O Jogo como Caminho de Formação Integral e Laboratório de Relações Humanas
A ideia central deste texto é gerar reflexões profundas sobre onde estamos nas nossas quadras escolares, onde queremos estar e, principalmente, como o esporte pode ser um meio poderoso para o desenvolvimento físico, mental e espiritual dos nossos adolescentes e jovens.
Certa vez, escutei uma frase em uma palestra do técnico Bernardo Resende que ecoa diariamente na minha prática pedagógica: “Eu não estou na indústria de ganhar e perder, eu estou na indústria de Desenvolver Pessoas”. Diante dessa afirmação tão contundente, pergunto a você, educador que me lê: Onde você está?
A Potência Pedagógica do Esporte e a Intencionalidade
Há alguns anos, tenho feito reflexões constantes sobre este tema, e elas me fazem acreditar de forma inabalável na potência pedagógica que o esporte possui quando é bem direcionado e desenvolvido. Há pouco tempo, ouvi uma pessoa dizer que o esporte é o único fenômeno capaz de unir, igualar e emocionar. E isso é uma verdade! Se fizermos uma rápida análise e olharmos para o comportamento das pessoas durante um jogo, notaremos a forma como estranhos se unem para torcer por um mesmo time. Naquele momento de êxtase ou tensão, ninguém liga para a conta bancária, para o carro ou para a casa de quem está ao lado. Todos se alegram ou choram juntos, vibrando pelo time.
E é exatamente porque o esporte une, iguala e emociona que o esporte educa. Ele é educativo em absolutamente qualquer nível ou categoria, do amador ao profissional. Mas precisamos ser críticos: o esporte não educa por si mesmo. Toda a sua capacidade transformadora depende da intencionalidade de quem está ali gerindo e direcionando a prática.
Quem não se emocionou ao ver a ginasta Simone Biles e sua compatriota Jordan Chiles reverenciarem a nossa Rebeca Andrade no pódio olímpico? Aquele gesto tem tudo a ver com reconhecer o talento do outro. Com certeza, ao longo de suas formações, alguém as ensinou a reconhecer o valor do próximo. Alguém lhes ensinou que está tudo bem em reconhecer que o outro foi melhor naquele momento específico.
A palavra-chave, portanto, é intencionalidade. O esporte educa para o bem ou para o mal; tudo depende da intencionalidade de quem o conduz. Nas quadras das escolas, atuo no esporte focado puramente para o desenvolvimento de pessoas. Neste caminho, o ganhar e o perder são apenas eventos cotidianos, desculpas maravilhosas que posso usar para contribuir no desenvolvimento integral dos meus alunos.
Como afirma o pensador Edgar Morin, “para ensinar a viver é preciso ensinar, também, a enfrentar as incertezas e os riscos”. Existe lugar melhor que o esporte para isso? A quadra é um laboratório onde podemos proporcionar riscos e incertezas “calculados”, ensinando nossos alunos a enfrentá-los com coragem antes de se aventurarem pelo mundo.
A Espiritualidade como Impulso na Direção do Outro
A semente desse pensamento integrador foi plantada na minha vida muito cedo. Meus pais me ensinaram que a vida é feita de escolhas, e que cada escolha representa muitas renúncias. Para eles, a “compreensão do outro” sempre foi parte estrutural da formação humana, o que eu chamo hoje de Espiritualidade.
Na infância, conheci o Movimento dos Focolares, que propõe um estilo de vida a partir do Evangelho, onde entendi que minhas escolhas são pautadas pela minha Espiritualidade. Rubem Alves descreve a espiritualidade de forma belíssima: “O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem… A espiritualidade busca comunhão…”. Portanto, espiritualidade é o impulso na direção do outro.
Mais tarde, ao estudar em uma escola Salesiana, comecei a perceber a potência do esporte como meio de formação humana. Lembro-me das aulas de Educação Física e de como aqueles professores me forjaram, porque sentiam esse impulso na direção do outro. Eles tinham a intenção clara de desenvolver pessoas a partir do lema de Dom Bosco: “Formar Bons Cristãos e Honestos Cidadãos”.
A Quadra Apoiada na Ciência e nas Habilidades para a Vida
Mas como estruturar essa intenção metodologicamente? Quando queremos educar, sabemos que precisamos fazer pausas para conversar e refletir. Precisamos de um olhar integral. Para isso, busco suporte em teorias sólidas.
A teoria de desenvolvimento motor de Gallahue me ajuda a entender como as habilidades motoras são adquiridas em diferentes idades. Já as teorias de Jean Piaget me dão clareza sobre o desenvolvimento cognitivo. Piaget explica que a compreensão da criança sobre o mundo evolui em estágios e afirma que o conhecimento se dá nas contínuas interações do sujeito com o outro e com o meio.
Além disso, baseio muito da minha prática nas Life Skills (Habilidades para a Vida), elencadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O esporte é o terreno perfeito para desenvolver:
- Autoconhecimento e Empatia: A capacidade do aluno de reconhecer seus limites e se colocar no lugar do colega.
- Relacionamento interpessoal: A habilidade para aprofundar laços.
- Lidar com sentimentos e com o estresse: Reconhecer as emoções no calor da partida.
- Tomada de decisão e Resolução de problemas: Analisar riscos e enfrentar situações adversas coletivamente.
Do “Eu” para o “Nós”: A Metodologia em Ação
Para colocar tudo isso em prática, adotei uma ferramenta pedagógica transformadora: o projeto Sports4Peace. Ele funciona como “um jogo dentro do jogo”, propondo a transição do “Eu” para o “Nós”:
- O EU: Criamos espaços que contribuam para o autoconhecimento. Como dizia Platão, descobrimos mais de uma pessoa brincando do que conversando.
- O EU ao TU: O espaço de convivência gera a “Beleza do esporte”. Um ato de cuidado na quadra é belo e ético, estimulando um jogo limpo que extrapola as quatro linhas.
- O NÓS: Deixamos o individualismo e passamos a ser comunidade, gerando um espaço fraterno de respeito e generosidade, onde os conflitos são resolvidos pelo diálogo.
No centro dessa ferramenta há um dado com seis regras de ouro: Dê o Melhor de Si!; Jogue Limpo; Aguenta Firme!; Fique Ligado; Comemore!; e Façam a Diferença. As crianças jogam o dado e a regra sorteada norteia toda a conduta daquela aula.
Como advertia São João Bosco, “a educação é coisa do coração”. Se queremos ensinar a compreensão e formar cidadãos plenos, devemos viver isso em primeira pessoa. Lembremos do alerta de Thiago Berto: “O que você faz, faz tanto barulho que as pessoas, não necessariamente, ouvem o que você diz”.
Se você quer conhecer mais sobre como desenvolver pessoas através do movimento e do afeto, seja muito bem-vindo! Eu venho com a minha bagagem, traga também a sua. Vamos juntos sair do “Eu” e construir um “Nós”. Bora!
Renata Leite
Professora de Educação Física nos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental no Instituto Laura Vicuña e Instituto São José. Possui Magistério, graduação em Educação Física, especializações em Desenvolvimento Motor, Pedagogia do Esporte e Neurociência no Esporte. Atualmente, é mestranda em Educação. Acredita no esporte como ferramenta de formação humana e socioemocional.



