Vivemos em um paradigma de “mudança de época”, um tempo de metamorfoses profundas que não alteram apenas as tecnologias, mas as próprias estruturas psicológicas e antropológicas do ser humano. No ambiente educativo, essa realidade manifesta-se em uma “emergência educativa’, confirmada pela dificuldade de formar pessoas capazes de encontrar sentido à própria vida. Diante de uma geração marcada pela rapidez e pela fragmentação, a escola católica é convidada a consolidar um currículo evangelizador que não seja um mero adorno religioso, mas a alma do projeto pedagógico, visando à formação integral de toda a comunidade educativa.
O silêncio e a interioridade: um caminho de liberdade e fortaleza
Um currículo que evangeliza busca pela promoção da dignidade humana e em nosso contexto a promoção do cultivo da vida interior nos apresenta uma postura atenta e responsiva diante da vida, e não como mero expectadores. Em seu pontificado o Papa Francisco alertava para uma “pobreza de interioridade” e uma “desintegração psicológica” causadas pela saturação de estímulos digitais rápidos que impedem o hábito da reflexão. Neste sentido, as escolas católicas em sua missão evangelizadora apresentam a proposta de uma espiritualidade encarnada, capaz ensinar para a “educação do silêncio”, ajudando comunidade educativa à um caminho interior capaz de reconhecer os seus sentimentos e sua história.
A postura de oração e a meditação apontam para o reconhecimento da manifestação de Deus que visita a cada ser humano. Dessa maneira, na espiritualidade cristã o encontro com Deus conduz ao reconhecimento de si mesmo e da compreensão dessa experiência mística torna o ser humano livre e forte.
O Currículo Evangelizador e fortalecimento da comunidade educativa
Somos convidados a viver em comunidade, mesmo em uma sociedade marcada pelo “antropocentrismo despótico”, que foi apontado pelo Papa Francisco, como “o desinteresse pelas criaturas.” Neste sentido para o fortalecimento da missão evangelizadora no chão da escola católica, é importante que a proposta e a intencionalidade do currículo evangelizador sejam apresentadas de forma processual para cada setor da comunidade educativa. A Educação como outros setores da sociedade tem exigido dos seus profissionais um olhar cada vez mais atento para as mudanças que exigem uma postura e linguagem que reconheça a beleza a singularidade do ser humano e sua maneira de ser expressar no mundo. Por isso, mais do que nunca precisamos ampliar nosso repertório para que possamos reconhecer os laços de fraternidade que precisamos fortalecer.
Ao olharmos para a história da fundação dos inúmeros colégios católicos identificamos a ousadia evangélica de homens e mulheres que souberam reconhecer a necessidade do seu tempo para através da educação promover a dignidade humana. Mas isso parte de uma experiência com a pessoa de Jesus Cristo, que os conduz à uma experencia mística e a uma transformação social.
Do “cancelamento” à mística de viver como irmãos e irmãs
Uma das feridas mais abertas da contemporaneidade é a coisificação do outro, revelada em violências como o racismo, a misoginia e a aporofobia. O currículo evangelizador deve ser uma voz profética contra essas práticas e contras os processos de “cancelamento” on–line ou presencial que destroem a reputação das pessoas em circuitos de ódios que tomam proporções de extremas.
A educação católica propõe, em resposta, a “mística de viver juntos”. Essa mística ensina a descobrir Jesus no rosto do outro, transformando a convivência em uma “caravana solidária”. O currículo deve formar também para a escuta fraterna, que acolhe a complexidade identitária do próximo e destrói conflitos através do diálogo.
A escola católica a partir da sua identidade, é reconhecida como um “lugar teológico”, por isso, é importante distinguir que não é um espaço de proselitismo, mas de aprendizagens e formação humana. A partir da promoção da dignidade humana e o aprofundando um olhar capaz de enxergar as periferias existenciais e sociais. A excelência da educação católica passa pelo por este caminho que pretende iluminar todas as esferas da sociedade sendo luz no mundo e sal da Terra.
Essa presença combate o individualismo narcisista e ensina que “tudo está interligado”, a escola promove uma cidadania que cuida da Casa Comum e reconhece a sacralidade de toda a vida.
Conclusão: O despertar de uma “sociedade do cansaço”
A educação que evangeliza é inseparável do compromisso com a justiça. O currículo deve favorecer experiências em que a teoria se une à prática para transformar a realidade dos mais vulneráveis. A escola deves ser o espaço onde se questionam modelos de desenvolvimento que geram iniquidade, inspirando o estudante a ser um agente do humanismo solidário.
Para aprofundar a compreensão do cenário da sociedade, sugiro a leitura do livro Sociedade do Cansaço, de Byung – Chul Han, o autor apresenta a tonalidade afetiva e a crise do coração humano. O currículo evangelizador atua como mapa para o caminho da formação humana integral onde é apresentada a importância de tempo para a contemplação e reflexão, o valor da pessoa e contra a lógica do consumo. Neste sentido o currículo evangelizador não deve ser um conjunto de conteúdos, mas a alma de uma comunidade que, imersa na mística da presença de Cristo, saiba converter o cansaço ocasionado pela aceleração capitalista na esperança ativa de uma humanidade que se reconhece sagrada, fraterna e livre de toda forma de descarte.

Bruna Martins Ferreira dos Santos
Teóloga e pedagoga, Mestra em Teologia Sistemática-Pastoral pela PUC-Rio, bacharela em Teologia pela PUC-Rio, licenciada em Ensino Religioso pela AVM e graduada em Pedagogia pela Faculdade Unyleya. Atua como professora de Ensino Religioso e agente de Pastoral Escolar em instituições católicas. Dedica-se ao diálogo entre Teologia e Educação, com ênfase na identidade confessional, Ensino Religioso, formação integral, espiritualidade e juventudes.



