Quando tudo educa para produzir, quem ainda educa para existir?

A potência da educação confessional em tempos de esvaziamento de sentido

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Quando tudo educa para produzir, quem ainda educa para existir?

A potência da educação confessional em tempos de esvaziamento de sentido

Toda crise nos obriga a voltar às perguntas que julgávamos antes respondidas, já nos alertava a filósofa Hannah Arendt. Talvez essa seja uma das marcas mais profundas do tempo presente. 

Durante décadas, a educação ocupou-se, preferencialmente, em aperfeiçoar metodologias, ampliar o acesso, incorporar tecnologias, desenvolver competências e responder às exigências de um mundo em permanente transformação. No entanto, enquanto aperfeiçoávamos os meios, algo mais silencioso parecia escapar: a pergunta pelo fim último da educação.

Não se trata de uma crise pedagógica, de identidade e pertença. Tampouco apenas de uma crise institucional. O que atravessamos é uma crise antropológica, em outras palavras, uma crise sobre aquilo que entendemos por ser humano.

Quando uma sociedade deixa de perguntar quem deseja formar e passa a perguntar apenas quais resultados pretende alcançar, a educação deixa, pouco a pouco, de ser um espaço de formação humana para se tornar uma sofisticada engrenagem de produção em massa. O estudante se converte em indicador, o professor em executor de metas, o conhecimento em ativo econômico, a escola em plataforma de desempenho.

Nada disso acontece de forma abrupta, muito pelo contrário… O processo é quase imperceptível. Como um rio que altera lentamente seu curso, a educação continua parecendo educação, embora sua direção tenha mudado em muitas instituições educativas (ou melhor, grupos econômicos proprietários de instituições educativas). Educar se tornou lucrativo para muita gente, menos para os profissionais da educação. 

É precisamente neste cenário que a educação confessional recupera uma atualidade inesperada, atemporal e presente em seu currículo desde sempre.

Não porque ofereça respostas prontas para os desafios contemporâneos, mas porque insiste em preservar uma pergunta que a modernidade produtivista parece ter esquecido: o que significa formar uma pessoa?

A própria etimologia da palavra educação já revela uma intuição que, por vezes, a contemporaneidade parece ter esquecido. Do latim educare e educere, remete ao ato de “conduzir para fora”, “guiar”, “fazer emergir”. A composição entre o prefixo ex- (para fora) e o verbo ducere (conduzir, levar) indica que educar nunca significou apenas transmitir conteúdos ou acumular informações, mas favorecer um movimento de saída. Saída da ignorância para o conhecimento, da imaturidade para a autonomia, do individualismo para a convivência. Em sua origem mais profunda, a educação é sempre um convite ao deslocamento: ninguém se educa (ou vive um processo de ensino-aprendizagem) permanecendo fechado em si mesmo.

Essa compreensão etimológica aproxima a educação de uma dimensão essencialmente relacional. Conduzir alguém para fora de si não significa afastá-lo de sua identidade, mas ampliá-la pelo encontro. É no rosto que interpela, na diferença que desafia, na vulnerabilidade que convoca ao cuidado e na convivência que exige diálogo que o ser humano amadurece. Em tempos marcados pelo hiperindividualismo, pela lógica da competição e pela crescente dificuldade de conviver com a diferença, talvez uma das tarefas mais urgentes da educação seja precisamente esta: conduzir cada pessoa para fora do estreito horizonte do próprio eu, “quebrar a crosta do egoísmo e da lógica estéril da indiferença”, ajudando a descobrir que ninguém se torna plenamente humano sozinho. 

A potência da Educação Confessional

Existe um equívoco recorrente ao se compreender a educação confessional como um modelo pedagógico acrescido de práticas religiosas, essa leitura reduz sua identidade a um conjunto de símbolos, celebrações ou componentes curriculares relacionados à fé. Embora esses elementos integrem sua expressão institucional, eles não constituem seu fundamento. 

Historicamente, as grandes tradições confessionais não fundaram escolas para ocupar um nicho educacional, fundaram escolas porque possuíam uma convicta compreensão da pessoa humana e respondiam as demandas dos contextos de suas épocas. 

Essa distinção é decisiva. Enquanto muitos projetos educativos começam perguntando como ensinar, a tradição confessional inicia perguntando quem é aquele que aprende. Não se trata de uma diferença metodológica, mas epistemológica. Antes de organizar currículos, elaborar avaliações ou definir competências, a educação confessional assume que educar significa participar da construção da humanidade do outro.

Por isso, sua preocupação nunca se restringiu à transmissão de conteúdos. O conhecimento sempre foi compreendido como parte de um projeto maior de formação ética, espiritual, comunitária e existencial. Essa perspectiva adquire especial relevância quando observamos que nenhuma educação é neutra! Toda escola forma uma determinada imagem de ser humano.

