palavras. Comentamos, compartilhamos, gravamos vídeos, enviamos mensagens durante todo o dia. Nunca estivemos tão cercados por discursos. Ainda assim, cresce a impressão de que muitos adolescentes não conseguem narrar a própria experiência. Sentem angústia, frustração, medo ou vazio, mas lhes faltam palavras para compreender aquilo que vivem.
Talvez essa seja uma das grandes urgências educativas do nosso tempo.
Como gestor escolar, observo diariamente que muitas das dificuldades enfrentadas pelos estudantes não dizem respeito apenas ao desempenho acadêmico. Elas revelam algo mais profundo: a dificuldade de organizar a própria experiência em uma narrativa que faça sentido. Como pesquisador, encontro essa preocupação em diferentes autores contemporâneos. Como psicanalista em formação, aprendo que o sofrimento frequentemente começa justamente onde faltam palavras para nomear a experiência. E, como leitor, continuo acreditando que poucas linguagens oferecem tantas possibilidades de encontro consigo mesmo quanto a literatura.
Não por acaso, o Papa Francisco dedicou uma carta inteiramente ao papel da literatura na formação humana. Em um tempo marcado pela velocidade da informação e pelo empobrecimento do diálogo, o Papa nos convida a recuperar a força educativa das narrativas. Sua pergunta permanece ecoando muito depois da leitura:
Como será possível alcançar o núcleo das culturas antigas e novas se ignorarmos, descartarmos e/ou silenciarmos os símbolos, mensagens, criações e narrativas com que se captaram e se quiseram mostrar e evocar os seus feitos e ideais mais belos, tal como as suas violências, medos e paixões mais profundas? Como falar ao coração dos homens se ignorarmos, relegarmos ou não valorizarmos essas palavras com que quiseram manifestar e revelar o drama do seu viver e sentir através de romances e poemas? (FRANCISCO, 2024)
A pergunta é dirigida à Igreja, mas poderia ser dirigida igualmente às escolas.
Durante muito tempo, justificamos a leitura pelos seus efeitos colaterais: melhora da escrita, ampliação do vocabulário, desenvolvimento da interpretação de textos. Todos esses benefícios são reais e importantes. Mas talvez eles ainda sejam insuficientes para explicar por que a literatura continua sendo indispensável.
A literatura inaugura uma linguagem capaz de tocar experiências que ainda não encontram nome no sujeito. Para crianças, adolescentes e jovens, cuja vida interior muitas vezes se manifesta como silêncio, excesso ou confusão, o texto literário pode funcionar como espaço de reconhecimento: algo ali fala de mim, mesmo quando ainda não sei como falar de mim mesmo.
Essa experiência de reconhecimento talvez seja um dos maiores presentes que um livro pode oferecer.
Lembro-me de um adolescente que, sem conseguir explicar o desconforto que sentia em relação ao mundo, tomou emprestado um exemplar de Crime e Castigo apenas para ter um assunto em comum com uma colega. Ao encontrar Raskólnikov, descobriu muito mais do que um personagem: encontrou uma linguagem para dar forma aos seus próprios inconformismos. Não foi apenas uma leitura. Foi uma ampliação das possibilidades de compreender a si mesmo.
Essa cena me acompanha porque ilustra algo que a literatura realiza de maneira singular: ela nos apresenta vidas que nunca viveremos e, ao mesmo tempo, ajuda-nos a compreender melhor a nossa.
Em uma cultura marcada pela aceleração, essa experiência torna-se ainda mais necessária. As redes sociais oferecem uma sucessão infinita de imagens e fragmentos, mas raramente constroem narrativas. Vivemos cercados por acontecimentos, porém cada vez mais distantes da possibilidade de lhes atribuir sentido. Como observa Byung-Chul Han, narrar significa vincular. É por meio da narrativa que deixamos de experimentar a vida como uma sucessão de instantes desconectados e começamos a perceber relações entre memória, presente e futuro.
Talvez por isso muitos jovens sintam que vivem intensamente e, ao mesmo tempo, tenham dificuldade para responder perguntas aparentemente simples: quem sou? O que desejo? Que história estou construindo?
A literatura não entrega essas respostas prontas. Sua força está justamente em recusar respostas fáceis.
Ao acompanhar personagens, atravessar conflitos e experimentar perspectivas diferentes da própria, o leitor aprende que o ser humano é inevitavelmente complexo. Aprende que pessoas podem ser contraditórias, que escolhas carregam consequências, que o sofrimento faz parte da experiência humana e que nem toda pergunta encontra solução imediata.
Nesse sentido, ler é um exercício de alteridade.
Antonio Candido afirmava que a literatura desenvolve em nós uma quota de humanidade porque nos torna mais compreensivos e mais abertos ao outro. Essa talvez seja uma das competências mais urgentes do século XXI. Em uma sociedade frequentemente marcada pela polarização e pela comunicação instantânea, formar leitores é também formar pessoas capazes de escutar antes de responder, compreender antes de julgar e dialogar antes de rotular.
É justamente esse horizonte que a carta do Papa Francisco recupera ao defender a literatura como parte da formação integral. Ela não aparece como complemento da educação, mas como uma das linguagens capazes de educar a sensibilidade, ampliar a imaginação moral e preparar homens e mulheres para encontrar o outro com respeito e compaixão.
As escolas católicas possuem, nesse contexto, uma oportunidade singular.
Promover a leitura não significa apenas incentivar hábitos culturais ou melhorar indicadores educacionais. Significa oferecer às juventudes instrumentos para interpretar a própria existência. Significa criar espaços em que romances, contos e poemas deixem de ser apenas conteúdos curriculares para se tornarem experiências de encontro com a condição humana.
Autoconhecer-se é uma necessidade na construção de uma vida que valha a pena. A literatura contribui para esse autoconhecimento porque nos ensina, antes de tudo, a ler: ler o mundo, ler o outro e, finalmente, ler a nós mesmos.
Talvez educar seja exatamente isso.
Não apenas ensinar conteúdos, mas ajudar cada jovem a descobrir palavras suficientes para narrar a própria vida.
Porque, quando um estudante encontra uma linguagem capaz de dar sentido àquilo que vive, a leitura deixa de ser apenas uma atividade escolar. Ela se transforma em possibilidade de existência.

Cristiano Rodrigues Batista
Diretor pedagógico do Colégio São Paulo da Cruz. Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, mestre em Teoria da Literatura e graduado em Letras pela UFMG, é também pedagogo e psicanalista. Foi pesquisador visitante na Columbia University, em Nova York. Há mais de 16 anos atua na Educação Básica, com experiência em docência, formação de educadores, produção de conteúdos e gestão de equipes e projetos educacionais.



