Interioridade, Tecnologia e Paz: os novos desafios do Pacto Educativo Global

Interioridade, Tecnologia e Paz: os novos desafios do Pacto Educativo Global

Há momentos em que uma proposta educativa é desafiada não porque tenha perdido sua força, mas porque o mundo mudou ao seu redor. Novas linguagens, novas formas de relação, novas tecnologias e novas tensões culturais pedem que voltemos às perguntas essenciais: que pessoa queremos formar? Que experiências nossas escolas oferecem para que crianças e jovens aprendam a conhecer a si mesmos, a conviver com os outros e a orientar com liberdade e responsabilidade suas escolhas?

É nesse horizonte que o Papa Leão XIV, ao retomar o Pacto Educativo Global, acrescenta três prioridades: a vida interior, o digital humano e a paz desarmada e desarmante. Elas não substituem os compromissos já propostos pelo Papa Francisco. Antes, ajudam a relê-los diante de desafios que se tornaram ainda mais evidentes e urgentes.

Para a Educação Católica, esse chamado toca um ponto central de sua missão. Formar integralmente nunca significou apenas transmitir conhecimentos. Significa cuidar da inteligência e da sensibilidade, da consciência e da liberdade, da capacidade de relação e do compromisso com o bem comum. Por isso, as três prioridades propostas por Leão XIV podem ser lidas como um convite a aprofundar uma identidade educativa que precisa se tornar experiência concreta na vida escolar.

Vida interior: educar para a profundidade

A primeira prioridade diz respeito à vida interior. Em uma cultura que disputa continuamente nossa atenção, a possibilidade de silêncio, escuta e discernimento tornou-se um bem educativo precioso.

Crianças e jovens vivem cercados por estímulos, imagens, notificações e respostas imediatas. A escola, muitas vezes, também participa dessa lógica: agendas preenchidas, demandas sucessivas, metas, avaliações e atividades em ritmo acelerado. Nesse cenário, educar para a interioridade não significa afastar o estudante do mundo, mas ajudá-lo a não ser inteiramente conduzido por aquilo que o mundo lhe apresenta.

É aqui que a formação cristã e pastoral assume uma contribuição singular. Experiências de oração, acompanhamento, retiros, projeto de vida, silêncio e discernimento podem oferecer aos estudantes aquilo que nenhuma informação pronta substitui: a possibilidade de perguntar quem são, o que desejam, o que dá sentido às suas escolhas e de que modo percebem a presença de Deus em sua história.

Há, porém, uma exigência importante. A interioridade não nasce automaticamente da multiplicação de atividades pastorais. Ela precisa de tempo, profundidade e acompanhamento. Talvez uma das perguntas que nossas escolas devam se fazer seja justamente esta: nossos projetos ajudam os estudantes a viver experiências interiores ou apenas acrescentam novos compromissos a agendas já excessivamente preenchidas?

Digital humano: inovar sem perder o humano

A segunda prioridade, o digital humano, toca diretamente uma das questões mais sensíveis da educação contemporânea. A inteligência artificial, as redes sociais e os algoritmos já interferem na maneira como estudamos, escrevemos, pesquisamos, produzimos conhecimento e construímos relações.

Diante disso, a pergunta mais importante não é simplesmente como incorporar novas tecnologias à escola. É preciso perguntar para que e sob quais critérios elas devem ser incorporadas.

Em nossos colégios, o conceito de inovação pedagógica corre o rico de ser reduzido à adoção do que há de mais recente. Porém, no contexto da educação católica a inovação precisa atender, ao menos, a duas exigências. A primeira é estar a serviço do desenvolvimento humano: ampliar autonomia, pensamento crítico, autoria, responsabilidade e capacidade de relação. A segunda é permanecer em diálogo com a tradição educativa que nos identifica.

Tradição, aqui, não significa resistência ao novo. Significa possuir critérios para discerni-lo. Uma escola fiel à sua identidade não pergunta apenas se uma tecnologia funciona, mas que tipo de sujeito ela ajuda a formar, que relações favorece, que capacidades fortalece e quais riscos introduz.

Por isso, nem toda novidade tecnológica constitui inovação pedagógica. E uma inovação que enfraqueça autoria, reflexão, liberdade ou encontro dificilmente poderá ser considerada coerente com uma educação que se pretende integral.

A formação cristã e pastoral pode contribuir de modo decisivo para esse discernimento, recolocando no centro perguntas que a lógica da eficiência tende a esquecer: isso humaniza? Aproxima as pessoas? Fortalece a liberdade? Contribui para o bem comum?

Paz desarmada e desarmante: aprender a encontrar o outro

A terceira prioridade proposta por Leão XIV é a paz desarmada e desarmante. Trata-se de uma formulação especialmente significativa para a escola, porque educar para a paz não pode significar apenas falar sobre a paz. É preciso fazer da própria convivência uma experiência educativa.

Nossos estudantes crescem em ambientes nos quais a divergência pode rapidamente se transformar em hostilidade. Nas redes sociais, argumentos cedem espaço a rótulos; diferenças tornam-se fronteiras; o outro passa a ser percebido menos como interlocutor e mais como adversário.

