A identidade confessional à luz do Pacto Educativo Global
Contextualizando o tema: A identidade confessional católica na educação está alicerçada na missão evangelizadora da Igreja e compreende o ato educativo como campo para a formação integral da pessoa humana, fundamentada na Sagrada Escritura, Tradição e Magistério. Diante disso, o Pacto Educativo Global, proposto pelo Papa Francisco, apresenta-se como um chamado à renovação da educação diante das transformações culturais, sociais e tecnológicas, as quais têm favorecido a fragmentação do conhecimento, o individualismo e a redução da educação a finalidades meramente econômicas. Portanto, ao propor a centralidade da pessoa humana, o Pacto converge com a antropologia cristã, que reconhece cada indivíduo como dotado de dignidade inalienável e chamado à integração entre fé e razão, conhecimento e sabedoria, liberdade e responsabilidade. Assim, à luz do Pacto Educativo Global, a educação católica é convidada a renovar a sua identidade e a sua missão, formando pessoas capazes de pensar criticamente, agir eticamente e contribuir para a reconstrução de uma sociedade mais humana, justa, fraterna e solidária.
A identidade confessional católica no campo educacional trata-se de uma realidade enraizada na missão evangelizadora da Igreja, a partir do mandato de Jesus: “ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Assim, a identidade confessional da educação católica está intimamente interligada no eixo trinitário e missionário da Igreja, reconhecendo o ato de educar como um lugar privilegiado da formação integral da pessoa humana. Portanto, essa identidade nasce da fé cristã, encontra o fundamento na Sagrada Escritura, desenvolve-se na Tradição e no Magistério da Igreja e se concretiza no compromisso histórico da Igreja com a promoção da dignidade de cada ser humano, da justiça social e do bem comum. Diante disso, o Pacto Educativo Global, proposto pelo Papa Francisco, surgiu como um chamado providencial para repensar, renovar e fortalecer a necessidade da identidade confessional católica no contexto educacional contemporâneo.
O atual cenário contemporâneo está marcado por inúmeras transformações culturais, sociais e tecnológicas, que causam um impacto direto no modo de compreender o ser humano, a educação e o sentido da vida. Assim, a fragmentação do saber, o individualismo crescente, a lógica utilitarista e a redução da educação a um mero instrumento de produtividade econômica enfraqueceu a visão integral do ser humano. Nesse contexto contemporâneo essa visão integral da educação enfrenta desafios inéditos, portanto, o Papa Francisco identifica tal cenário como uma “emergência educativa”, afirmando de modo explícito que “nunca como hoje se verificou tanta ruptura entre educação e valores” (FRANCISCO, 2015). Dessa maneira, essa emergência manifesta-se na fragmentação do saber, na fragilidade dos vínculos comunitários e na dificuldade de transmitir às novas gerações critérios éticos sólidos e duradouros.
O Papa Francisco, ao perceber essa crise nas relações entre escola, família, sociedade e Igreja, viu a necessidade de reestruturar o campo educacional por meio de um Pacto Educativo Global. Diante desse cenário, o Santo Padre convocou a humanidade a refletir, com o objetivo de colocar novamente a pessoa humana no centro do processo formativo e de reconstruir uma educação que seja verdadeiramente humanizadora. Em sua mensagem de lançamento do Pacto Educativo Global, o Papa afirmou que “educar é um ato de amor, é dar vida”, e acrescentou que “somente por meio de uma educação integral será possível enfrentar as crises que afetam o mundo contemporâneo” (FRANCISCO, 2019).
O Concílio Vaticano II sustenta essa perspectiva ao declarar que “a verdadeira educação visa à formação da pessoa humana em ordem ao seu fim último e ao bem das sociedades” (GE 1). Essa afirmação, portanto, estabelece um princípio orientador para a reflexão educacional católica, segundo a qual a educação não pode ser reduzida à aquisição de competências técnicas nem subordinada exclusivamente a critérios econômicos ou produtivistas. A centralidade do ser humano permanece, assim, como eixo normativo da educação confessional católica. Como afirma o Cardeal José Tolentino de Mendonça, “a Igreja tem na missão educativa uma expressão fundamental do seu próprio ser, da sua missão, uma vez que a educação, para a Igreja, ultrapassa a mera instrução e deve conduzir ‘a uma síntese, a uma visão do que é o ser humano, do que é a sua realidade’” (MENDONÇA, 2024).