Durante décadas, se acreditou que a secularização progressiva da sociedade faria desaparecer a relevância das instituições confessionais, restringindo-as a um espaço cada vez mais específico. No entanto, o movimento observado nas últimas décadas revela algo diferente. Quanto mais a educação se aproxima de uma lógica predominantemente instrumental, mais cresce a necessidade de recuperar dimensões que ela própria foi deixando à margem: o sentido, o pertencimento, a interioridade, a comunidade, a ética, o cuidado, o projeto de vida, as aprendizagens solidárias.

A força da educação confessional reside justamente nessa explicitude. Ela não esconde a pergunta antropológica sob indicadores de desempenho. Ao contrário, organiza sua prática educativa a partir da convicção de que cada estudante possui uma dignidade que antecede qualquer resultado acadêmico, econômico ou social.

Quando a educação voltará a perguntar pelo ser humano?

Nunca se falou tanto sobre saúde mental, competências socioemocionais, cultura do cuidado, formação integral e propósito. Ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos vivido uma educação tão fortemente atravessada pela lógica da performance. As escolas são pressionadas por rankings, avaliações externas, metas institucionais, resultados acadêmicos, indicadores financeiros e estratégias de posicionamento de mercado. O estudante é frequentemente compreendido a partir de sua capacidade de performar, o professor de sua produtividade, a escola de sua eficiência entre os mais famosos vestibulares e ENEM (e a capacidade de transformar isso em outdoor e postagens no Instagram). A linguagem da educação passa a ser ocupada, quase sem que percebamos, por categorias originalmente produzidas no universo empresarial.

Não há, evidentemente, qualquer problema em buscar qualidade, gestão responsável ou excelência acadêmica. O problema começa quando a excelência deixa de ser um horizonte humano para tornar-se apenas uma métrica de desempenho.

Curiosamente, muitos dos temas que historicamente constituíram a identidade das instituições confessionais passaram, nos últimos anos, a ocupar o centro das estratégias das grandes redes educacionais não-confessionais. Projeto de vida, formação integral, pertencimento, competências socioemocionais, cuidado, cultura da paz, saúde mental e desenvolvimento humano aparecem hoje como elementos quase obrigatórios dos discursos institucionais. Esse movimento não deve ser interpretado como mera apropriação de linguagem… Ele revela que o próprio mercado educacional começou a perceber aquilo que as tradições confessionais sustentam há séculos: nenhuma aprendizagem se sustenta quando a pessoa deixa de encontrar sentido na própria existência.

Em muitas instituições, esses elementos surgem porque pesquisas demonstram que favorecem melhores resultados, reduzem evasão, fortalecem vínculos ou aumentam indicadores de satisfação. Nas instituições confessionais, eles não nasceram como estratégia. São consequência direta de uma profunda e transcendente compreensão sobre quem é o ser humano. Não ocupam um lugar instrumental, ocupam um lugar fundacional. É justamente por isso que sobrevivem às mudanças de tendências, de gestões e de modismos pedagógicos. 

Não dependem da utilidade para permanecerem relevantes, dependem apenas da fidelidade à própria identidade, ao próprio Carisma.

Desafios e caminhos

Acredito que o maior desafio contemporâneo da educação confessional não seja defender sua existência, mas recordar continuamente sua razão de existir. Sempre que a confessionalidade é reduzida a um departamento, a um calendário de celebrações ou a um conjunto de práticas religiosas, ela perde sua força transformadora. Confessionalidade não é um setor da escola, é uma maneira de compreender a escola. Ela modifica a forma de organizar o currículo, de compreender a avaliação, de exercer a gestão, de construir relações, de interpretar conflitos e, sobretudo, de olhar cada estudante.

Talvez seja precisamente essa a contribuição mais necessária das instituições confessionais para o século XXI. Em uma cultura marcada pela aceleração, pela competição permanente e pela lógica da performance, elas continuam insistindo em uma pergunta que parece simples, mas permanece profundamente revolucionária: antes de formar profissionais, cidadãos ou líderes, quem estamos ajudando a tornar-se humano? Enquanto essa pergunta continuar viva, a educação confessional conservará sua relevância. Não porque possua exclusividade sobre a formação humana, mas porque se recusa a esquecer que toda educação, antes de produzir competências, participa da lenta, delicada e profundamente ética tarefa de formar pessoas capazes de habitar o mundo com sentido, responsabilidade, abertura ao outro e esperança.

Prof. Felipe Lima Teixeira – Educador, pastoralista. Mestrando em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Especialista em Educação Confessional pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Salvador (UNIFACS). Dedica-se à pesquisa em educação confessional, transposição didático-pastoral, gestão dos processos pastorais e formação continuada dos educadores.

Autoria:

Felipe Teixeira

Prof. Felipe Lima Teixeira - Educador, pastoralista. Mestrando em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Especialista em Educação Confessional pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Salvador (UNIFACS). Dedica-se à pesquisa em educação confessional, transposição didático-pastoral, gestão dos processos pastorais e formação continuada dos educadores.

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