A escola católica é chamada a oferecer outra experiência. Educar para a paz significa ensinar a discordar sem desumanizar, argumentar sem humilhar, exercer autoridade sem violência, reconhecer o conflito sem transformá-lo em ruptura.

Nesse campo, a formação cristã e pastoral pode ajudar a converter valores em práticas: ações solidárias, mediação de conflitos, experiências de serviço, convivência, escuta, protagonismo juvenil e formação para o cuidado. Mas a cultura de paz se revela sobretudo no cotidiano: na forma como a escola acolhe, corrige, escuta, decide e reconcilia.

Experiências em sintonia com esse horizonte

A diversidade das redes católicas brasileiras oferece experiências que podem inspirar novos caminhos, sem a pretensão de estabelecer modelos únicos.

Na Rede Jesuíta de Educação, o Encontro de Formação Integral reúne anualmente estudantes do Ensino Médio em experiências de espiritualidade, autoconhecimento, discernimento, liderança e projeto de vida. Na Rede Salesiana Brasil, processos formativos de lideranças têm incorporado a reflexão sobre inteligência artificial a partir de critérios éticos, humanos e educativos. Entre os Maristas, iniciativas de alcance nacional ligadas ao cuidado e à cultura da paz procuram tornar escuta, acolhimento e convivência parte da experiência formativa.

São apenas algumas entre muitas práticas existentes. O Espírito suscita respostas diferentes em contextos diferentes e fecunda cada obra a partir do carisma que lhe é próprio. O valor dessas experiências está também em provocar outras comunidades educativas a discernirem suas próprias respostas.

Formação cristã e pastoral: quando a identidade se torna experiência

As três prioridades de Leão XIV ajudam a perceber com ainda mais clareza a centralidade da formação cristã e pastoral nas escolas católicas.

Ela não pode ser entendida apenas como um conjunto de ações religiosas paralelo ao trabalho pedagógico. Sua missão é contribuir para que a identidade cristã atravesse a experiência educativa.

A interioridade não pode ficar restrita ao retiro. O digital humano não pode ser responsabilidade apenas das áreas de tecnologia. A paz não pode aparecer somente em campanhas ou projetos especiais.

Quando esses princípios alcançam currículo, relações, gestão, espaços e tempos escolares, a formação integral deixa de ser apenas uma afirmação institucional e passa a ser percebida naquilo que os estudantes efetivamente vivem.

Talvez seja esse um dos convites mais fecundos das novas prioridades do Pacto Educativo Global: não acrescentar três novos temas à agenda das escolas, mas perguntar como nossa missão educativa pode ganhar maior profundidade, humanidade e coerência diante dos desafios do presente.

Traçar novos mapas de esperança, nesse sentido, não significa abandonar os caminhos já percorridos. Significa continuar discernindo, com fidelidade criativa, como a tradição cristã pode iluminar questões novas e como cada comunidade educativa, aberta à ação do Espírito, pode transformar essa inspiração em experiências concretas de formação humana e integral.

Saiba mais

PAPA FRANCISCO. Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo Global. Vaticano, 12 set. 2019. Documento em que Francisco convoca a construção de uma ampla aliança educativa, comprometida com as novas gerações e com um humanismo solidário. Acessar no site do Vaticano

PAPA LEÃO XIV. Traçar Novos Mapas de Esperança. Carta Apostólica por ocasião do 60º aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis. Vaticano, 27 out. 2025. Documento em que o Papa retoma o Pacto Educativo Global e propõe as prioridades da vida interior, do digital humano e da paz desarmada e desarmante. Acessar no site do Vaticano

REDE JESUÍTA DE EDUCAÇÃO. VIII Encontro de Formação Integral reúne jovens da RJE em vivência inaciana. Portal Jesuítas Brasil, 7 out. 2025. Apresenta o Encontro de Formação Integral (EFI), iniciativa da Rede que articula espiritualidade, autoconhecimento, discernimento, liderança e projeto de vida. Conhecer a experiência

REDE SALESIANA BRASIL. Lideranças Salesianas refletem sobre os desafios e oportunidades da Inteligência Artificial na Educação. 29 out. 2025. Relato do processo formativo da Rede sobre inteligência artificial, humanismo, discernimento ético e formação integral. Conhecer a experiência

COLÉGIOS MARISTAS. Pastoral Marista: uma educação baseada em valores humanos, éticos e solidários e conectada aos novos tempos. Iniciativa voltada ao cuidado, à escuta, ao acolhimento e à promoção de uma cultura de paz no ambiente educativo. Conhecer a proposta

Alexandre Ricardo Marins
Diretor acadêmico do Colégio Anchieta de Nova Friburgo (RJ). Doutor em Filosofia e Educação pela USP, com pós-doutorado em Educação pela Unisinos, e mestre em Currículo pela PUC-SP. É pedagogo, filósofo e teólogo, com trajetória na docência e na gestão da Educação Básica, além de autor de livros na área da Educação.

Autoria:

Alexandre Ricardo Marins

Diretor acadêmico do Colégio Anchieta de Nova Friburgo (RJ). Doutor em Filosofia e Educação pela USP, com pós-doutorado em Educação pela Unisinos, e mestre em Currículo pela PUC-SP. É pedagogo, filósofo e teólogo, com trajetória na docência e na gestão da Educação Básica, além de autor de livros na área da Educação.