A proposta do Pacto Educativo Global se dirige à sociedade como um todo. No entanto, para a educação católica, esse pacto encontra um terreno particularmente fecundo, pois dialoga diretamente com elementos constitutivos de sua identidade a partir da missão própria de evangelização. Assim, a educação católica sempre compreendeu a pessoa humana como um ser relacional, aberto à transcendência, dotado de dignidade inalienável por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27). É essa visão antropológica que fundamenta a convicção de que educar significa formar pessoas capazes de integrar razão e fé, liberdade e responsabilidade, conhecimento e sabedoria, técnica e ética.
A identidade confessional católica na educação expressa-se, antes de tudo, na centralidade da pessoa humana. Essa centralidade, reafirmada pelo Pacto Educativo Global, rejeita qualquer forma de redução do educando a um número, a um resultado estatístico ou a um recurso funcional do sistema econômico. Para a tradição católica, a pessoa é sempre fim e nunca meio. Diante disso, o Pacto Educativo Global insiste nessa mesma perspectiva ao afirmar que a educação deve colocar a pessoa no centro, promovendo um desenvolvimento que seja ao mesmo tempo intelectual, moral, social, cultural e espiritual (cf. FRANCISCO, 2020). Essa convergência revela que a identidade confessional católica constitui uma contribuição importante, necessária e decisiva para a construção de uma educação verdadeiramente humana.
Nesse sentido, a “cultura do encontro”, tão cara ao magistério de Papa Francisco, ocupa um lugar central, tanto no Pacto Educativo Global quanto na identidade confessional católica. Educar para o encontro se concretiza em formar pessoas capazes de reconhecer o outro em sua dignidade, de dialogar com a diferença e de construir relações baseadas no respeito, na escuta e na cooperação. Para a educação católica, essa cultura do encontro encontra sua raiz no Evangelho, especialmente no mandamento do amor ao próximo. A escola e a universidade católicas são chamadas a ser espaços de comunhão, onde se aprende a cuidar, a servir e a construir pontes em um mundo marcado por divisões e polarizações.
Nesse cenário, observa-se também o esforço contemporâneo de superar a insuficiência de referências produzida pelo relativismo, particularmente associado à racionalidade moderna e às suas consequências culturais. A multiplicidade de perspectivas, valores e modos de compreender a realidade, embora tenha ampliado os horizontes da liberdade e da pluralidade, também trouxe consigo a dificuldade de estabelecer referências comuns capazes de orientar a existência individual e coletiva. Por isso, emerge, em diferentes âmbitos da sociedade, uma busca por fundamentos que ultrapassem a transitoriedade das opiniões e ofereçam critérios de sentido, verdade, justiça e dignidade humana.
Educar na identidade confessional católica, portanto, significa assumir com coragem e humildade a missão de formar pessoas integrais, capazes de pensar criticamente, agir eticamente e viver de modo solidário. À luz do Pacto Educativo Global, essa missão adquire uma dimensão ainda mais ampla, pois se insere em um esforço coletivo de reconstrução do tecido humano e social. Papa Francisco recordou que “não podemos ficar parados”, pois “é necessário unir esforços para uma ampla aliança educativa” (FRANCISCO, 2020). Para a educação católica, essa aliança é uma oportunidade de renovar sua identidade, aprofundar sua fidelidade ao Evangelho e oferecer ao mundo uma contribuição significativa para a construção de um futuro mais humano e fraterno.
Referências
CONCÍLIO VATICANO II. Declaração Gravissimum Educationis: sobre a educação cristã. In: CONCÍLIO VATICANO II. Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 2000.
FRANCISCO. Discurso aos participantes do encontro Educating Today and Tomorrow. Vaticano, 21 nov. 2015.
FRANCISCO. Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo Global. Vaticano, 12 set. 2019.
FRANCISCO. Mensagem por ocasião do encontro “Global Compact on Education”. Vaticano, 15 out. 2020.
MENDONÇA, José Tolentino de. A Igreja no Brasil dá testemunho extraordinário no campo educativo. O São Paulo, 23 ago. 2024.



